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Crônica de Quinta: A beleza é possível

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 30 de junho de 2016



Há janelas que se abrem repentinas em nossa vida, trazendo uma luz outra, uma outra vista. Agora, por exemplo, no mesmo dia em que o jornal me mostrou policiais recebendo os turistas no Galeão com a faixa "Welcome to Hell", uma amiga americana me escreve dizendo que está chegando de férias na Grécia. Como se abrissem batentes, essas poucas palavras enchem de sol meu escritório e, daquele mesmo ponto de vista que tive um dia sentada à sombra de uma parreira de uvas novas, olho o fio de mel vertido sobre o iogurte, o cintilar de um copo, e os degraus irregulares das escadas que serpenteiam pelas ladeiras da Plaka. Por instantes, estou em Atenas.

Assim foi na semana passada. Precisando fazer uma radiografia para controle dentário - nada mais prosaico - atravessei vários quarteirões de Ipanema rumo ao endereço. Mas cheguei cedo demais e me vi na obrigação de fazer hora. Vaguei por uma loja de departamentos onde tudo me pareceu feio, andei um tanto a esmo, até chegar à conclusão de que melhor seria tomar um café no bar da galeria do consultório. Estava cheio.

Levei meu cappuccino para uma mesinha alta, sentei no tamborete. No outro tamborete da mesma mesa, um jovem lia.

Muito jovem, quase sem barba ainda. A seu lado, junto à xícara agora vazia, mantinha ligado o celular que, volta e meia, consultava. Percebi que não estava viajando em redes sociais, nem trocando mensagens, mas obedecendo a alguma necessidade imposta pela leitura. Teclava, dava uma conferida no livro, olhava a telinha, voltava ao livro. Eu o olhava como se o visse numa biblioteca, com uma pilha de livros de consulta a seu lado.

Não se interessou pela minha chegada, é provável que nem tivesse percebido. Lia atento, movendo por vezes os lábios jovens, não silabando, apenas respirando com mais empenho. Parecia trazer à boca as palavras do livro.

Sou pessoa bem educada, porém sempre que vejo alguém lendo ao meu lado, peco de indiscrição. Estico o olhar ou o pescoço, inclino a cabeça, procuro falsamente alguma coisa na bolsa, só para saber o título do livro e, através dele, localizar o leitor.

Não foi diferente dessa vez. Um tanto difícil, porém, porque o livro estava aberto sobre o tampo da mesa, a tipologia era pequena, e o leitor não abria a guarda para a minha curiosidade. Esperei pacientemente. E afinal chegou o momento em que, procurando um restinho de café no fundo da xícara, ele se distraiu, moveu a mão que segurava o livro, a capa ergueu-se, e eu pude ver o título.

Aquele jovem leitor estava lendo "Fausto", de Goethe.

Um ar mais fresco circulou repentino na galeria. Até então, tudo naquela tarde havia me parecido feio ou medíocre. As vitrines tantas por que eu havia passado não tinham nada de verdadeiramente novo ou surpreendente capaz de atrair meu desejo. Atrás dos vidros desfilava apenas uma longa repetição de produtos sem vivacidade. E naquele fim de tarde cinzento e frio, cinzentas e mal vestidas haviam-me parecido as pessoas que transitavam pelas ruas. Era a esqualidez urbana fazendo seu jogging ao meu lado.

Mas agora, na minha frente havia um jovem que lia "Fausto", um jovem em Ipanema tomado pelo sombrio poema de Goethe. Um rapaz que deslizava do século XVIII ao século XXI só com um espresso, um livro de bolso e um toque do dedo. Reconfirmada estava a possibilidade de ponte entre beleza e cotidiano.

Uma ideia toda azul por Samuel Medina


Samuel Medina é escritor, mediador de leitura e contador de histórias. Você pode acompanhá-lo pelo seu canal no youtube e pelo blog: O guardião.



Narração do conto "Uma ideia toda azul", de Marina Cosalanti. Formatura do segundo módulo do curso "A Arte de Narrar Histórias", realizado pelo Instituto Cultural Aletria.



Estudo do texto "Uma ideia toda Azul", de Marina Colasanti, para a apresentação na formatura do curso "A Arte de Narrar Histórias", realizado pelo Instituto Cultural Aletria.

Crônica de Quinta: Três coisas inesquecíveis

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 23 de junho de 2016



Assisti a uma entrevista na televisão sem saber que via um moribundo. Embora tivesse 92 anos, estava falante, alegre e saudável. A Senhora que dali a exatos 17 dias o pegaria na esquina, esperava oculta. Agora, sabendo da sua morte, o que dele ouvi parece adquirir outro peso. 

O entrevistado era Giorgio Albertazzi. Um desconhecido, no Brasil. Mas conhecidíssimo na Itália - a emissora era a Rai -, nome dos mais representativos do teatro, ator, muitas vezes diretor de si mesmo, poeta. 

A conversa foi longa e rica. Falou-se de vida, de amor - ele disse que não tinha sabido amar, tinha amado menos do que deveria, enquanto as mulheres, elas sim, amam desvairadamente. Mas o que mais me chamou a atenção foram as últimas respostas que deu ao entrevistador Fabio Fazio quando este, para fechar a entrevista, lhe perguntou quais haviam sido as três coisas mais inesquecíveis da sua vida. E frisou: coisas concretas, não valem as abstratas.

Giorgio pensou, e respondeu:

- O parque de Villa Berenson

- O cavalo de balanço

- O perfume da professora.

No parque de Villa Berenson Giorgio havia morado quando criança, tempo em que seu pai era o administrador e a família ocupava uma casa próxima da Villa. Não era um parque qualquer. De propriedade do historiador da arte americano Bernard Berenson, a Villa, pouco distante de Florença, era um ponto de encontro de artistas e intelectuais, rodeada pelo clássico jardim italiano renascentista. Ao morrer, em 1959, Berenson deixou tudo, inclusive sua preciosa coleção de obras de arte, à Universidade de Harvard, que o transformou em Centro de Estudos. A quem quiser saber da beleza que se manteve intocada na memória de Giorgio, sugiro que procure no google as imagens do parque.

Ele ainda era um menino no dia em que o pai o chamou: "Jorginho, venha olhar pela janela". Jorginho olhou. E lá embaixo viu um cavalo de balanço todo preto, com uma sela vermelha. Podemos crer que ao longo da vida tenha visto muitos outros cavalos, vivos, verdadeiros, e que tenha até montado alguns. Mas nenhum conseguiu preencher tão plenamente o seu desejo primeiro de possuir um cavalo, nem foi tão bonito e nobre quanto aquele todo preto que esperava imóvel enquanto ele descia desabaladamente as escadas. E é certo que nenhum teve sela mais vermelha.

O menino Giorgio foi à escola. E na escola estava a professora. Que no primeiro dia o abraçou, imprimindo nos seus sentidos, para sempre, aquele inigualável cheiro de pele e carne e mulher. Sim, ele repetiu na entrevista, concentrado como se o procurasse nas narinas, o perfume da professora. 

Giorgio Albertazzi teve todo o êxito com que um homem de palco pode sonhar. Estreou em uma peça de Sheakespeare dirigido por Luchino Visconti, apresentou-se em todos os maiores teatros da Itália e da Europa, foi Hamlet no Old Vic sob a direção de Zeffirelli, fez cinema, dirigiu, atuou. Sua vida contêm também um começo dramático quando, ao fim da Segunda Guerra Mundial, ficou preso durante dois anos por colaboracionismo, sendo libertado graças a uma anistia. 

Mas tão perto do fim, o que mais vivo se mantinha na sua lembrança eram os ciprestes e as sebes do jardim em que brincava na infância, o falso pelo negro de um cavalo de madeira, e o perfume da pele, ah a pele!, da professora.

Um click do Salão Fnlij do Livro para Crianças e Jovens


Perguntada sobre qual de seus livros mais gostou de escrever, Marina Colasanti dispara: "Cada livro é uma parte do todo. O atual tem um pouco do anterior e já traz um pouquinho do próximo. Eu gosto do conjunto da obra". Bagagem para afirmar isso ela tem! Está vindo aí o 60º livro da sua carreira. Uau!‪#‎18ºSalãoFNLIJ‬

Marina Colasanti no Auditório da UNIFEMM (Sete Lagoas)


Marina Colasanti estará hoje em Sete Lagoas, a partir das 19:30, no Auditório da UNIFEMM em bate papo sobre Literatura e Educação e lançamento de sua antologia "Mais de 100 Histórias Maravilhosas".

Marina Colasanti no Sesc Bom Retiro (São Paulo)


Debate sobre o tema: "Poesia e Conto - narrativas fantásticas para todas as idades"

Crônica de Quinta: Deserto em flor

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 16 de junho de 2016




O deserto de Atacama está em flor. Dita assim, a frase não enche de ondulação e cor o olhar de ninguém. Mais justo dizer: as planícies do deserto de Atacama estão tomadas por corolas, pétalas, pistilos, talos , inundação cor de rosa deitada entre as vertentes, que mais obedece ao sol do que à lua.

Estive em Atacama, faz algum tempo, comemorando um fim de ano com filhas e marido. Atravessamos quilômetros de aridez para nos defrontar, enfim, com a majestade das dunas e a extensão imponente do deserto. Tudo parecia estático no silêncio, enquanto o vento carregava grão a grão. À beira de um deserto fica-se parado, olhando reverente o mistério da erosão, aquela areia que já foi terra e agora se assemelha a um túmulo de vida.

Está bem, reconheço, os turistas nem ficam parados nem reverentes, fotografam, fotografam, fotografam, mais interessados em si mesmos diante da paisagem do que na paisagem em si, mais propensos a quebrar o silêncio do que a ouvi-lo. Mas estar turista é uma condição transitória.

E eis que nesses dias, algo insólito sucedeu em Atacama provocando a floração. Choveu. Não sei se muito ou pouco mas, ao contrário do que sempre acontece, foi água suficiente para não evaporar antes de alcançar o chão. E o chão brotou.

Há quanto tempo as sementes dessas flores esperavam, ignoradas, no escuro da terra? E como foram parar ali? Nada ou quase nada sei de sementes, mas gosto de pensar que estavam ali há séculos, desde antes da desertificação, brotando a cada ano como é hábito das flores, até aquele ano distante em que, pela primeira vez a chuva não veio e elas se refugiaram na letargia. Haviam sido feitas reféns pela aridez.

Grãos de trigo foram achados pelos egiptólogos nas tumbas dos faraós e, se bem me lembro, brotaram. Longa pode ser a resistência das sementes.

Só sementes de flor dormiam à espera em Atacama? Ou só elas brotaram porque a chuva caiu justamente no período que, desde sempre, correspondia à sua floração? Quantas perguntas move o inesperado. Tivesse a chuva caído em outro mês, talvez tivéssemos somente grama ou grãos, talvez rastejassem pétalas azuis.

Rosa, porém, é a cor do Atacama. E lá que flamingos vêm se reproduzir nos lagos da alta montanha e se alimentar depois nas águas da planície, juntando forças para a migração. Do alto, talvez tenha sido difícil para eles, vindos de outras paragens, reconhecer seu habitat de amor assim transformado. Ou reconhecer naquela imensa ondulação a mesma cor das suas asas. 

Não durarão muito as flores do Atacama. Flores pouco duram, mas estas, que não estavam destinadas à luz, terão vida ainda mais breve. Quanto tempo terão que esperar a partir de agora, nesta Terra que se aquece dia a dia tornando outra chuva sobre o deserto ainda mais improvável?

Nunca houve flores no Sahara. Ou nunca as houve desde que o deserto se alastrou. Camelos não pastam flores.

Nas fotos do Atacama em flor veiculadas pela internet, vejo raros turistas metidos até os joelhos daquela maré rosa ondulante, fotografando. As fotos, recolhidas no escuro ventre dos celulares não brotarão no tempo. Mas assim como os faraós determinaram que grãos de trigo fossem postos em sua tumba para brotarem na vida do além, as sementes do Atacama brotaram da escuridão para suavizar nosso áspero cotidiano.

Marina no Salão FNLIJ


A premiada autora Marina Colasanti participa hoje do Salão FNLIJ para lançar as obras que traduziu: "O país de João" e "O anel encantado", da argentina María Teresa Andruetto.

"O país de João" é uma bela história sobre amor e afeto. "O anel encantado" reúne sete histórias curtas sobre antigas lendas e contos de fadas.

Crônica de Quinta: Um laço de amor

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 09 de junho de 2016



Hoje tenho um hematoma na alma . Encerrou-se um amor generoso que durante quinze anos transmitiu seu calor a minha família. Cães não vivem muito mais do que isso, o fim era previsível. Mas não é por serem previsíveis que as perdas se tornam menores.

Não creio que Pixie ouvisse, quando lhe pedi perdão pelo acidente que a vitimou. Dopada pelos remédios, lutava contra o chamado da dor e contra o não entendimento - não entendia por que não conseguia se levantar, inertes as patas.

E certamente não poderia ler o que agora escrevo sobre ela. Leitora tão plena do mundo ao seu redor, nunca pareceu sentir falta de ler palavras. Era eu que lia ou escrevia tentando entender a vida, enquanto ela deitada serena no chão do meu escritório parecia ter seu próprio entendimento. Ocupadas em nossas respectivas naturezas, tomávamos conta uma da outra. Ela pronta a se levantar se eu o fizesse, eu olhando-a de vez em quando ou dirigindo-lhe alguma palavra só para ter certeza de que estava bem, protetoras as duas em nosso pacto de afeto.

Chamava-se Pixie porque era uma yorkshire, e quando ao nascer me foi dada de presente, única fêmea entre quatro irmãos, fui em busca de um nome que a vestisse como pele. Li, então, que nos bosques do Yorkshire habitam pequenos gênios, mínimos duendes chamados Pixies. E pareceu-me que havia nascido para esse nome, ela, a mais esperta da ninhada, tão pequena que cabia na minha mão, e que pouco haveria de crescer.

Tive muitos cães na infância e juventude, policiais, dobermann, setter, um galgo italiano, um pelo de arame. Mas o cão pequeno traz consigo uma delicadeza especial, uma fragilidade que nos torna responsáveis absolutos pelo seu bem estar. Ao buscar Pixie após o desmame, tirando-a da mãe, ficou evidente que seria eu sua mãe dali para a frente. 

Maternalizar um cão parece uma atitude senil. Não é. Os muito jovens, mais voltados para a construção de si mesmos, não encontram espaço para essa doação, nem se apercebem plenamente do tanto que lhes é dado. Só bem mais tarde dá-se pleno valor ao amor que se recebe. 

Pixie olhava o mundo de baixo para cima, e era instintivo pegá-la no colo para que visse de outro ângulo e recebesse palavras de carinho junto ao ouvido. É tão pequena uma york, que todos na casa se certificam o tempo todo da sua localização, para não pisá-la ou não perdê-la. A uma york se dão mínimos pedacinhos de comida na hora das refeições, porque parece cruel que participe em seco de uma cerimônia tão familiar. Uma york pede para subir no sofá quando a dona lê jornal. Uma york dorme na cama dos donos.

Mas cães, mesmo os mais amados, avançam no tempo com passos mais largos que seus donos. Aos poucos, Pixie foi ficando cega, depois surda, o olfato quase sumiu. Sentia mais frio. Eu que nunca menti minha idade, mentia a idade dela. Não queria viver com antecedência o que, inevitavelmente, me aguardava. Mas ela nunca me mentiu. Me fez saber que precisaria de cuidados crescentes, que, trancada no escuro e no silêncio não se levantaria mais quando eu me levantasse, que não ficaria o tempo todo perto de mim, mas dormiria longamente em lugares protegidos. E me fez saber, lambendo minha mão até a última hora, que nossa convivência estava perto de acabar, sem que se desfizesse nosso laço.

Eu sei mas não devia (vídeo)


Confira esse lindo vídeo e com belas imagens acompanhado da narração do texto "Eu sei mas não devia" da Marina Colasanti. 


Temos que ter mais bibliotecas e escritores no Brasil, diz Colasanti

Patrona da Feira do Livro do Colégio Sinodal em 2016, a escritora ítalo-brasileira Marina Colasanti conversou com alunos do Ensino Fundamental ao Ensino Médio na manhã desta quinta-feira, em São Leopoldo, no Auditório Principal da escola. Em bate-papo com os alunos, falou sobre a profissão e o cenário da educação no Brasil.


"No Brasil, há um potencial muito grande para crescimento no número de pessoas leitoras de livros. Nós escritores temos que trabalhar para surgir novas bibliotecas e escritores no Brasil. Para ampliar o universo de leitores e fortalecer a educação no país", declarou aos alunos.

"Quando estamos escrevendo, vivemos a história que estamos criando ou contando. Estamos acompanhados pelos personagens, imaginamos todos os cenários, vivemos intensamente o trabalho. O escritor vive em alta voltagem. A gente sofre, chora, tem vários sentimentos ao escrever um livro. Mas é um mercado bastante exigente", alertou. Além disso, há ainda a possibilidade do escritor não ver o seu sucesso em vida. "Infelizmente, algumas pessoas obtém um reconhecimento notório somente depois que morrem. A Clarice Lispector, por exemplo, não teve o merecido reconhecimento em vida. Mas hoje é uma das autoras brasileiras mais respeitadas em todo o mundo", conta Marina.

Maratona Sempre um Papo com Marina Colasanti


A nossa querida Marina Colasanti é a convidada do mês de junho em uma maratona de 3 cidades: dia 07, 3ª-feira, em Araxá, dia 21, 3ª-feira, em São Paulo e dia 22, 4ª-feira, em Sete Lagoas. Na pauta, o tema "Amor, Literatura e Educação" e lançamento de dois livros. Acompanhem, divulguem.

Mais informações no site www.sempreumpapo.com.br.