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Foto: Alessandra e Marina

Crônica de Quinta: Separados da alcatéia

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 30 de outubro de 2014



Em Nova Iorque, quatro jovens soldados se juntam numa calçada a pedido de um popular que quer fotografá-los. Repentino, um homem de rosto semi oculto por um abrigo com capuz sai por detrás de um poste. Empunha uma machadinha e ataca os soldados. Um deles é gravemente ferido na cabeça, outro no braço. O atacante é abatido a tiros pelos outros dois. Aquele homem morto em plena cidade não era apenas um homem, era uma arma, a mais nova arma do Estado Islâmico: o "Lobo Selvagem".

Os lobos, canídeos sobreviventes da Era do Gelo, são animais organizados e sociáveis, que vivem, caçam, e cuidam dos filhotes em grupo. Quando um lobo está infectado por alguma doença contagiosa, porém, afasta-se da alcatéia para não contaminar os companheiros, torna-se solitário.

Nos grupos de recrutamento do EI, naquelas mesquitas em que se arregimentam seguidores para a jihad, possíveis simpatizantes da causa estão sendo estimulados a adotar esse tipo de ação solitária. É uma idéia bélica extremamente conveniente. 

Um terrorista solitário sai muito barato. Além de palavras persuasivas e de um esforço inicial de doutrinamento, nada custa. Não requer deslocamentos ou treinamento, dispensa uniforme, e mesmo as armas com que realizará seu intento terão que ser providenciadas por ele próprio.

Um terrorista solitário, ou autônomo, tem ainda a grande vantagem de ser mudo. Pode ser preso, submetido a interrogatórios, até mesmo torturado, que nada revelará. Nenhuma rede, nenhum nome ou endereço importante será entregue ao inimigo. E não por heróico fanatismo religioso, mas porque ele nada sabe.

O mais provável — e o que tem acontecido até agora — é que, exatamente como uma bomba ou uma granada, o "objeto bélico" humano seja destruído quase contemporaneamente ao estrago que provoca. Pode ser considerado uma nova versão do homem bomba, bem mais difícil de detectar porque não carrega explosivos, mas ódio. E máquinas para medição do ódio ainda não foram inventadas.

O homem da machadinha era o americano Zale Thompson, recentemente convertido ao Islã. Sua mãe disse que depois de muito tempo sem saber do seu paradeiro, havia estado com ele recentemente. Descreveu-o como inquieto, anti-social, um desajustado. Podemos crer que já fosse um lobo solitário quando ouviu as palavras que lhe indicavam uma presa. Com elas, seu ressentimento represado achava maneira de escoar, e mais, adquiria grandeza, legitimava-se. Deixava de ser solitário, para tornar-se "Selvagem".

Penso na machadinha, arma pouco prática situada fora do cotidiano de uma grande cidade. E lembro que uma machadinha foi utilizada também em ataque similar ocorrido vários meses atrás em Londres. Sendo a machadinha versão menor do machado, e sendo o machado usado há séculos nas decapitações, faria sentido concluir que essas armas humanas pretendem, simbólica e materialmente, é decapitar os infiéis. Não por nada, o soldado de NY foi atingido na cabeça.

Na natureza, os lobos marcam seu percurso para o resto da alcatéia liberando cheiro pelas patas. Nas grandes cidades, os Lobos Selvagens só se denunciam quando atacam. E aí é tarde demais.

Sala de Literatura Infantil e Juvenil Marina Colasanti


Homenagem do Instituto Uka

Nossa biblioteca abriga duas salas de leitura: Uma dedicada a Marina Colasanti e outra ao maior líder Munduruku de todos os tempos: Biboy Kabá Munduruku falecido há poucos dias atrás. Está é também uma homenagem do Instituto Uka - Casa dos Saberes Ancestrais a este, agora, sábio ancestral.

A Rosa Desbotada


Dias atrás recebemos um e-mail do Raphael Leal, ele é radialista de formação e Educomunicador de alguns projetos sociais em Recife. Dentre eles, o Raphael ministra alguns cursos de rádio e produção de áudio pela Fundarpe (Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pe). 
Em um destes cursos, numa comunidade carente, um dos educandos levou o conto "Para que ninguém a quisesse", de Marina Colasanti, com o intuito de construir o roteiro para gravação de uma radionovela como produto final do curso. Após ser lido, o texto encantou a todos e juntos escreveram um roteiro baseado e inspirado no conto da escritora. O Roteiro final foi acrescido de signos referentes a realidade local.

Confira abaixo a raionovela A Rosa Desbotada apertando o play:



Mais informações sobre o projeto nos links:
www.educomidias.org.br
www.facebook.com/educomidiasprojeto

Por querer, só por querer

Um trecho do conto "Por querer, só por querer" que está no novo livro da Marina chamado "Como uma carta de amor" (Global Editora, 2014). 


Às vésperas de partir, um homem entregou à esposa um frasco de vidro. A viagem seria longa, disse, e para compensar tanta ausência fazia questão de receber, na volta, o frasco cheio das lágrimas de saudade que ela haveria de derramar. 
   Não era um frasco pequeno.
   Lágrima, a mulher não derramou nenhuma vendo o marido sair de casa, atravessar o jardim e afastar-se em direção ao cais. Esforçou-se, querendo aproveitar o momento propício para começar a colheita, mas embora levasse aos olhos, alternadamente, o longo gargalo do frasco, os cílios continuavam enxutos.
   Se não havia chorado no momento da partida, tornou-se ainda mais difícil fazê-lo depois. A casa vazia de marido era-lhe puro agrado. Não havia mais quem lhe desse ordens. Só se levantava ao fim do sono, só comia o que o desejo mandasse, não vestia corpete. 
   Nem vinha o tempo acender-lhe a tristeza. Pelo contrário. Com o passar dos dias, o que se acendeu nela foi o interesse pelo jovem ferreiro que, do outro lado da rua, martelava o ferro incandescente luzindo braços nus.

Crônica de Quinta: Amanhã, na arena

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 23 de outubro de 2014




Falta o último debate. Amanhã, no Coliseu mais visto do país, os dois gladiadores se enfrentarão usando as armas que já conhecemos, com vigor ainda mais acirrado. Nas casas, como nos antigos circos, os espectadores irão torcer, preparando-se para, no domingo, voltar o polegar para cima ou para baixo. Paira no ar uma tensão inequívoca. Dizemos a isso política, mas o que verdadeiramente dá vibração ao roteiro é a química cerebral.

Se em vez de só olhar o lado externo estivéssemos monitorando o lado de dentro dos dois contendores, verificaríamos que as taxas de açúcar e a pressão sanguínea de ambos estão altas, elevadas pelo cortisol e pela epinefrina ( para os íntimos, adrenalina). E que, como nos homens em guerra, a testosterona impulsiona a agressividade.

O que aconteceria se os dois times de assessores soltassem no ar spray de oxitocina?

Busco respostas no livro "O que é sexo?", de Lynn Margulis e Dorion Sagan- respectivamente biólogo e escritor científico- e na entrevista da cientista Kestin Uvnas, autoridade mundial no "hormônio do amor".

A oxitocina sai do hipotálamo e parece ir direto para o coração, tornando-o todo amor. Tanto nos humanos, quanto nos animais. E até mais neles do que em nós, porque foram constatados verdadeiros surtos afetivos em macacos, que a ânsia de retribuição torna até perigosos. Com o spray no ar, os nossos gladiadores poderiam sorrir amigavelmente um para o outro, e trocar o tenso "Candidata"/"Candidato", por querido/querida, ou até o mais suave " meu bem". E, em vez de sair pela tangente, cada um responderia clara e delicadamente à pergunta do outro,

Mas a oxitocina tem muito mais a oferecer. Reduz o sangramento no parto, o que não diria respeito a essa situação, e induz a lactação, o que poria em risco a roupa da candidata. Tranquiliza, torna amáveis e acolhedores, o que transformaria em conversa fraterna o que havia sido programado para ser um enfrentamento. Desenvolve o apego, o que tornaria difícil a separação dos dois ao fim do debate. E aumenta a generosidade, o que levaria cada um dos candidatos a evitar perguntas ou colocações embaraçosas, para não constranger o outro.

Kerstin Uvnas atribui à oxitocina a sensação de "ver a luz ", ou a segurança e o calor interno do êxtase religioso, sintomas que, entretanto, costumam ser mais comuns entre os eleitores - mesmo sem spray- do que nos candidatos.

Não sendo suficiente o spray de oxitocina, - que só apresenta resultados consistentes em altas dosagens- a feniletilamina, ou FEA, seria ótima alternativa. Neurotransmissor apelidado "droga da paixão", quando injetado em camundongos, macacos e outros mamíferos leva-os a gemer de prazer. É ele que tem suas taxas elevadas nos amantes apaixonados, e é ainda ele que acelera o fluxo de informações entre os neurônios.

A FEA é lâmina de dois fios. Por um lado, ao estimular a paixão, nos lança no perigo da alta voltagem. Pelo outro, é ela que nos induz à prudência, nos faz desejar a estabilidade, nos torna fiéis.

Amanhã, os dois entram na arena. Sem intermediação de oxitocina ou feniletilamina. É o último combate, e podemos crer que será o mais duro. Para eles que o disputam, e para nós que sofreremos as consequências, seja qual for o resultado.

O Leitor Manda Lembranças: Ben Hur

O Ben Hur, é um leitor frequente de nosso site e um leitor apaixonado livros da Marina. Abaixo algumas fotos da visita mais recente que Marina fez a Goiânia. 





Resultado Promoção de Aniversário

Ontem, dia 18 de outubro foi dia de resultado da Promoção de Aniversário da Marina com o livro "Como Uma Carta de Amor" (Global Editora) e o ganhador da promoção foi o Fábio Uchoa. Parabéns Fábio! Obrigado a todos que participaram e em breve teremos novo sorteio.



Marina vence Prêmio Jabuti com o livro Breve História de um Pequeno Amor

A autora Marina Colasanti, com o livro Breve história de um pequeno amor, lançado em 2013 pela Editora FTD, é a vencedora do Prêmio Jabuti na categoria infantil. O anúncio foi feito nesta quinta-feira (16), pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), responsável pela organização.
 
 
Vencedor também do Prêmio FNLIJ 2014, Breve História de um Pequeno amor, conta a história de uma escritora que encontra um ninho com dois filhotes de pombo. Por meio de uma prosa poética, o leitor compartilha as hesitações e os sucessos de uma história de crescimento e desenvolvimento. Como o próprio nome da obra diz, esta é uma história de amor, mas também de ciúme, aflição, paciência, saudade, preocupação, entre outros sentimentos.

 
CONFIRA OS VENCEDORES DAS PRINCIPAIS CATEGORIAS

Romance

1º lugar: 'Reprodução', de Bernardo Carvalho (Companhia Das Letras)

2º lugar: 'A maçã envenenada', de Michel Laub (Companhia Das Letras)

3º lugar: 'Opisanie Świata', de Veronica Stigger (Cosac Naify)


Conto e crônica

1º lugar: 'Amálgama', de Rubem Fonseca (Nova Fronteira)

2º lugar: 'Você verá', de Luiz Vilela (Editora Record)

3º lugar (empate): 'Nu, de botas', de Antonio Prata (Companhia Das Letras)

3º lugar (empate): 'Um solitário à espreita', de Milton Hatoum (Companhia Das Letras)


Poesia

1º lugar: 'Bernini - Poemas 2008-2010', de Horácio Costa (Demônio Negro)

2º lugar: 'Ximerix', de Zuca Sardan (Cosac Naify)

3º lugar: 'Jardim das delícias', de Marcus Vinicius Quiroga (Marcus Vinicius Quiroga)


Biografia

1º lugar: 'Getúlio – Do governo provisório à ditadura do Estado Novo (1930-1945)', de Lira Neto (Companhia Das Letras)

2º lugar: 'Wilson Baptista: o samba foi sua glória!', de Rodrigo Alzuguir (Casa da Palavra)

3º lugar: 'O castelo de papel', de Mary del Priore (Rocco)


Reportagem

1º lugar: '1889', de Laurentino Gomes (Editora Globo)

2º lugar: 'Holocausto Brasileiro', de Daniela Arbex (Geração Editorial)

3º lugar: 'Um Gosto Amargo de Bala', de Vera Gertel (Editora José Olympio)


Infantil

1º lugar: 'Breve História de um Pequeno Amor', de Marina Colasanti (FTD)

2º lugar: 'Da Guerra dos Mares e das Areias: Fábula Sobre as Marés', de Pedro Veludo (Quatro Cantos)

3º lugar: 'Poemas que Escolhi para Crianças', de Ruth Rocha (Editora Moderna)


Juvenil

1º lugar: 'Fragosas Brenhas do Mataréu', de Ricardo Azevedo (Ática Editora)

2º lugar: 'As Gêmeas da Família', de Stella Maris Rezende (Editora Globo)

3º lugar: 'Uma Escuridão Bonita', de Ondjaki (Pallas Editora)


Tradução

1º lugar: 'A Anatomia da Melancolia', tradução de Guilherme Gontijo Flores (Editora UFPR)

2º lugar: 'Antologia da Poesia Clássica Chinesa', tradução de Ricardo Primo Portugal (Editora Unesp)

3º lugar: 'O Capital: Crítica da Economia Política, Livro I: O Processo de Produção do Capital', tradução de Rubens Enderle (Boitempo Editorial)

Crônica de Quinta: Meus caros três

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 16 de outubro de 2014




Caro Salmão, escrevo para oferecer-lhe minhas desculpas, embora sabendo que não as receberá. Você era uma peixe nobre, um ser que, fosse humano, mereceria brasão. Elegante na vida e sacrifical na morte. Heróico destino o levava a deixar o rio de origem para buscar os oceanos frios, e a voltar na idade adulta àquele mesmo rio, subindo corrente acima sem sequer se alimentar, para cumprir o dever de reprodução e morte na mesma água em que havia nascido.

Comer sua carne era então um privilégio, e de privilégio tinha o preço. E porque era tão bom e porque era tão caro, resolveu-se que mais cômodo e mais rentável seria criá-lo em cativeiro. Ontem comi sua outrora nobre carne, fatiada em sashimi. Parecia um mármore mole, toda rajada de gordura. E a cor, a bela cor de coral que era dada pela alimentação à base de crustáceos, deve-se agora a corantes administrados junto com a ração e os antibióticos. Acabou, para você, a desafiadora subida rio acima, saltando para vencer a correnteza e escapar dos ursos. Não há correnteza nos viveiros, só uma multidão de semelhantes sobrenadando sem meta, à espera da morte.

Amada Galinha, sei bem que não é do seu feitio frequentar a internet, não podendo, portanto, ler essas linhas com que tento diminuir minha culpa. Ainda assim, a gratidão me impele a dizer-lhe o quanto sempre gostei dos seus ovos. Criança ainda, catei-os mornos, tateando no ninho que você acabava de deixar. Era uma apropriação indébita, bem sei. Mas escarvando com a pata em busca de algo para ciscar, você nunca me olhou com reprovação. Eu fazia um furinho de um lado, um furinho do outro e mamava com gula de raposa.

Esses ovos, entretanto, pertencem ao passado. Hoje não tateio ninhos, compro os ovos em caixas no supermercado, e posso escolher entre Ovos de Granja, Ovos Caipira, Ovos orgânicos e ovos de diversas marcas. A sua autoria, amada Galinha, foi encoberta. Você que era a única responsável por aquela maravilha da natureza, foi transformada em elo quase menor da corrente produtiva.

Vive agora em viveiros de tela, espécie de containers para seres vivos, muitas vezes superpostos e sempre superpovoados. Por vezes, as fezes dos habitantes de cima caem nos de baixo. Ah, sim, não tem que ciscar por comida, ela lhe chega pontual, com todos os aditivos que permitirão depois classificar seu produto. Mas não creio que cante alegre como cantava antes ao acabar de expelir o ovo, e certamente sabe que nenhum deles será seu para o choco.

Prezado Bode, receba meus respeitos e meu pedido de perdão, embora nunca tenha sido consumidora da sua carne, nem apreciadora de buxada. Admirava, porém , sua tenacidade, sua determinação em viver mesmo com pouquíssima água e com tão pouco de comer. Sempre o considerei um elegante, ser que vive na pobreza sem deixar-se humilhar. Aconteceu, porém, que eu fosse a Mossoró e, no caminho, parasse para o almoço em grande churrascaria.

Naquela terra, pareceu-me um dever pedir churrasco de bode. Que maravilha de maciez e sabor chegou-me ao prato! Regalei-me. Passada a sobremesa, comentei minha surpresa com o garçom, não esperava fosse carne de bode tão delicada. Ao que ele me respondeu que era bode só no cardápio, no prato vinha cordeiro do Uruguay. Você, meu caro, com seu longo passado, sua tradição bíblica, está sendo traído em nome do turismo.

Foto: Fabiana, Marina e Alessandra



Crônica de Quinta: Pelo menos, por hoje

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 09 de outubro de 2014


As semanas são todas iguais. Começam na segunda-feira e desfilam seus sete dias na mesma idêntica sequência, para terminarem à meia- noite de domingo. Aqui, como em qualquer lugar, como no Japão, do outro lado do globo, em linha reta debaixo dos nossos pés. Sempre a mesma coisa, uma semana atrás da outra e na frente também, sete dias em fila indiana como elefantes, de domingo a segunda. E a previsão de mais sete adiante.

No Brasil, confirmamos que é sábado - e que amanhã será domingo- comendo feijoada. Nas casas de outros países reafirma-se o domingo - que invariavelmente antecede a segunda- servindo à mesa carne assada. Ou lasanha. Ou sushi. Ou, então, almoçando de forma quase ritual na " casa da mãmãe".

Também os dias são todos iguais, menos os dois do fim de semana que são iguais entre si como irmãos gêmeos, mas não têm nada a ver com os outros. Os dias iguais das semanas iguais começam todos do mesmo jeito: obrigando a gente a abrir os olhos e a pensar que vai ser preciso levantar. Algumas pessoas se espreguiçam, mas não é tão obrigatório quanto abrir os olhos, o dia pode começar sem isso. Há gente que toma banho depois de sair da cama - antes, ficaria difícil- mas isso tampouco é obrigatório. O que, sim, é indispensável para colocar o dia em movimento, é o cheiro de café espalhando-se pela casa. O cheiro prende-se a uma presença que irmana todas as casas, a borra de café. Pode estar no coador, na maquininha italiana, no sachê descartável, na pia da cozinha, ao redor do ralo ou no saco de lixo, mas o cheiro não existe sem ela.

A partir daí, a rotina dos dias é de uma monotonia espantosa. Café tomado, há que trabalhar, comer, trabalhar mais, voltar do trabalho, comer novamente - se for possível - ver televisão e deitar para dormir na mesma cama da qual fomos expulsos de manhã, sabendo que no dia seguinte abriremos os olhos que ainda nem acabamos de fechar. Durante essas atividades, nos dedicamos a falar da própria vida e da alheia, e a despejar nosso lote de queixas a respeito do mundo e da existência.

Todos os dias temos algo de que nos lamentar. Mas, quando interrogados pelas pesquisas de comportamento, costumamos responder que somos felizes. Os dias, as semanas, os meses somados formam os anos. Os anos somados formam a vida. A única coisa que de fato muda todos os dias, embora só o confessemos uma vez por ano, é a idade. E se conseguimos sobreviver ao tédio é somente porque, sendo iguais, os dias são todos diferentes.

Abrimos os olhos, e nosso GPS interior é acionado automaticamente. O menu do dia anterior passa pela cabeça no tempo de duas piscadelas, seguido pelo cardápio do dia que começa. Já saímos da cama programados. O vento soprou em outra direção durante a noite, o clima mudou, ontem sandálias hoje galochas. O cheiro de café, a borra. E o dia se põe em marcha. Tudo pode acontecer. O encontro que mudará nossa vida está a caminho, a pessoa que deixará um cão na nossa casa já separou o filhote, uma surpresa ou um espanto nos espera além da esquina. E porque tudo pode acontecer, seguramos firme a alça da rotina, daquela rotina aparentemente monótona que nos permite crer que tudo será como ontem, que a vida continuará sendo como a conhecemos, que nada de ruim nos aguarda, que, pelo menos por hoje, estamos salvos.