Postagens em Destaque

Crônica de Quinta: A guerra que não houve

Marina Manda Lembranças, quinta feira 04 de fevereiro de 2016



Na portaria do meu prédio, perto do balcão de atendimento, presa no belo tanque de carpas, mora uma raquete. Não, os meus porteiros não jogam tênis. A raquete é daquelas que, eletrificadas a pilha, servem para fritar mosquitos. Há muitos mosquitos na portaria do meu prédio. Entram em bando se apenas for deixada aberta a porta de vidro. Todos os porteiros do meu prédio já tiveram dengue.

Moro em Ipanema, ao final de uma rua graciosa, sem saída, que termina na grande rocha sobre a qual se ergue a comunidade do Pavão/Pavãozinho. Pela rocha escorre, constante, um líquido - me abstenho de entrar na análise de sua composição - vindo do alto, que se acumula em um depósito atrás do muro com latadas de jasmins que conduz à entrada do prédio. Os jasmins foram plantados para suavizar o mau cheiro.

Moro no mesmo endereço há 45 anos. E há 45 anos os sucessivos síndicos do meu edifício vêm lutando junto à prefeitura para que se tome alguma medida. A única medida que se obtém, depois de grande insistência, é a retirada da lama acumulada ao fundo do depósito, procedimento denominado "limpeza". A limpeza é muito, muito rara.

Agora mesmo, em plena operação governamental de luta contra o aedes, os meus porteiros se defendem a raquetadas.

A guerra contra o mosquito foi perdida há muito tempo, se é que jamais houve guerra. Mais justo seria dizer que só houve conquista por parte do inimigo, facilitada pela nossa colaboração. 

O combate a um mosquito não pode ter início quando ele começa a plantar bebês microcéfalos nas estatísticas do país. Aí já é tarde. Uma guerra que se pretendesse ganhar teria que ter começado dotando de esgoto as moradias, cuidando para que ditas moradias fossem erguidas de acordo com as normas urbanísticas, recolhendo o lixo regularmente, e tornando cada cidadão moralmente consciente da sua importância numa luta que é de todos. Falei em educação? Pensei que estivesse subentendido, mas em certos países nunca está.

Sou do tempo do fumacê. Passava a máquina, as ruas se enchiam de fumaça pestilenta. Se a fumaça eliminava os mosquitos nunca comprovei, mas é fato que nos sentíamos mais protegidos. Hoje, se a máquina passar, sou capaz de nem reconhecer. 

Fui, no fim de semana, almoçar em um restaurante que há tempos apelidei Caverna porque, a partir de uma entrada normal, se prolonga pelas entranhas do quarteirão. Pois justamente no fundo, fresco e sem janelas, fui picada por mosquito. Domingo almocei em minha própria casa, no terraço, ar mais que livre,16º andar. Igualmente fui picada por mosquito. No escritório tenho sempre ao alcance um spray assassino. Da nossa família de quatro, dois já tiveram dengue. Os mosquitos reinam em toda parte.

Assim mesmo, cruzando na rua com grávidas, me surpreendo ao vê-las tão nuas. Um bustiê de alcinhas, um shortinho, e o barrigão à mostra. Já me disseram que esse é o uniforme das mais jovens. Porém, das mais velhas que encontro nenhuma está de mangas compridas e decote tapado. Não têm medo? Não acreditam na epidemia de Zika que está exigindo a atenção do mundo todo? Ou é o mesmo modo de pensar que faz com que pessoas joguem lixo no terreno atrás da própria casa ou usem seu quintal para desovar qualquer traquitana? Na luta contra o mosquito, Oswaldo Cruz retirou 36 carroças de lixo de casas e terrenos. Mas isso foi no início do século passado. De lá para cá a cidade só fez crescer, e o lixo com ela.

Bate papo com professores em Jacareí


Marina estará em Jacareí para um bate papo com professores. Em 2016, as escolas municipais iniciarão as aulas em 11 de fevereiro. A recepção dos professores está prevista para 3 de fevereiro, nos períodos manhã e tarde, no EducaMais Jacareí, com a presença do professor doutor Carlos Rodrigues Brandão, e da escritora Marina Colasanti.

Breve historia de un pequeño amor ganha prêmio da Fundação Cuatrogatos




O livro "Breve História de Um Pequeno Amor" acaba de ganhar mais um prêmio, dessa vez pela Fundação Cuatro Gatos. O livro foi lançado pela editora Santillana com lindas ilustrações de Elizabeth Builes. 

Veja o primeiro vídeo promocional com os 20 livros ganhadores do Prêmio Fundação Cuatro Gatos 2016. 


Crônica de Quinta: O inconsciente imutável

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 28 de janeiro de 2016

Gustave Doré

Hoje vou falar de coisas importantes. Faço o aviso para que o eventual leitor não tome por leve um tema que é serissimo: a idade dos contos de fada.

Um novo estudo científico acaba de revelar que os contos de fada têm sua origem na Idade do Bronze. Confesso minha ignorância, não sei bem o que seja filogenética. Sei somente que é utilizada pela biologia para estudar a evolução de espécies relacionadas entre si embora diferentes, comparando-as ao longo do seu percurso, até chegar a um ancestral comum. Pois foi esta a ferramenta de que lançaram mão o antopólogo Jamie Tehrani, da Universidade de Durham, no Reino Unido, e a folclorista Sara Graça da Silva, da Universidade nova de Lisboa. Analisando e comparando a estrutura narrativa e as palavras utilizadas em 275 contos ainda em circulação entre populações de 50 países que falam línguas de origem indo-européia, chegaram à conclusão de que o mais antigo deles tem 6 mil anos.

Para os estudiosos dos contos de fada não chega a ser uma novidade. Já no século passado, em seu livro "Origens históricas dos contos de fada", o russo Vladimir Propp situava o nascimento dessas narrativas entre as comunidades primitivas da pré-história, inicialmente como parte dos primeiros rituais e dos mitos que os acompanhavam, e em seguida circulando de boca em boca, autônomas.

A nova afirmação, entretanto, chega sob a proteção da ciência. Narrativas orais não respeitam fronteiras, e ao longo dos séculos os contos maravilhosos foram passando de um país a outro, obedecendo à proximidade e ao relacionamento das linguagens, levados por viajantes, missionários, mercantes e guerreiros. Percorrer ao contrário esse caminho, verificando as modificações que cada narrativa sofria no percurso, permitiu a Jamie e Sara montar as árvores genealógicas, ou filogenéticas, de 76 dos 275 contos iniciais. 

Diz Sara: "São escritas que não costumam ser vistas como literatura erudita, mas constituem fontes de informação preciosa sobre a evolução cultural dos povos, o comportamento humano e as tomadas de decisão. Eram contos para adultos, mais sangrentos e eróticos do que suas versões contemporâneas."

Bastaria isso para justificar a minha afirmação inicial. Tudo isso é muito importante. Mais importante, porém, é algo que não foi dito, e que pode ter escapado até aos pesquisadores. Ou seja: a conclusão desse estudo comprova que os séculos não incidem sobre o inconsciente humano. Ele se mantém inalterado, pelo menos, desde a Idade do Bronze.

Mudaram as palavras, mudaram os adereços das histórias, a ambientação, mas o seu eixo central permanece igual. E, em plena pós modernidade, continuamos não só contando esses mesmos contos, como adaptando-os aos novos costumes e aos novos suportes tecnológicos. 

O inconsciente se manifesta através de símbolos. A psicanálise já havia nos mostrado como os contos de fada são narrativas simbólicas que expressam vivências e sentimentos comuns a toda a espécie humana. Se essas mesmas histórias simbólicas encontram hoje plena aceitação, é sinal que os antigos símbolos continuam sendo "lidos" pelo inconsciente e dialogando com ele. A passagem do tempo, as mudanças geográficas, de linguagem e de hábitos não alteraram o valor dos símbolos e o seu significado. Ontem como hoje, são eles a voz do nosso inconsciente mais profundo, imutável, e comum a todos os humanos.

Pois por Vera Holtz


" - Teu pai, meu filho, era forte como um carvalho no fundo do jardim.
- Mas não há nenhum carvalho. Nem temos jardim.
- Justamente."

Hora de Alimentar Serpentes - Marina Colasanti


POIS"- Teu pai, meu filho, era forte como um carvalho no fundo do jardim.- Mas não há nenhum carvalho. Nem temos jardim.- Justamente."Hora de Alimentar Serpentes - Marina Colasanti

Publicado por Vera Holtz em Quarta, 27 de janeiro de 2016

Outro Modelo por Vera Holtz


Cansado de si mesmo, tatuou sobre o seu um corpo mais baixo, mais magro, mais jovem. E de mulher.


Outro Modelo“Hora de Alimentar Serpentes” - Marina Colasanti
Publicado por Vera Holtz em Quinta, 21 de janeiro de 2016

Crônica de Quinta: Dois bandidos, dois estilos

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 21 de janeiro de 2016




El Chapo é um homem de feitos espetaculares. Foi espetacular na última fuga, e igualmente espetacular na queda recente. Os românticos pensaram, caiu por amor. Os não tão românticos pensaram, caiu por tesão. Os mais lúcidos sabem que El Chapo caiu tentando completar um quadro de poder que o antecede de muitos séculos: ao mais poderoso, a mais bela. 

O chefe do cartel se Sinaloa foi claro na entrevista dada a Sean Penn, declarou-se o "maior traficante de drogas do mundo". Não apenas um grande, mas o maior. Talvez seja, não entendo desse mercado. Mas o que interessa é como ele se via, conquistador vitorioso, merecedor dos aplausos do mundo.

Por isso concedeu entrevista ao ator, contrariando todas as normas de segurança - o resultado foi o que se viu. Já não lhe bastava qualquer repórter, queria ir um passo adiante. Sean não só era garantia de eco internacional, como lhe abriria as portas de Hollywood. El Chapo sonhava com um filme biográfico feito por grandes nomes. Seria sua coroação.

Talvez tenha imaginado Kate del Castillo interpretando seu par romântico no filme. Certamente, a desejava para si próprio. Teria sido perfeita. A atriz que todo o Mexico admirava, já treinada pelo protagonismo na série " A rainha do tráfico" viveria plenamente seu papel na realidade. E ele, o grande homem, teria a mulher que todos desejavam.

Não foi assim com Ted Kennedy e Marilyn Monroe? Não foi assim com César e Cleópatra? Um grande homem pode até fazer filho na empregada, como Schwarzenegger, mas casa-se com uma Shriver, da família Kennedy.

Não deu certo. Tão impregnado estava El Chapo nos seus sonhos de grandeza, que nem arrefeceu depois que a visita de Sean e Kate foi seguida de uma investida das forças de segurança mexicana. Encurralado por um helicóptero, fugiu usando como escudo a filha da sua empregada. Mas, ainda sem desconfiar que suas mensagens criptografadas estavam sendo decifradas pelos agentes, manteve os contatos com Kate, e mandou preparar um apartamento luxuoso para recebê-la. Antes dela chegou a polícia. De nada adiantou o túnel de fuga que garantia o apartamento, depois de seis horas de caçada, o traficante caiu.

Conheceria El Chapo a história do bandido Giuliano?

Salvatore Giuliano foi o último grande bandido siciliano. Não mafioso, ligado à grande organização, mas bandido nos antigos moldes, chefe absoluto de uma quadrilha de no máximo 20 pessoas. Foi o bandido da minha infância.

Começou sua carreira em 1943, ao matar um policial que tentava prendê-lo por estar fazendo mercado negro de alimentos. Matou mais gente depois. Gostava de grandes gestos e de proteger os humildes, criou uma imagem de Robin Hood. No assalto à mansão da Duquesa de Pratameno encontrou-a na sala, beijou-lhe a mão e pediu que lhe entregasse todas as jóias, quando ela se negou, disse que então sequestraria seus filhos. A dama entregou-lhe as jóias. O brilhante que ela trazia no dedo ele transferiu para o seu, e antes de sair tomou emprestado da estante um livro de John Steimbeck, que devolveu mais tarde com um bilhete gentil.

Não sei de nenhuma Kate na biografia de Giuliano, mas sua vida dele rendeu um filme de Francesco Rosi, um livro de Mario Puzo, outro filme de Michael Cimino, e até uma ópera do compositor Lorenzo Ferrero. El Chapo morreria de inveja.

Em igual medida por Vera Holtz


Tinha orelhas tão pequenas, que só ouvia meias palavras


Em igual medida“Hora de Alimentar Serpentes” - Marina Colasanti
Publicado por Vera Holtz em Sexta, 28 de agosto de 2015

Menu por Vera Holtz


Satã sentou-se à mesa. Comeu saladinha de rúcula, mozzarella de búfala, tomatinhos cereja. Cuidava do colesterol. De sobremesa, concedeu-se almas”


O Menu“Hora de Alimentar Serpentes” - Marina Colasanti
Publicado por Vera Holtz em Quarta, 2 de setembro de 2015

Crônica de Quinta: Sete lobos brancos

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

ilustração: Anna Emilia via Wolfeyebrows

As sete grandes caixas de madeira ventiladas ao alto por orifícios do tamanho de uma moeda foram colocadas próximas à vegetação. Haviam chegado poucos dias antes, vindas da Áustria, após dois anos de negociações e cuidadoso planejamento logístico. Dentro das caixas, sete lobos brancos aguardavam aquilo que os humanos chamam destino.

Pedaços de carne e frango foram espalhados, isca benfazeja destinada a conduzir os lobos até os primeiros arbustos e dali à plena liberdade. A equipe de veterinários, biólogos, cinegrafistas e, certamente, algum vigilante burocrata, estava emocionada, tensa. As portas das caixas foram abertas. Sete focinhos prateados despontaram. Sem saber que aquela operação toda era para o seu bem, os lobos mantinham-se na defensiva, hesitavam diante do espaço à sua frente. Depois o olfato pode mais que a prudência, o cheiro da carne havia chegado. E lá se foram eles, a cabeça ainda baixa a princípio, pronta ao ataque, e logo erguida, carne entre os dentes, lobos livres na natureza. Um parque nacional francês acabava de receber sete preciosidades.

A França tem hoje somente 250 lobos. E assim mesmo, porque a espécie emigrou da Itália em 1992, sem respeitar fronteiras. Fosse só pelos franceses, estariam exterminados como uma praga. Os últimos foram mortos em 1920. 

Por que meu interesse em lobos, neste país que não os tem? Porque as crianças brasileiras, mesmo as muitíssimas que nunca viram um lobo em pessoa e as que não sabem o que é um lobo guará, conhecem muito bem esse devorador de avós e de meninas de capuz vermelho. Não só o conhecem, como é uma das suas personagens favoritas. Certamente, gostam muito mais dele do que da avó, da menina, e de toda ovelha que apareça - qualquer adulto que tenha filhos ou que lide com crianças conhece a alegria dos pequenos quando o lobo entra em cena, alegria tanto maior quanto mais o lobo é descrito como "feroz".

Recentemente, tendo sido convidada para fazer uma palestra em um congresso de literatura infanto-juvenil, me perguntei o porque dessa simpatia tão oposta ao sentimento que levou os adultos a quase deletar os lobos da face da terra. O lobo de que as crianças gostam não é o mesmo que ameaça os rebanhos e inquieta os criadores, é um lobo simbólico que representa a natureza selvagem, o desejo, a liberdade, e uma ferocidade indispensável. E porque as crianças "recebem"o lobo ficcional no mesmo período em que seu lobo interior está sendo grandemente reprimido pelo processo educativo, se identificam com ele.

Não por acaso Max, a personagem criada por Maurice Sendak no livro "Onde vivem os monstros", incorpora seu lado selvagem no momento em que veste a fantasia de lobo. A partir daí, e do castigo imposto para domesticá-lo — ele terá que ficar no quarto, sem jantar —, Max empreende uma navegação imaginária , alcançando uma ilha onde, assim como o macho dominante submete a matilha, dominará seres ferozes e se tornará seu rei.

Em Paris, no ano passado, criadores de ovelhas desfilaram com seus rebanhos diante da torre Eiffel, exigindo do governo licença para matar os lobos. Mas esbarraram na Convenção de Berne que, em 1979, estabeleceu que os grandes predadores europeus são espécies protegidas. 

Enquanto isso, contrariando o desejo dos criadores, sete lobos brancos se apossam da reserva francesa e se preparam para a reprodução.

Crônica de Quinta: Ipanema e a Idade Média

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 07 de janeiro de 2016



Hora de almoço. A jovem mulher, que havia trabalhado intensamente a semana toda, tinha uma brecha. Pensou no prazer de sentar-se para comer em algum lugar agradável, de preferência ao ar livre, andou um pouco à procura desse lugar, viu ao lado de um botequim um restaurantesinho com varanda. Pareceu-lhe o que estava buscando, entrou.

Havia mesa vaga na varanda. Preparou-se para a merecida pausa de paz e relax, nem tirou o celular da bolsa. Mas antes mesmo da comida chegar, o olhar daquele homem pousou nela como um besouro ou um inseto ameaçador que não se pode afastar com um gesto da mão. A paz que mal havia começado, foi se desfazendo pelas bordas.

Tratou de olhar para outra direção ou manter o rosto abaixado sobre o prato, ficasse evidente que não estava interessada. O homem, porém, não sabia ou não queria ler atitudes, continuava com o olhar grudado nela. Podia percebe-lo mesmo sem ver, olhar rêmora, que não a largava. E assim foi durante toda a refeição, ela sentindo-se acossada , ele sem desistir.

Afinal, pagou a conta , levantou-se, e já estava quase saindo quando seu ressentimento lhe impôs outra direção. Deu meia volta, parou junto à mesa em que o homem almoçava com alguns amigos, e o interpelou.

- Você tá olhando o que?! 

- Eu?! Olhando?! Tou olhando nada não, minha filha.

- Tá olhando sim!! Tá me olhando o tempo todo desde que cheguei.

- Eu tou olhando o que?! Nem sei quando você chegou. Sabe qual é o seu problema? Você é maluca! Devia procurar um psiquiatra.

- Sou maluca não. Mas tá bom, você diz que não estava me olhando. Vou te dizer então como eu me senti, te mostrar o meu ponto de vista.

E ela contou como havia procurado o restaurante em busca de sossego e comida, e como o olhar insistente dele havia estragado ambas as coisas, esse olhar ávido de caçador que não sabe distinguir a caça e acha que qualquer uma serve. Ela disse que havia dado todos os sinais possíveis do seu desinteresse, e mais, do seu desconforto. Que uma mulher tem o direito de sentar para comer num restaurante sem que isso signifique que está disponível. E que ela só queria ter sido deixada em paz.

Os amigos dele ouvindo, já com um meio sorriso, prontos para o deboche que fatalmente aconteceria depois que ela se fosse.

Ele ainda tentou uma cartada tão grosseira quanto o olhar:

- Você é de onde, hein?

- Sou nascida e criada aqui mesmo, em Ipanema.

- Duvido!, grossa desse jeito!

- Grossa eu?! por que?

- Porque está falando com um homem na rua.

Ela pensou de repente que eram argumentos antigos demais para a sua cabeça. Nada a ver. Deu meia volta e saiu. Mas levava um travo na boca, e a alma pisoteada.

Tinha dado só alguns passos quando ouviu o primeiro bater de palmas. Surpresa, olhou para trás. E viu que, de outra mesa do restaurante, um grupo de jovens, uma galerinha simpática, aplaudia a sua atitude. Sorriu para eles e para si mesma, os aplausos repunham a alma no lugar.

Esse fato aconteceu com minha filha Alessandra. E é bem ilustrativo da razão que impediu o Brasil de realizar o item “igualdade de gênero” estabelecido em 2000 pela ONU entre os oito Objetivos do Milênio. O prazo para os países completarem as oito metas de desenvolvimento socioeconômico esgotou-se ao término do ano passado, mas aqui os avanços nas questões de gêneros estão “travados”, como diz minha querida amiga , a professora Hildete Pereira de Melo. Ela, certamente, saberia elencar todos os elementos que estão puxando esse freio de mão. Eu digo apenas que a trava mais difícil de vencer está na base, nessa nossa mentalidade medieval que só vai mudar, talvez, quando a galerinha acabar de crescer.

Crônica de Quinta: Perfume de jasmim

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 31 de dezembro de 2015




Vi uma for de jasmim deslocando-se solitária e ainda fresca no braço da poltrona de vime. Olhei mais atentamente. Debaixo da flor, oculta pelas pétalas que sobrepassavam fartamente seu tamanho, uma formiga era a força motriz do conjunto.

Não havia outra formiga por perto, muito menos a fila exta em que as operárias costumam levar sua carga para o formigueiro. Esta fazia serviço solo e, sem a fila a guia-la, parecia hesitante sobre o caminho a seguir. Observei seu percurso.

Percorreu primeiro o braço da poltrona vencendo os obstáculos impostos pelo trançado do vime. Depois começou a descer. Não em linha reta. Descia traçando espirais irregulares, como quem desce um morro evitando o declive mais intenso. E , quando já lhe admirava a técnica, voltou-se e recomeçou a subir. A partir daí , pareceu ter perdido o caminho ou encontrar excessiva dificuldade naquele que escolhia. Ia e vinha, descia e tornava a subir, dava uma volta e retomava o mesmo rumo em que tinha vindo.

Deu-me pena. Tão pesada para ela aquela mínima flor, tão distante o chão que , visivelmente, tentava alcançar. Desejei ajudar. Peguei de um vaso de planta um talo de grama seco e, tentando ser discreta ao mesmo tempo em que era invasiva, o coloquei alguns milímetros `a sua frente. Se nos entendêssemos, ela tomaria uma carona no talo, e eu a depositaria salva e sã no chão, com sua flor.

Fracasso da operação. Talvez sabendo que o oferecimento vinha de uma humana e conhecedora das artimanhas de que os humanos são capazes, a formiga recusou a passagem. Voltou-se em ângulo reto para o lado e recomeçou a sua função.

Pensei que talvez o talo não fosse convidativo, quem sabe, demasiado instável para criatura tão carregada. Esperei um pouco e, vendo que minha agora protegida não se acertava nem para cima nem para baixo, procurei uma folha confortável e a coloquei ao seu alcance. Não exerceu o menor efeito. Ou melhor, exerceu, oposto e desastroso. Assustada com a folha `a sua frente, a formiga corcoveou, deixou cair sua carga, e ela própria foi ao chão.

Sentindo-me culpada, mas raciocinando que, afinal, a formiga havia chegado aonde pretendia, catei a flor e a pus a seu lado, que a levasse mais facilmente no plano. Mas o susto havia sido demais, contaminando o jasmim. Minha intromissão aniquilara a sua escolha, ela teria que recomeçar.

O ano está acabando. Fazemos hoje `a noite uma breve interrupção em que só a alegria é permitida. E amanhã retomamos nossa carga e seguimos caminho. Poucos de nós, é certo, carregam flores. A maioria vai mesmo de sacos de areia ou pedras. Muitos fazem serviço solo. Quando tentamos lembrar de mão desconhecida oferecendo talo ou folha, `as vezes lembramos de alguma, `as vezes não, embora muitas tenham se estendido para colaborar nas pequenas coisas.

Amanhã, como a formiga, recomeçamos. Este ano que passou nos deixou `a beira do abismo e, ao que tudo indica, no próximo não teremos superfície plana disponível. O vime `a nossa frente é dos mais trançados, cheio de obstáculos. Não há fila organizada `a frente, nem temos plano B disponível. O único plano de que dispomos é o mesmo que sempre nos guia: agarrar a carga com firmeza, olhar adiante, e injetar no imaginário perfume de jasmim.