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Crônica de Quinta: Em tempos de poliamor

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 28 de agosto de 2014



Leio nas folhas: os gêneros estão superados, é tempo de poliamor. Tento forjar uma definição: poliamor seria, então, todo tipo de parceria que o desejo sugere e o corpo realiza, não apenas em termos de sexo, mas também em termos de amor.

Pois justamente nesses dias dei de cara com uma história verídica, puro poliamor, que resumo para partilhar com vocês. As personagens são públicas, a história também.

Os irmãos Wachowski vocês conhecem. Larry e Andy. Se no momento não estão juntando os nomes às pessoas, dou uma ajuda: autores e diretores da trilogia "Matrix".

Pois bem, depois de cinco filmes, e de um sexto que entrará em circuito ainda este ano, Larry acabou trocando de sexo, tornou-se Lana, uma gatinha de dreadlocks cor de rosa. Até aí nada de estranho. Mas uma certa surpresa pode nos alcançar ao ler sua declaração ao "New Yorker":" Sei que tem muita gente morrendo de vontade de saber se fiz uma vaginoplastia, mas prefiro guardar essa informação para a minha mulher".

Vamos retroceder. Larry tem 10 anos e Andy 7, quando assistem a "2001, A Odisséia do Espaço", e o pai explica que o monolito negro é um símbolo. "Houve um estalo em mim. - diz agora Larry/Lana- Depois disso nunca mais fui a mesma pessoa". Talvez tenha ocorrido aí a primeira mudança. Os irmãos são inseparáveis, leem juntos, fabulam juntos, juntos mergulham no universo de Tolkien e nas histórias em quadrinhos. Terminados os estudos, partem juntos para Nova Iorque.

E ali são contratados pela Marvel Comics para escrever roteiros para a série "Ectokid", desenhada por Steve Korce. Filho de um fantasma, (!) Ectokid é um herói de 14 anos, que com o olho direito vê o mundo real, e com o esquerdo enxerga um mundo paralelo, cheio de criaturas espantosas, a Ectosfera. O duplo universo de Matrix, e de Larry, começa a se delinear.

Um salto adiante. Os irmãos Wachowski estão acabando de lançar "Matrix Reloaded" quando um certo Jake Miller procura o " Daily Mail" para acusar Larry de ter roubado sua mulher, Ilsa Strix. Jake Miller é, na realidade, uma ex-mulher que se tornou homem. E sua mulher - verdadeiro nome , Karin Winslow - é uma vedete sado-maso, dominatrix loura, flageladora, autora do vídeo "Trans Sex Slave" em que quatro transexuais se entrelaçam, e já indicada ao Oscar de vídeo X. Era ela a acompanhante de Larry na cerimônia de lançamento do filme.

Na véspera, a esposa de Larry - sim, existia uma esposa - Thea Bloom, havia apresentado um pedido legal de divorcio alegando "razões íntimas", acrescidas de razões econômicas, e pedindo que fosse sustada a construção de uma casa de 2,7 milhões de dólares - por esse preço quase modesto podemos crer que fosse mais um ninho de amor que uma mansão - destinada a acolher Larry e Ilsa.

Larry, que ainda não havia se decidido a ser Lana, entra em depressão. Se está vendo o mundo com dois olhos diferentes, nenhum dos dois lhe mostra ainda o que gostaria de ver.

Só em 2009, portanto seis anos depois da acusação de Jake Miller, e quando já havia realizado o último filme da trilogia Matrix, Larry casa-se com Ilse e, apoiado pelos pais e pelo irmão inseparável começa a terapia hormonal que o levará a trocar seu nome de Laurence Wakowski para Laurenca Wakowski, ou Lana.

Hoje, seu irmão Andy declara,"é muito mais fácil trabalhar com Lana, que com Larry".

Foto: Congresso de Leitura do Brasil (Cole)


Crônica de Quinta: Considerações a partir de um limoeiro

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Ilustração: Liekeland

Passei a manhã de faquinha em punho, limpando, raspando, tratando um limoeiro siciliano com cujos frutos faço o melhor limoncello senão de Ipanema, pelo menos da rua Nascimento Silva. O limoeiro cresce na minha casa de montanha cuidada com carinho e devoção por um caseiro excelente. Excelente, porém ligado à sua cultura. Para ele, mais importante que raspar, galho por galho, um arbusto parasitado por mofos, é cortar a grama, cuidar da aparência do jardim. Os ingleses criaram gramados estupendos entregando-os ao apetite dos cavalos. Um grego talvez preferisse cabras. É o jeito de cada um.

Faz muito tempo, quando o melão ainda era uma iguaria rara nas mesas brasileiras, um amigo meu, coronel da aeronáutica envolvido com o episódio de Aragarças (corrida rápida ao google), foi enviado, mais justo dizer degredado, para Belém. Era muito longe, muito isolada Belém, naqueles idos. Mas comia-se melão. Ele, com família, pouca ou quase nenhuma atividade profissional, e com um jardim, pensou logo em fazer uma plantação doméstica de melões. Preparou o solo, comprou as sementes, plantou conforme as instruções, e ficou esperando, já com água na boca. Brotos, plantinhas, proliferar dos ramos tentaculares das plantinhas, rastejar entrelaçado, e, sob as folhas, o surgir dos primeiros frutos pequenos e verdes. Tudo conforme o desejado. Todo dia meu amigo ia controlar o crescimento promissor, o verde cedendo espaço ao amarelo. Mas eis que quando os melões estavam quase maduros começaram, um a um, a apodrecer. Um inseto noturno roía o talo, separando-os da vida. E no entanto, havia melões à venda, produzidos por uma família de japoneses. Meu amigo foi até a plantação dos nipônicos, perguntar como conseguiam a façanha. E eles explicaram: era simples, cada membro da família passava uma noite em claro, lanterna em punho, percorrendo com a luz todos os talos da plantação, e esmagando os insetos roedores.

Antes de tornar-se ator, meu pai teve uma fazenda perto de Angra dos Reis. E ao transferir-se para lá surpreendeu-se vendo que nenhum dos trabalhadores que ali moravam tinha horta ou plantava qualquer coisa para consumo da sua própria família. Comentou comigo: “tem tanto chão, por que não plantam? – e acrescentou – Vai ver, não gostam de verduras”. Ele, porém, como bom italiano, decidiu logo fazer uma horta para si, a fim de comer salada. Não preparou o solo pessoalmente porque não entendia nada disso, mas mandou preparar, comprou as sementes, mandou plantar, e ficou à espera, a boca já salivando. Mal apareceram os primeiros brotos tenros, as formigas se apresentaram para o banquete, devorando tudo. Meu pai não era um homem especialmente determinado, mas gostava de uma boa mesa e era amante de salada. Tentou mais uma vez, as formigas só não bateram palmas porque não fazia parte do seu código de comunicação. Meu pai, então, providenciou pneus velhos que, cortados ao meio e cheios de água, rodeariam as plantinhas que haveriam de crescer de novas sementes. Dessa vez, as formigas não se atreveram a atravessar aquele fosso medieval sem ponte levadiça. As plantinhas cresceram. Meu pai, entusiasmado, plantou também couve. As couves cresceram. E quando tudo estava em ponto de ser comido, foi colhido, na calada da noite, por mãos anônimas e alheias. Os trabalhadores da fazenda gostavam, sim, de verduras. Só não gostavam de plantá-las e de lutar contra as formigas.

Entrevista em Penélope Manda Lembranças


Entrevista especial para o livro de contos "Penélope manda lembranças", publicado pela Editora Ática em 2001.

Crônica de Quinta: Ninguém à Janela

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Ilustração - Santiago Régis

Você está andando na rua. Há uma janela ao alto. Há sempre janelas ao alto se você anda na rua, qualquer rua, de uma cidade. Você não olha para cima. Quase nunca olha, tem uma meta à frente, e pressa. Se olhasse, veria apenas uma fachada de pouco ou nenhum interesse arquitetônico vazada pelos retângulos lisos das janelas. Ninguém debruçado, nenhuma presença humana visível. A fachada e os vidros, só isso.

E no entanto, era bom debruçar-se à janela. Quando o português Antonio Clemente Pinto, Barão de Nova Friburgo, comprou uma casa na Rua do Catete e a demoliu, pretendia fazer uma mansão no centro do enorme terreno que ia até a praia. Chegou a plantar fundações. Mas a esposa exigiu que a nova casa se erguesse logo a partir da calçada, janelas aberta para a vida da cidade. Não podia prever que em 1897 a mansão seria transformada em sede do Governo Federal, e que a partir daí ninguém mais olharia para fora. O lado de dentro havia-se tornado bem mais importante.

Janelas eram mais loquazes que portas. A porta só servia à passagem, a janela, à permanência. As avós, as mulheres que já não tinham serviços domésticos, ali se empoleiravam, algumas com almofada no rebordo. A dona da casa, depois de limpa a cozinha, chegava-se à janela, percorrendo a rua com o mesmo olhar organizador com que havia conferido o louceiro e o fogão. A moça ia à janela pentear o cabelo depois do banho, olhando a chegada da noite como se olhasse no espelho.

Ainda peguei o tempo das venezianas e, enquanto houve venezianas, houve uma espécie de convite. Abriam-se os batentes de manhã, e o próprio gesto levava a uma mínima parada, recepção do novo dia, conferência da ordem estabelecida pela luz. Fechavam-se os batentes à noite, e pela fresta formada antes de girar o trinco, dava-se um último olhar de despedida. Não há mais venezianas, há cortinas. Que não se abrem nem se fecham, estão ali quietas, quase parentes das paredes. Ou se abrem e fecham em lâminas, apenas girando a ponta de uma haste. E ninguém mais se debruça.

A janela foi substituída. Se aquela tradicional perdeu seu papel social – olho da casa aberto sobre a comunidade - , se serve apenas para deixar entrar ar e luz, se a rua parece distante lá embaixo, e se quem passa não se interessa por nós, abrimos outra janela, no quarto ou na sala, cheia de luz e cores, cheia de vida alheia, rica de paisagens, mais igual a si mesma que uma folhinha, mais cheia de ensinamentos que um almanaque, tão disponível quanto o tempo. E sobre ela nos debruçamos encantados, sabendo que nos espiona mas não nos critica.

A televisão tornou-se nossa janela. Se queremos saber que tempo fará à tarde ou amanhã, nada de olhar o céu, farejar o vento ou estudar as nuvens. A “moça do tempo” – sempre uma moça para suavizar as previsões- nos conta tudo o que queremos saber. Se ouvimos um tiroteio na esquina, esperamos que o noticiário do dia seguinte nos diga o que aconteceu – é mais seguro. E nem precisamos aguçar ouvido e olhar para saber o que acontece com os outros, nossa janela nos conta. Quando não conta, é sinal inequívoco de que as personagens não valiam a pena.

Esta semana tivemos noites de super Lua. Saí no terraço, noite alta, para viver o esplendor da sua luz. Olhei os prédios ao redor. Não havia ninguém à janela.

Marina no 19º Congresso de Leitura do Brasil (Cole)



O clima era de muita expectativa e de certo frisson entre as centenas de pessoas que se dirigiram ao Ginásio Multidisciplinar da Unicamp, na tarde desta quinta-feira (24), para acompanhar a conferência da jornalista e escritora Marina Colasanti, dentro da programação do 19º Congresso de Leitura do Brasil (Cole). Antes de subir ao palco e falar ao público, a convidada especial do evento conversou com a imprensa. Questionada sobre o seu processo de criação, ela surpreendeu dizendo que, ao contrário do que as pessoas pensam, o desafio de escrever se torna mais difícil com o decorrer do tempo. “A gente se torna mais exigente com o passar dos anos. É difícil ser original, pois vamos gastando o nosso repertório”, disse.

A escritora admitiu que “cortou um dobrado” para formatar a sua palestra, cujo tema foi “O navio fantasma atraca na terceira margem do rio”. “Não foi fácil resumir quase 50 anos de carreira e 50 livros publicados em apenas uma hora de conferência. Ainda assim, eu tentei enfatizar o modo como os diferentes gêneros com os quais trabalho dialogam entre si, formando de um todo”. Marina revelou que, quando criança, jamais pensou em ser escritora. Seu desejo inicial era ser atriz. Depois, optou por ser artista plástica e cursou Belas-Artes.

O ofício de escrever veio com o jornalismo. “Gostava muito do jornalismo, mas queria escrever também outras coisas além de histórias lineares”. Por causa dessa necessidade, ela criou uma estrutura própria e passou a transitar por diversos gêneros, tais como miniconto, crônica, ensaio e literatura infantil. Sobre o Cole, a escritora confessou que nutre admiração pelo evento. “O Cole cumpre o importante papel de divulgar o conhecimento e também de agregar os profissionais. Por onde eu viajo, eu sempre identifico a influência do Cole sobre as pessoas”.

Marina lamentou as recentes mortes de João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna. Perguntada se o virtual encontro desses escritores daria margem a uma feira literária no céu, ela até admitiu a possibilidade, mas fez questão de incluir um comentário crítico à sua consideração: “Só espero que seja uma feira menos midiática que essas que temos atualmente”.


Marina e seu pai Manfredo Colasanti


"Uma foto com Manfredo no dia do meu casamento, em novembro de 71."

Crônica de Quinta: A nova peste negra

Marina Manda lembranças, quinta-feira, 07 de agosto de 2014


Segunda-feira eram 887 as vitimas de ebola. Quando esta crônica sair no blog podem até ter chegado a 1000. Assim avança ela, desembestada.

Minha avó materna morreu de gripe espanhola. Teve duplo azar. Ela vivia em Parma, na Itália, país que teve o mais alto índice de mortos entre os cerca de 40 milhões vitimados no mundo. E a epidemia desapareceria pouco meses depois de atacá-la, na primavera de 1919 um ano depois do seu surgimento. Nunca se soube ao certo o que levou a gripe assassina a brotar, na Espanha, assim como nunca se soube o que a levou a sumir subitamente depois de ter feito o seu serviço.

Estávamos certos, porém, que epidemias desse vulto não cabiam no moderníssimo século XXI. Pelo bem da nossa paz interior, acreditávamos que o tropel de vírus, os cadáveres caídos pelas ruas, as multidões em pânico e os alertas internacionais pertenciam somente a um tipo específico de filme catástrofe. Quase como os mortos vivos que emergem dos túmulos, apodrecidos e sedentos de sangue fresco.

A medicina, pensávamos, evoluiu tanto que, haja o que houver, borrifa-se um spray, lavam-se as mãos, toma-se uma vacina, e pronto, o surto se limita apenas a alguns cadáveres, em alguns países que nada tem a ver conosco.

Agora, os países têm a ver conosco. Não porque estejam próximos. Nem porque tenha aumentado nossa capacidade de compaixão. Mas porque não acreditamos que fronteiras, mesmo fechadas, possam conter um vírus determinado como esse. Vírus nunca precisou de passaporte.

Donald Trump, o magnata que vai plantar torres na zona portuária do Rio e cuja notoriedade não se deve nem à simpatia, nem ao caráter, nem sequer aos penteados, tornou públicos seus temores ( aliás, o que nele não é público?). Insurgiu-se contra a decisão de repatriar o médico americano Kent Brantly, infectado quando lutava para salvar vidas na Libéria, e sua assistente, a missionária Nancy Writebol. Se médicos americanos querem se arriscar em países longínquos, disse Trump sutil, tudo bem, que o façam, mas que fiquem por lá.

Enquanto isso, na Libéria, quando a equipe medica que transportaria o médico de volta para o seu país preparava-se para aplicar-lhe uma medicação experimental secreta, este, embora estivesse grave, pediu que a medicação fosse aplicada antes em Nancy, porque ele era mais jovem. Até o momento em que escrevo, Brantly e Nancy continuavam vivos, o que não é garantia de um remédio miraculoso, mas abre esperanças.

Quando a Peste Negra atacou a Europa no século XIV, dizimando um terço da população, as cidades fecharam suas portas, como fizeram agora Libéria, Guiné e Serra Leoa. E como agora nesses países, também na Idade Media procuraram-se culpados pelo flagelo. Se então perseguiam-se os estrangeiros e acusavam-se pessoas de estarem envenenando os poços, hoje atacam-se postos médicos, dificulta-se o trabalho dos médicos e nega-se a existência da doença.

Muito longe da África, em Yushu, na China, a população é prevalentemente budista. E muitos vão ao rio que atravessa a cidade, munidos com uma vara, para libertar camarões minúsculos que ficam presos na lama. Como diz um dos fiéis, “Buda nos ensinou que a atitude correta é tratar com amor e compaixão todos os outros seres, por menores que sejam”.

Bart Janssens, coordenador das equipes dos Médicos Sem Fronteira que lutam praticamente sozinhas nos países atacados pela ebola , faz um apelo:”Estamos pedindo ajuda internacional, a situação só faz piorar”. E nós esperamos muito que seja ouvido.

Betty Ferkel nos cuenta Un amigo para siempre


"Un amigo para siempre" de Marina Colasanti en la voz de la narradora argentina Betty Ferkel coordinadora de la Mesa 5 en las 4º Jornadas Internacionales de Literatura Infantil y Juvenil 2014 - Sede Buenos Aires.

Almoço em Copacabana


Organizado por Aristóteles Drummond, o almoço de os Companheiros da Boa Mesa teve como ponto alto a comida mineira do restaurante Tulha, de Barbacena, famoso em Minas Gerais. A equipe veio ao Rio para preparar o almoço da confraria na cozinha do Copacabana Praia Hotel.



Entrevista para a Revista LolaMag


Marina Colasanti, em entrevista para a Revista LolaMag, comenta alguns de seus assuntos mais recorrentes: o amor, o feminino, a relação Brasil/Itália.

Crônica de Quinta: Que nos queiram bem

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 31 de julho de 2014



Semana passada, a Unicef divulgou os números: mais de 700 milhões das mulheres que vivem atualmente no mundo foram forçadas a se casar antes dos 18 anos, e 130 milhões de meninas foram excisadas.

Sempre soubemos que em muitos países meninas são obrigadas a se casar com homens que não escolheram, ou porque da mesma família, ou porque da mesma etnia, ou porque donos de camelos ou cabras, ou simplesmente para livrar a família do peso da sua alimentação. Mas uma coisa é saber por alto, como uma dado antropológico ao qual estamos acostumados, outra coisa é deparar-se com 700 milhões.

Se os 1000 palestinos mortos em Gaza no atual conflito nos destroçam a alma, o que fazemos com 700 milhões de meninas ou adolescentes mortas em vida?

Não se trata da quebra de um padrão romântico, casar sem estar apaixonada. Longe disso. Trata-se de ser dada em escravidão ao sair da infância, entregue a um macho para uso domestico e sexual incontido, ao longo de toda a vida. Sem que tenha cometido crime algum, sem que tenha infringido nenhuma lei, aquela que ainda ontem era criança se vê condenada por seus próprios pais, e a condenação é perpétua.

Olho o mapa da tragédia. Na Etiópia, ao lado da minha Eritréia natal e que na infância considerava um país irmão, 58% das mulheres que hoje têm entre 20 e 49 anos foram casadas, sem escolha, antes dos 18 anos. E na Eritréia, onde desejei voltar em busca das minhas raízes e não pude, 80% a 90% das mulheres entre 15 e 49 anos foram submetidas a ablação clitoriana.

Condenadas cirurgicamente a não ter prazer, essas mulheres o são duplamente, casadas com homens que não tem nenhum interesse em partilhar a alegria do sexo. Para elas, a sexualidade só pode ser vivida através de duas dores: a da penetração prematura e indesejada, e a dos partos.

Vi nos últimos tempos vários filmes que tratam de casamentos arranjados. Mais de um focava famílias indianas dos Estados Unidos em busca de parceiros matrimoniais para seus filhos, na Índia, com resultados desastrosos. Outro era sobre uma família argelina na França, querendo casar a filha com um rapaz em Argel. Um quarto passava-se na área da Palestina. Mas a maioria tratava o tema em tom irônico, e em todos eles negociavam-se jovens mulheres, nunca meninas.

Para mil meninos que nascem na Índia, nascem somente 918 meninas. Não é a natureza que privilegia os homens. São as famílias que fazem a triagem, abortando as meninas, consideradas um peso econômico pois não trabalham e precisam de um dote para casar. As famílias que abortam meninas não pensam que se todos fizerem o mesmo, seus preciosos filhos homens não terão com quem casar, e ninguém, de um lado e do outro, terá descendência. E a Índia é parte do BRICS, pertence ao nosso mesmo bloco econômico merecedor do respeito das nações.

Eu, mulher, recebo esses dados como uma agressão pessoal. Por que, me pergunto, por que a sociedade, essa sociedade moldada pelo homens não gosta de nós? Por que não nos quer e não nos respeita?

Conheço as respostas, é claro, estudei meu latim. E nada disso é novo, muito pelo contrário. Lembro que nos tempos do feminismo mais intenso, quando essas situações eram questionadas opunha-se toda uma conversa politicamente correta, de autonomia dos povos, ancestralidade, respeito à cultura alheia. Hoje, em tempos de globalidade, quero que essa falsa correção política se dane, e que o mundo defenda as meninas, defenda as mulheres. Não só que as defenda, mas que as aconchegue e lhes queira bem.