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A Mulher Ramada - Animação


Somos de uma produtora que faz já há 5 anos uma oficina de cinema com crianças e adolescentes chamada Oficina do Pequeno Cineasta, onde os jovens criam seus roteiros, dirigem e fazem todas as funções envolvidas numa filmagem para terem seus próprios filmes. ​

Dessa Oficina, surgiu no ano passado o convite do Canal Brasil para exibirmos uma seleção de filmes. Decidimos então abrir para que todos os jovens que tivessem seus filmes se inscrevessem para selecionarmos não só do nosso projeto e fossemos mais democráticos abrindo esse espaço tão bacana.

Um dos filmes inscritos e que gostaríamos muito de exibir é uma adaptação do seu conto "A Mulher Ramada". A animação é incrível e foi feita por duas adolescentes de 13 anos do Rio de Janeiro

Aline Barreiros


Crônica de Quinta: Desde os pterosauros



Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 18 de dezembro de 2014




Esta semana, enquanto o assalto à Petrobrás não para de crescer convocando nossa atenção, roubaram o punhal da estátua de João Caetano, diante do teatro do mesmo nome. Foi serrado e desapropriado na madrugada, juntamente com uma bolsa que faz parte do conjunto estatuário. Na notícia do jornal falava-se em "vândalos", acho que "ladrões "seria mais apropriado.

Estátua é bom, porque tem endereço fixo - e é melhor que fiação porque não dá choque. Rouba-se uma vez, espera-se a restauração, e volta-se lá. É a terceira vez, nos últimos dois anos, que levam o punhal do homem. O escultor Edgar Duvivier, que tinha refeito este, se oferece para fazer outro. Sugere-se não quebrar o molde.

O petróleo grosso das delações premiadas, da corrupção ativa e passiva, dos laranjas e das offshores entorna no meu colo, fecho o jornal e vou à feira em busca de laranjas mais honestas.

Passo pelo Chafariz das Saracuras. Era para ele estar seguro no pátio do Convento da Ajuda onde o queriam as freiras que o encomendaram a Meste Valentim. Mas o convento foi demolido, o chafariz foi doado à prefeitura e colocado na Praça General Osório, em Ipanema. Era 1911. Desde então, as quatro saracuras e as quatro tartarugas de bronze do chafariz vão e vêm como se vivas. As saracuras são mais migrantes, não por causa das asas mas porque aquelas patinhas finas as tornam mais fáceis de arrancar. As tartarugas, bem chumbadas na pedra pela barriga, ficam por algum tempo. Às vezes, restauradas, voltam todas. Mas o naipe raramente está completo. Hoje vi uma única tartaruga curtindo solidão.

A prefeitura contabiliza cerca de 40 furtos desses por ano. Arredondando, chegamos a um por semana. O furto dos óculos de Drummond já se tornou tão tradicional quanto as selfies que os turistas tiram com a estátua do poeta. E, não demora, a haste do violão que Tom Jobim carrega no ombro terá o mesmo destino.

O grande larápio diferencia-se do ladrão de galinhas apenas pelas quantias e pelos ternos bem cortados, ma o princípio é o mesmo. E ouvindo ecoar nos meus ouvidos a frase basilar do presidente do Bird ,"A corrupção é endêmica no Brasil", me pergunto se teria essa epidemia começado com o Caiuajara dobrunskii, pterosauro que há 80 milhões de anos habitou nosso país.

Pesquisas recentes nos dizem que 70% dos brasileiros não acreditam que Dilma nada soubesse do que estava acontecendo no seu quintal. Sobram 30% que acreditam, fora a porcentagem - que no momento desconheço e não vou procurar - dos que não sabem.

Ora, Dilma se elegeu com 51,64% dos votos. Podemos acreditar que mais de 20% dos que votaram nela, quando já estava rolando o pós-sal da Petrobrás, votaram acreditando que ela sabia. E votaram assim mesmo. Se na madrugada roubo o punhal de uma estátua, não me cabe indignação - ou devo dizer "repúdio", para ficar no clima? - pelo furto dos dinheiros públicos, e sim admiração.

Não se trata aqui da pessoa Dilma e dos seus bemfeitos, pois sem dúvida os há. Trata-se da situação em que essa pessoa estava inserida naquele momento. Ou devemos crer que olhos e ouvidos daqueles mais de 20% ainda não haviam sido abertos, apesar do noticiário, e eles votaram em um passado conhecido em vez de se inquietar com o passado e presente que estava sendo revelado?

Blog Gato de Sofá Manda Lembranças


Uma âncora ao mar para viver um breve e enorme amor

Cuidar, como verbo transitivo indireto - cuidar de quem, está meio fora de moda. Ninguém quer perder tempo e dinheiro com os outros. Somar tempo e dinheiro, inclusive, é uma operação comum antes da decisão por filhos e fazê-la é uma atitude honesta, que pode evitar escolhas erradas. A honestidade, no entanto, não muda o fato de que, em um mundo individualista e marcado pelo narcisismo, hedonismo e consumismo, cuidar dos outros é como estar em um navio e lançar uma âncora ao mar. O que ninguém pensa, nessa hora, é que, as vezes, o navio ancora em belas paragens. Um prazer que pode ser fruído por quem, menos ansioso, consegue ver beleza onde está. É sobre esse prazer que Marina Colasanti trata em Breve história de um pequeno amor, editado pela FTD, que acabou de ganhar o prêmio Jabuti de melhor obra de ficção. Um prêmio que colocou, justa e tardiamente, a literatura para jovens leitores no andar de cima. Na história, Marina é a própria personagem principal: uma cuidadora de um pombinho que ficou sem a mãe e passa a depender dela para viver. O bichinho come por suas mãos e aprende a voar, com quem não tem asas. Uma narrativa delicada, como é a marca da prosa poética de Marina, que soma-se às expressivas ilustrações da argentina Rebeca Luciani. O livro foi editado para leitores mais experientes, mas encantou meu menino pequeno. Antônio, com seus sete anos, ouviu com interesse a história da escritora que descobriu um ninho no forro do teto de seu escritório e assumiu a responsabilidade pelos filhotes, abandonados pela mãe. Foram três dias de leitura para acabar o livro. Três noites de carinho com o meu pequeno, que aconchegou-se a mim, como se fosse o filhote de Marina. Ao fim, Antônio acompanhou com o coração apertado o voo final do pombo, já crescido e acasalado. "Mãe, ela ficou triste quando ele foi embora", perguntou. "Ficou, Antônio, mas ela sabia que um dia isso ia acontecer. O importante são os momentos que eles passaram juntos", respondi. O pequeno amor de Marina pelo pombinho é como o grande amor dos pais pelos filhos. Nós cuidamos deles, mesmo sabendo que, um dia, vão nos virar as costas para, crescidos, irem embora. E, nem por isso, deixamos de cuidar deles. É o amor do qual fala Marina que faz valer a pena cuidar de alguém, mesmo quando isso parece um péssimo negócio. Este amor é que transforma a velha operação tempo e dinheiro, que na frieza da matemática sempre dá negativa, em positiva, para fazer valer a pena ter filhos. Há 13 anos, lancei minha âncora ao mar para curtir um pouco e, sei disso, por pouco tempo, essa paragem que é a maternidade. Posso assegurar que ela é um ótimo lugar para viver um breve, mas enorme amor. 
 
Luciana Conti
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Crônica de Quinta: Uma dor e uma pergunta

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 11 de dezembro de 2014



Ele vinha dirigindo o taxi a caminho do aeroporto e, de costas, disse em meio a uma conversa sobre a dureza da vida, que sua mãe havia morrido ao 29 anos.

Coitada, disse eu, sinceramente contrita. E morreu de que?

De fome. A resposta soou seca como um estalo. Seguiu-se um silêncio, em que qualquer coisa a dizer parecia momentaneamente invalidada por declaração tão dura.

Mas ele precisava falar, e retomou a conversa.

É por causa de fome que se cospe sangue, não é? O que a pessoa come é insuficiente, o pulmão vai ficando fraco, a pessoa começa a tossir, acaba tuberculosa. Olhou para mim pelo retrovisor, mais pontuando a fala do que em busca de anuência. E contou o resto.

A mãe dele tinha três filhos. O pai era casado com outra, família organizada, crianças, casa, tudo certinho. O dinheiro de que a mãe dispunha para sustentar os filhos era pouco, bastava para comprar comida para eles, três boca pequenas mas com fome. O que sobrava mal dava para alimentá-la. E foi aquilo, ela comendo cada vez menos, o pulmão ficando fraco, depois o sangue. Ele tinha seis anos.

E quem cuidou do senhor?, perguntei.

O pai tinha outros filhos, mais velhos, também fora do casamento, com uma terceira mulher. Ele ficou um tempo com uma irmã dessa safra, já adulta, depois foi morar com uma tia, depois com outro parente, e assim, pulando de uma casa a outra, cresceu. Os irmãos haviam sido separados. Quando teve idade, foi cuidar da própria vida, mais tarde veio para o Rio.

Não se queixou do pai. Nenhuma crítica. Seu sofrimento era por aquela mãe moça, amada, obrigada pelas circunstâncias a abandonar vida e filhos.

Me disse a idade dele atual, mais de setenta. E eu me perguntei em silêncio quantas vezes, ao longo de toda a sua vida de taxista, havia contado a passageiros desconhecidos essa mesma história, talvez com as mesmas palavras, sem conseguir desgastar a dor que o habitava desde os seis anos .

Aterrissei no aeroporto de chegada, tomei um taxi até o hotel. Trânsito lento. E o motorista encheu o tempo contando-se outra história. Também de pai.

Não dele, mas de um jovem cunhado. Que tinha 11 anos quando o pai amadíssimo, saiu de casa uma manhã como quem vai ao trabalho, e nunca mais voltou. Em vão o menino, e depois o jovem que ele se tornou, perguntou à mãe o que havia acontecido, onde estava o pai. Ela dizia não ter idéia, nem do motivo da fuga, nem se era mesmo fuga, e muito menos do seu paradeiro.

Passaram-se anos, o jovem fez-se homem, casou, estabeleceu sua própria família. E eis que um dia, recebeu no computador uma mensagem do pai dizendo que há muito o procurava, e acabava de encontrá-lo através do Face. A resposta imediata do filho continha a pergunta que há tanto o atormentava: por que você foi embora? Não posso explicar por internet, escreveu o pai, mas faço questão de te contar tudo pessoalmente; moro agora no Amapá; vou te mandar uma passagem para você vir para cá.

Combinaram que seria dali a duas semanas, na terça-feira. Você vai ficar sabendo tudo, meu filho- prometeu o pai.

A passagem chegou, o filho preparou-se para viajar. Duas semanas depois, na segunda-feira, o pai teve um ataque cardíaco fulminante.

O filho herdou o rendoso negócio do pai. Mas a pergunta ficou para sempre sem resposta.

Marina no Salon Du Livre de Paris


Em evento na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, a ministra interina da Cultura, Ana Cristina Wanzeler, anunciou nesta terça-feira (9/12) os nomes dos 48 escritores que representarão o Brasil no Salão do Livro de Paris 2015. Na 35ª edição do evento, entre 20 e 23 de março, o Brasil será o país homenageado e contará com espaço de 500 metros quadrados destinados à venda, exposição de livros e palestras com autores. Haverá ainda programação cultural paralela.
Os autores escolhidos são Adauto Novaes, Adriana Lisboa, Adriana Lunardi, Affonso Romano de Sant'Anna, Alberto Mussa, Ana Miranda, Ana Paula Maia, Angela Lago, Bernardo Carvalho, Betty Mindlin, Betty Milan, Bosco Brasil, Carola Saavedra, Cristovão Tezza, Daniel Galera, Daniel Munduruku, Davi Kopenawa, Edney Silvestre, Edyr Augusto, Fabio Moon, Fernanda Torres, Fernando Morais, Férrez, João Carrascoza, Leonardo Boff, Lu Menezes, Luiz Ruffato, Marcelino Freire, Marcello Quitanilla, Maria Conceição Evaristo, Marina Colasanti, Michel Laub, Milton Hatoum, Nélida Piñon, Paloma Vidal, Patrícia Melo, Paulo Coelho, Paulo Lins, Ricardo Aleixo, Rodrigo Ciríaco, Roger Mello, Ronaldo Correia de Brito, S. Lobo, Sérgio Rodrigues, Sérgio Roveri e Tatiana Salem Levy.

Eu sei mas não devia por Frederico Elboni


Frederico Elboni declama o texto "Eu sei, mas não devia" de Marina Colasanti. 

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

O Leitor Manda Lembranças: Silvia Castro


Trabalho em uma escola que se esmera em exercitar a busca por um caminho que alcance as crianças, que as torne cidadãos: ESCOLA MUNICIPAL PROFESSORA DYLA SILVIA DE SÁ. Além do conteúdo, importantíssimo lógico (!), nós nos ocupamos em criar meios, estratégias para levá-los à reflexão. Somos uma equipe de profissionais que trabalha para fazer o melhor possível. Não é fácil! E nem sempre é possível. Nossa maratona é diária com todas as dificuldades por que todas as escolas passam... Ufa! Mas "desistir" é uma palavra "out" de nosso vocabulário!

Faço parte do grupo que cuida da promoção da leitura na escola. Implementamos muitas e diversificadas atividades: desde o empréstimo de livros até eventos literários. Um deles já acontecia antes mesmo de eu chegar à escola, a FLED. A FLED - FEIRA LITERÁRIA DA ESCOLA DYLA, de inciativa de minha colega de trabalho Mariana Fragali, ganhou reforço com a minha chegada e de outrra querida, a Ana Grauer, a maga das multimídias.

Estávamos juntas e mais todos os funcionários da escola e mais nossa direção e mais nossa direção adjunta e mais nossa coordenação e mais nossos alunos para fazer o "melhor possível", para que nossa feira trouxesse para as nossas crianças a experiência de uma vivência literária. E recebemos visitas ilustres que encantaram nossos alunos: a LIVRARIA ALEGRIA DAS LETRAS, a escritura Sônia Rosa, o escritor Cristino Wapichana, a ilustradora Thais Linhares... E nossa homenageada: Marina Colasanti.

Sim, Marina esteve em nossa escola. Mal pude respirar ou mesmo falar com ela de tão emocionada que fiquei. Lembrei dos contos lidos quando menina e quando comecei a conversar com ela, não resisti... Desaguei... Existia mesmo a escritora que morava dentro de mim. E ela estava bem na minha frente. E eu não tinha nenhuma palavra para dar para ela, em retribuição a todas as ideias que ela foi plantando em minha alma com sua obra. Tentava citar trechos de livros, títulos, qualquer coisa para me salvar... Mas nada. Era eu e ela e o encantamento. Desisti e parti para correr com a vida que o trabalho estava ali me cutucando.

A FLED então seguiu em suas bem traçadas linhas e sabemos que ficou longe da perfeição, porque sempre haverá maneiras de melhorarmos... Mas ficou perto de nossas crianças, viva na memória de nossas crianças, em nossos corações...

No entanto, no meio do caminho tinha uma criança e sobre ela Marina voou... Foi ao chão, completamente! Ficamos todos entristecidos, chorosos, culpados... Se fora um conto essa realidade que vivemos e se fóssemos nós os escritores, com certeza, comporíamos um novo final, onde nossa musa, teria asas delicadíssimas, como sua pessoa. As asas a fariam voar por sobre nossas cabeças e seus dedos finos desenhariam textos no ar, onde poderíamos ler respostas para o inusitado de modo poético, lírico, como só Marina sabe fazer... Só que não foi assim... E lá se foi nossa Marina de nariz quebrado, correndo pelas ruas das cidades...

Ficamos nós também com nossos narizes de encontro às vidraças, sem saber o que falar e quase esquecidos de como foi tão importante aquela manhã para nós... Quase nos esquecemos da curiosidade de nossas crianças ouvindo Cristino Wapichana, dando um "bom dia" em língua indígena, mostrando um cocar lindo de penas coloridas e nos lembrando de nós, nossos ancestrais, na história do que fomos e sempre seremos; ou da vivacidade da Thais, com seu blocão, criando imagens para as histórias que os nossos meninos iam inventando; ou de nossa brasileiríssima Sônia Rosa, com sua bolsa de narrativas, de valorização de nossa cultura... Quase deixamos de ver isso tudo e muito mais, porque também estávamos de nariz vermelho, inchado, nesse quebra-cabeças do inusitado.

Finalmente, antes mesmo que pudéssemos esquecer e para nos lembrar que a vida é mesmo imprevisível nossa musa mada um recado, enquanto refaz seu nariz... A crônica "CRÔNICA DE QUINTA: DE BICO QUEBRADO". Esse foi um final muito feliz e que nos deu a esperança de muitos recomeços...
 
Sílvia Castro

Leia a crônica "De bico quebrado"

Crônica de Quinta: De que penas?

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 03 de dezembro de 2014



O ermitão São Securide, vivendo em completa solidão na costa bérbere, fez das árvores suas amigas, pois mais que os animais e os humanos eram mansas. E tendo orado muito, obteve que elas fossem livres e pudessem andar como as outras criaturas. De longe, surpresos, os homens viram o santo passear seguido pela floresta. Como ovelhas, as árvores deviam obediência ao seu pastor, voltavam ao lugar de origem quando ele tocava um pequeno sino, e nada podiam estragar da natureza, nem nada podiam devorar.

Aconteceu, porém, que uma das árvores sentisse algo como uma grande ave pousar-se um dia em seus ganhos, e ouvisse uma voz que não a do santo. A voz obscura de quem já fora serpente a ele se dirigia. E à medida que a voz falava, crescia na árvore o desejo de alongar-se, agarrar os pássaros que voavam entre folhas e ninhos, e despedaçá-los. Então o tentador povoou o alto da árvore com seus pássaros de orgulho, pavões em bando, que a árvore estraçalhou até eliminar qualquer vestígio da sua presença.

Pacificada, voltou em seguida para junto da sua floresta. Mas os bérberes da costa contam que com a chegada da primavera todas as árvores se cobriram de folhas novas, menos aquela, que em lugar de folhas desabrochou plumas de estranhas cores. Foi assim que o santo soube do pecado cometido.

Resumi a bela história de Chesterton, escritor inglês do século XIX, porque bateu-me um desejo de falar de asas. E conto outra, essa extraída de The prehistory of aviation, Chicago, 1928, e citada em um ensaio de Bachelard.

O abade Damião, prelado e pesquisador italiano residente na corte da Escócia, sonhava voar. Afinal, em 1507, após longos estudos e seguindo o exemplo de Ícaro, fabricou para si um par de asas emplumadas, e foi lançar-se do alto de uma torre. Não voou nem alguns míseros metros. Despencou a prumo, quebrando as duas pernas.

Mais tarde, atribuiu sua queda à qualidade das penas. Havia feito recurso a numerosas penas de galo ( talvez por serem mais vistosas e mais fáceis de obter) e elas haviam manifestado sua "afinidade natural" pelo galinheiro e o chão. Não fora suficiente, para impedir o apelo galináceo, a presença nas asas de outras penas verdadeiramente "aéreas" que, estando sós, teriam assegurado o pleno vôo do abade céu acima.

Asas e pássaros talvez tenham estranhos poderes, pelo menos , simbólicos. Em Les Soirées de Saint-Pétersbuourg, Joseph de Maistre nos diz "que os sacerdotes egípcios... durante o tempo de suas purificações religiosas só comiam carnes de voláteis, porque os pássaros são os mais leves de todos os animais."

E um naturalista árabe, citado na Biblioteca Aeronáutica Italiana, por Boffito, diz que o pássaro é um animal "tornado mais leve":

"Deus tornou mais leve o peso do seu corpo, eliminando dele várias partes... tais como os dentes, as orelhas, o ventrículo, a bexiga, as vértebras dorsais."

Ao tempo do naturalista árabe, ainda não havia conhecimento dos dinossauros voadores, cheios de dentes, orelhas, ventrículos, garras, escamas e vértebras dorsais. Feitos, eles também, por Deus, talvez em princípio de carreira.

E porque estamos falando Dele, uma pergunta: de que penas são feitas as asas dos anjos?

Entrevista exclusiva para o blog Conta uma História


Marina Colasanti concedeu uma entrevista exclusiva ao blog "Conta uma História". Ela fala sobre a arte de escrever para crianças e do livro premiado duas vezes numa mesma edição, o 56° Jabuti. 

Rosa Maria: Marina, gostaria que você comentasse sobre o trabalho de criar histórias para crianças.

Marina Colasanti: Estamos falando de histórias ou de literatura para crianças? Histórias são tão fáceis de criar quanto de escrever. Já a literatura requer o mesmo trabalho daquela destinada aos adultos. Exige o mesmo cuidado, a mesma criatividade, a mesma riqueza de conteúdo. Dependendo da história pode também exigir pesquisa. Enfim, é um sério trabalho artístico.

RM: Que elementos possui uma boa história infantil?

MC: Vejo que você estava mesmo se referindo a histórias, a fórmulas de cunho bem dirigista, educativo. Que são, na verdade, as mais presentes no mercado, embora não as mais requisitadas. Mas não é com isso que eu trabalho. Cada um dos meus livros ou dos meus contos tem elementos diferentes. Ou, pelo menos, é o que busco fazer. Os elementos que utilizo são os mesmos que me atraem quando escrevo para adultos. O que difere é a embocadura. E a maneira de contar.

RM: O que é permitido e o que deve ser evitado na literatura infantil?

MC: Uma sociedade que alimenta suas crianças com desenhos e games de super heróis e similares, abriu a porteira para a violência, a morte, a brutalidade, a prepotência. A meu ver, tudo é permitido, não dessa forma exacerbada, mas com bom senso e do bom gosto pode-se tratar de tudo.

RM: Gostaria que falasse sobre sua experiência com os livros infantis, uma vez que também é uma autora consagrada em literatura para jovens e adultos.

MC: Minha experiência é ótima. Pelo prazer que me dá e pelo reconhecimento que tenho tido. Alterno constantemente livros infantis, adultos e juvenis porque gosto de todos. Nunca me limitei a um gênero. E sou tradutora também para todos. Este ano traduzi um belo livro infantil de Maria Teresa Andruetto (autora argentina, Prêmio Andersen) , "O País de João", e acabo de traduzir uma versão mais infantil de "Alice No País das Maravilhas" escrita pelo próprio Carroll.

RM: Como nasceu a “Breve história de um pequeno amor”?

MC: Exatamente como é contado no livro. É uma história real, um breve amor que, de fato, a vida me deu de presente. Contar essa história foi um processo natural, estimulado por minha amiga Yolanda Reyes (escritora colombiana) a quem contei os fatos e que insistiu para que eu os escrevesse.

RM: Como as crianças reagem à história?

MC: Ainda não tive muito contato com crianças leitoras dessa história. Acredito que a adoção ficará mais intensa no ano que vem.

RM: Qual o impacto do Prêmio Jabuti na obra? E no autor?

MC: Na obra, exatamente, nenhum porque a obra já está pronta. Tem impacto na sua circulação, na adoção. O Jabuti é um selo de excelência reconhecido por todos. Para mim, é uma grande alegria, sobretudo por seu meu 7º Jabuti, em gêneros diferentes, e minha oitava tartaruguinha, porque tenho mais uma de Livro do Ano.

RM: Como avalia a produção infantil no Brasil?

MC: Não me cabe essa avaliação, não me parece elegante avaliar meus colegas. Quanto ao mercado, é o mais forte de toda a produção literária, embora sendo sempre considerado um gênero "menor".

RM: Como os meios eletrônicos têm influenciado as crianças e conseqüentemente a maneira de o autor produzir uma obra para este segmento?

MC: Como estão influenciando as crianças é assunto que ainda está sendo estudado e que vem recebendo muita atenção. Quanto a produzir uma obra "para" este segmento, não tenho a menor ideia. Meus livros juvenis e infantis mais recentes estão saindo contemporaneamente em versão papel e versão digital. Mas eu não alterei em nada a minha maneira de escrever.

Cerimônia de entrega do 56º Prêmio Jabuti no Teatro do Ibirapuera





56º Prêmio Jabuti (18/11/2014)
São Paulo/SP - 18/11/2014 - Cerimônia de entrega do 56º Prêmio Jabuti no teatro do Ibirapuera.
Foto: Daniel Deák

Outras fotos do evento aqui

Crônica de Quinta: Bicicletas na estrada

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 27 de novembro de 2014




Pegamos as bicicletas, e fomos. As bicicletas não eram nossas, mas alugadas na lojinha muito modesta da cidadezinha mais modesta ainda. Não correspondiam exatamente ao nosso tamanho, eram as que havia disponíveis.

Saímos assim que clareou. Nós também clareávamos, sorrindo à aventura. Três amigas em férias, hóspedes no sítio de uma delas. Três adolescentes que como boas meninas se despediram da única mãe presente, prometendo tomar cuidado e dispostas a não fazê-lo.

Nosso plano era simples: sair de Conselheiro Paulino, perto de Nova Friburgo, pedalar pela estrada até Bom Jardim, e de lá embarcar de volta no trem –sim, havia trem-, descer em Conselheiro, devolver as bicicletas na loja e caminhar até o sítio. Pretendíamos estar em casa depois do almoço. A distância equivalia a 15 quilômetros, não parecia muita coisa.

Alguns detalhes, porém, se infiltrariam no nosso plano. Primeiro detalhe: nenhuma de nós era ciclista ou sequer amiga de bicicleta. Segundo detalhe: a estrada não era asfaltada, mas de terra. Terceiro detalhe: não conhecíamos o percurso, nunca o havíamos percorrido, sequer de carro.

Subimos no selim. Detalhes não são levados em conta quando se tem a vida pela frente, e nas primeiras pedaladas tudo foi riso e ameaça de cair. Logo tomamos o ritmo. O ar era fresco, nossos cabelos estavam presos, ainda não se usava protetor solar.

Alguns quilômetros passaram sob as rodas. O ar já não era tão fresco. O trânsito de caminhões aumentava, e não podíamos mais pedalar com folga na estrada. Ao ouvir o aproximar-se de um carro ou caminhão vindo de trás, prudência mandava chegar junto ao barranco. E junto ao barranco a poeira acumulada formava uma duna corrida em que a bicicleta atolava ou derrapava. No alto dos caminhões os homens sorriam, por vezes nos ofereciam carona. Nós sorriamos de volta agradecendo e fazendo que não. Ainda existia gentileza nas estradas.

Não havíamos previsto a supremacia das subidas, sempre mais longas que os modestos declives. Mas, embora de fôlego curto, ríamos a cada nova ladeira, amaldiçoando em voz alta a topografia. Os cabelos haviam se soltado.

Ainda não era hora do almoço quando chegamos a Bom Jardim. O trem demoraria a passar.

E se fossemos até Cordeiro? Não sei de quem foi a ideia, mas assim que surgiu, tornou-se de todas. A menos esportiva, justamente aquela a quem tocara a bicicleta menor, teria preferido não ir, mas só o disse alguns anos depois. Sabíamos que Cantagalo era adiante, na mesma estrada, não nos preocupamos com a distância. Novamente subimos no selim que havíamos abandonado para dar uma volta na praça. E fomos.

Agora parecia só haver subidas, e íngremes. Além das dunas de poeira, costeletas. E o sol exacerbando. A da bicicletinha padecia, dentes trancados, pedalando sem queixa. Já não ríamos nem amaldiçoávamos a topografia, havíamos tornado a prender os cabelos sobre as nucas suadas. Dos caminhões que passavam, alguns tinham sabido em Bom Jardim da nossa façanha – não era comum três mocinhas pedalarem grandes distâncias no mundo rural – e nos incitavam a abandonar a empreitada, que subíssemos na caçamba, nos levariam e às bicicletas. Recusávamos a contra gosto, não por medo de estupro – a prática ainda não era um costume - mas por orgulho. Aquilo que havia começado como um passeio se tornava uma questão de honra. Continuar de bicicleta até o fim era uma imposição sem sentido, mas inabalável.

E afinal, como deus quis, ou seja, semi mortas, chegamos a Cordeiro. Ainda algumas pedaladas furiosas para alcançar a estação, justo a tempo de jogar as bicicletas no trem leiteiro das 18:40, pagar, e pedir ao maquinista que as deixasse na parada de Conselheiro Paulino. Nós, sem forças, ficamos.

Arrastamos os pés até a igreja, entramos naquele frescor sombrio como quem entra em uma piscina, e arreamos, cada uma em um banco.

Dormimos durante horas. Depois conseguimos uma carona. Fomos até Conselheiro, e dali, a pé como programado, até o sítio. A hora da volta havia passado há muito, mas ninguém ralhou com as três heroínas que regressavam. Havíamos vencido 50 quilômetros, no pedal.

O Leitor Manda Lembranças: Renato Coelho

Lendo o premiadíssimo livro Breve Histórias de um Pequeno Amor.
Imagem: Douglas Galindo