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Crônica de Quinta: Que nos queiram bem

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 31 de julho de 2014



Semana passada, a Unicef divulgou os números: mais de 700 milhões das mulheres que vivem atualmente no mundo foram forçadas a se casar antes dos 18 anos, e 130 milhões de meninas foram excisadas.

Sempre soubemos que em muitos países meninas são obrigadas a se casar com homens que não escolheram, ou porque da mesma família, ou porque da mesma etnia, ou porque donos de camelos ou cabras, ou simplesmente para livrar a família do peso da sua alimentação. Mas uma coisa é saber por alto, como uma dado antropológico ao qual estamos acostumados, outra coisa é deparar-se com 700 milhões.

Se os 1000 palestinos mortos em Gaza no atual conflito nos destroçam a alma, o que fazemos com 700 milhões de meninas ou adolescentes mortas em vida?

Não se trata da quebra de um padrão romântico, casar sem estar apaixonada. Longe disso. Trata-se de ser dada em escravidão ao sair da infância, entregue a um macho para uso domestico e sexual incontido, ao longo de toda a vida. Sem que tenha cometido crime algum, sem que tenha infringido nenhuma lei, aquela que ainda ontem era criança se vê condenada por seus próprios pais, e a condenação é perpétua.

Olho o mapa da tragédia. Na Etiópia, ao lado da minha Eritréia natal e que na infância considerava um país irmão, 58% das mulheres que hoje têm entre 20 e 49 anos foram casadas, sem escolha, antes dos 18 anos. E na Eritréia, onde desejei voltar em busca das minhas raízes e não pude, 80% a 90% das mulheres entre 15 e 49 anos foram submetidas a ablação clitoriana.

Condenadas cirurgicamente a não ter prazer, essas mulheres o são duplamente, casadas com homens que não tem nenhum interesse em partilhar a alegria do sexo. Para elas, a sexualidade só pode ser vivida através de duas dores: a da penetração prematura e indesejada, e a dos partos.

Vi nos últimos tempos vários filmes que tratam de casamentos arranjados. Mais de um focava famílias indianas dos Estados Unidos em busca de parceiros matrimoniais para seus filhos, na Índia, com resultados desastrosos. Outro era sobre uma família argelina na França, querendo casar a filha com um rapaz em Argel. Um quarto passava-se na área da Palestina. Mas a maioria tratava o tema em tom irônico, e em todos eles negociavam-se jovens mulheres, nunca meninas.

Para mil meninos que nascem na Índia, nascem somente 918 meninas. Não é a natureza que privilegia os homens. São as famílias que fazem a triagem, abortando as meninas, consideradas um peso econômico pois não trabalham e precisam de um dote para casar. As famílias que abortam meninas não pensam que se todos fizerem o mesmo, seus preciosos filhos homens não terão com quem casar, e ninguém, de um lado e do outro, terá descendência. E a Índia é parte do BRICS, pertence ao nosso mesmo bloco econômico merecedor do respeito das nações.

Eu, mulher, recebo esses dados como uma agressão pessoal. Por que, me pergunto, por que a sociedade, essa sociedade moldada pelo homens não gosta de nós? Por que não nos quer e não nos respeita?

Conheço as respostas, é claro, estudei meu latim. E nada disso é novo, muito pelo contrário. Lembro que nos tempos do feminismo mais intenso, quando essas situações eram questionadas opunha-se toda uma conversa politicamente correta, de autonomia dos povos, ancestralidade, respeito à cultura alheia. Hoje, em tempos de globalidade, quero que essa falsa correção política se dane, e que o mundo defenda as meninas, defenda as mulheres. Não só que as defenda, mas que as aconchegue e lhes queira bem.

A construção de Hora de Alimentar Serpentes


Marina Colasanti explica nesse vídeo sua busca por uma unidade temática para o livro de minicontos Hora de alimentar serpentes (Global Editora).

II Jornada Literária do Vale Histórico

De 30 de setembro a 03 de outubro autores de literatura infantil e juvenil convidados estarão em contato com seus leitores nas cidades de Lorena e Guaratinguetá. Estes encontros acontecerão nas próprias escolas previamente preparadas para este importante momento. Na parte da noite haverá palestras magnas com Marina Colasanti e Paulo Lins, além de importante debate sobre a literatura infantil e juvenil e sobre ilustração dos livros para crianças e jovens.

A II Jornada Literária do Vale Histórico é uma realização do Instituto Uka - Casa dos Saberes Ancestrais e tem o apoio do Polo ValeLendo, do Instituto C&A, Academia de Letras de Lorena e da Editora Melhoramentos.

Crônica de Quinta: Gastronomia e culinária

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 24 de julho de 2014

Imagem: Douglas Ferreira

Que saborosa estava a carne enrolada do almoço, e macia. Meu marido elogiou a empregada. “É porque esfreguei com mostarda preta! ” respondeu ela. E, orgulhosa de revelar suas fontes :” Aprendi na TV”. “Com Ana Maria Braga?” perguntou meu marido, esquecendo que na hora em que a apresentadora cozinha com seu papagaio, nossa funcionária está aqui fazendo o café. “ Não.... vi num um programa desses por aí”.

Como se fosse a continuação dessa conversa, à noite liguei a TV e no canal espanhol dei de cara com um concurso gastronômico. Como eram severos os três juízes e como sofriam os quatro candidatos. Costeletas de cordeiro, modestas embora enfeitadas com pétalas de flor, mereceram análises surpreendentes, mais que análises, verdadeiros ensaios sobre cozimento, cor, textura, e sabor, sabor, sabor.

Caí no canal espanhol como poderia ter parado em qualquer outro, e em todos teria altas possibilidades de encontrar uma ou mais pessoas de roupa branca e toque, debruçadas sobre uma panela ou uma tábua de picar. De Sidney, onde nasceu o programa Master Chef, ao resto do mundo, onde ele é replicado até mesmo em versão infantil com o Jr. Master Chef, a gastronomia está na moda.

Está na moda, e olha de cima para baixo para a culinária. Culinária é menino jogando futebol no quintal com bola de pano, gastronomia é craque. Nos programas gastronômicos mais aplaudidos sequer se ensina a cozinhar. Mostra-se a atividade quase frenética nos fogões, dando a entender subliminarmente que aquilo não é para mortais comuns. Os pratos, apresentados como preciosidades, são apenas para deleite do olhar e da imaginação.

Houve um tempo de colheres de pau, em que a melhor comida era a da mamãe, cada família tinha uma receita de bolo imbatível, e os grandes jantares eram feitos pela cozinheira da casa. Não faz muito, a colher de pau foi declarada anti higiênica, e substituída pela espátula de silicone. A mamãe agora é delegada, artista, funcionária, e não cozinha. O bolo compra-se pronto, com escrito parabéns. E os grandes jantares só são considerados grandes quando encomendados a bufês. A comida saiu do domínio domestico.

Dividiu-se entre fast food, prato feito, a quilo, comida de botequim, restaurante, espalhou-se por quiosques e praças de alimentação. Mas a divisão é só aparente, a comida está mais unida que nunca, toda ela bem presa na mão do mercado.

E o mercado precisa de excelência, como precisa de grifes. Aliás, comi em Paris, não faz muito, uma sobremesa grifada. Como um Picasso, vinha com a assinatura do criador. Pareceu-me especialmente deliciosa, mas é possível que eu estivesse influenciada pela assinatura.

O surpreendente é que a gastronomia parece crescer na mesma medida em que nossos paladares se tornam cada dia mais tolerantes. É como se tivéssemos adotado duas comidas, uma para os sonhos, outra para mastigar. Olho no supermercado as coloridíssimas caixas dos congelados, e me pergunto quem come aquilo. Depois olho nos carrinhos junto às caixas, e sei quem come. Talvez, comer pizza calabresa congelada enquanto se olha na TV um programa de gastronomia, melhore o sabor da pizza.

Eu prefiro as coisas ao vivo. Por isso, a convite da minha amiga , a pianista Cesarina Riso, fui esta semana a um almoço gastronômico dos Companheiros da Boa Mesa, que há 30 anos se reúnem ao redor de boa comida, bons vinhos e bons sentimentos. O chef era de Barbacena, o menu tinha variantes. E tudo era muito bom.

Dien Horen


Dien Horen é uma revista literária alemã que, certamente movida pela presença em Frankfurt, fez este número dedicado à literatura e à crítica brasileira. São 41 autores, começando com Jorge Amado e finalizando com Dalton Trevisan. Meus, estão incluidos uma crônica ( Eu Sei Mas Não Devia) e um poema ( Frutos e Flores). A edição teve o apoio do Ministério da Cultura e da Biblioteca Nacional.

Crônica de Quinta: Três histórias de mulher

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 17 de julho de 2014

Rolf Ohst 



Fim de tarde, vinham as duas pela calçada, de braço dado. Não por jovial amizade, mas em busca de apoio. Andavam muito lentamente, como a idade lhes permitia. Uma um pouco mais gorda, um pouco mais humilde e um pouco menos velha. A outra, frágil e pálida, uma crisálida.

Conversavam em voz alta, certas de estarem apenas murmurando - imaginei que, meio surdas ambas, haviam se estabelecido nesse registro. E quando nos cruzamos no passeio, ouvi claramente a mais humilde dizer “A senhora não se lembra, mas eu antigamente...”.

A frase me encheu de ternura. A acompanhante de tantos anos sabia bem que a memória havia abandonado sua patroa e, ainda assim, era o dialogo que lhe restava. Estavam juntas desde aquele “antigamente”que a mais velha, ou mais fraca, havia esquecido. E a outra tentava manter vivas suas lembranças contando-as para alguém que mal podia lhe prestar atenção e que há tempos havia apagado as próprias.

Minha amiga era gorda. Linda, brilhante, e gorda. Não abundante em carnes, gordinha apetecível. Obesa. Leva-se tempo para chegar a essa qualificação. No caso dela haviam sido anos de boa comida, de um tanto mais a cada refeição, de ligeiras facadas ao subir na balança. Aos poucos. Bem devagar. E era tão lindo o rosto, tão exuberante o temperamento e bem sucedida a vida, que acreditávamos estivesse acostumada com seu peso.

Não estava. Um belo dia – belo, de fato- anunciou: faria bariátrica. E eis que quando a vi novamente havia perdido o equivalente a outra pessoa. A sua exuberância parecia mais bem instalada nesse novo corpo flexível, a idade havia dado um salto para trás.

Ao contrário de muito gordos que emagrecem, minha amiga não teve nenhuma dificuldade em se adaptar à magra imagem com que se encontrava no espelho. Pelo contrário, estava radiante. E para expandir ainda mais o sorriso, inventou um pequeno estratagema. Agora,quando vai a alguma loja comprar roupa – e compra mais roupa já que lhe cai tão bem- pede à vendedora um tamanho G. Que veste, na cabine, só para ter o prazer de vê-la sobrar ao redor do corpo, e poder então, triunfante, chamar a vendedora e dizer que ficou largo, por favor, lhe traga um tamanho M.

Vínhamos chegando ao meu prédio, quando vi uma moradora fotografando as orquídeas em flor no tronco da árvore junto à portaria.

Moro em Ipanema e, há alguns anos já, estabeleceu-se um costume encantador. Quando alguém ganha um vaso de orquídeas – e é freqüente, porque a orquídea é flor nobre e tornou-se mais desejável que as rosas, de menor duração – desfruta sua beleza durante as semanas, até meses, em que continuam floridas. Depois, não tendo uso no apartamento para a planta desguarnecida, a entrega ao porteiro. Que armado de escada, a prende na parte alta do tronco da árvore mais próxima, onde tornará a florescer. Assim, agora, quem anda pelas ruas de Ipanema, vai por um corredor tropical de pétalas, perfumes, e encantamento.

Estava, pois, minha vizinha de câmara na mão. E porque elogiamos seu gesto, nos entregou o resto da história.

Mora no prédio há mais de 40 anos. E todos os anos, no aniversário de casamento, seu marido lhe dá de presente um vaso de orquídeas. Conservá-los não pode. Então, pede a alguém para prendê-los nas árvores. Mas não os abandona. Quando florescem pela primeira vez, os fotografa. “Tenho todos guardados “, me disse sorrindo. E agitou a câmara como se me mostrasse um cofre de jóias.

Com o leitor

Marina e a atriz Cláudia Ribeiro

Marina


Crônica de Quinta: Reféns de um pensamento

 Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 10 de julho de 2014




Surpreendente é a capacidade expansiva de um pensamento. Vai a pessoa tocando normalmente os múltiplos elementos da sua vida quando, de repente, é atirada contra a tsunami de uma ideia. E essa ideia se avoluma, reduzindo à insignificância aqueles mesmos elementos múltiplos que lhe haviam dado origem.

Não estou me referindo a ideias grandiosas, a maçã caindo na cabeça de Newton e revelando-lhe a lei da gravidade, Aristóteles gritando Eureka! ao perceber que deslocava a água na banheira. Falo de coisas comezinhas, pensamentos que se apresentam modestos e aos quais não damos importância inicial, mas que na morna escuridão do pensamento levedam, crescem, logo partindo para a dominação total.

A pessoa está sentada no sofá da sua casa, o mesmo em que se senta há mais de uma década. Quase distraída, pousa o olhar sobre a mesa de centro. E eis que aquela mesa com a qual está tão acostumada, com a qual sempre se deu tão bem, subitamente eriça o pelo. O olhar antes distraído se faz crítico, a mesa antes ótima lhe parece subitamente grande demais para o ambiente. Estabelecida a rejeição, a pessoa avança visualizando o espaço sem aquela mesa agora inconveniente, imagina outra menor em seu lugar. E gosta, gosta muito do que vê. A partir daí, a busca de uma nova mesa será a rainha do seu desejo. Olhar focado em páginas de decoração, pesquisas nas vitrinas, buscas em lojas e em feirinhas de antiquariado, análises complexas das mesas alheias ocuparão seu tempo e seu imaginário. A mesa de centro que lhe pareceu grande demais na sala fez-se muito maior no pensamento.

Já desejei estudar alemão. Até comecei. Parei, não porque não gostasse, nem porque me parecesse excessivamente difícil. Parei porque percebi que aquelas palavras, aquelas estruturas linguísticas estavam se dilatando, e qualquer frase simples do livro para iniciantes, repetida mentalmente infinitas vezes, acabava ocupando o espaço de frases bem mais úteis para o meu cotidiano. Era como se, para aprender alemão, eu precisasse deixar a seu dispor todos os meus neurônios.

Tive, na faculdade, um professor de anatomia que desejando aprender russo utilizava um método de sua invenção. Já até escrevi sobre ele. Todo dia, anotava cinco, ou talvez dez, vocábulos novos num cartãozinho que levava no bolso. Intermitentemente, sacava o cartão, dava uma olhada, e o recolocava no lugar. Durante o dia inteiro. Ã noite, memorizado o conteúdo do cartão, preparava outro com novos vocábulos. Saí da faculdade. Anos mais tarde me disseram que o professor havia enlouquecido. Mas pode ter sido aleivosia de ex aluno.

Agora, impulsionados pela publicidade e as redes sociais, já não se trata apenas de pensar o tempo todo em alguma coisa, trata-se de todos pensarem ao mesmo tempo a mesma coisa.

Foi o que aconteceu com a Copa. Durante semanas nossas vidas foram seqüestradas por um único pensamento, um único desejo coletivo metodicamente alimentado. Ficou difícil pensar em qualquer outra coisa, levar adiante a normalidade. Como meu professor de anatomia, verificávamos intermitentemente tabelas, feriados, horários. Até terça.

Tive que sair ontem de manhã, cedo. Nas mesmas ruas de Ipanema que no dia anterior pareciam uma extensa plantação de girassóis, não havia uma única camisa amarela.

Marina Colasanti visita Colégio

Na quarta-feira, dia 28 de maio, tivemos em nosso colégio como convidada especial da biblioteca Prof. Branca J.M. de Oliveira a querida escritora Marina Colasanti, para contar um pouco sobre sua obra e seus outros vários trabalhos.



Veja mais fotos da visita de Marina ao Colégio Adventista - Unidade Portão







Crônica de Quinta: Novos barbarismos

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 03 de julho de 2014

Daniele De Rossi (Itália)

Mais que os gols, chamam a atenção nesta Copa os penteados dos craques. Cachos, cristas, moicanos, recortes, riscas traçadas a esquadro, tinturas se tornaram assunto constante da mídia e das redes sociais, levando-nos a crer que barbeiros requintados viajem com as seleções, tão prestigiados quanto os preparadores físicos. É a FIFA faturando o Fígaro.

Mas da coitadinha da barba ninguém fala. Ninguém parece reparar que todos os jogadores mais bonitos, assim como boa parte dos nem tanto, têm maxilares e queixo coroados. Mais modesta em termos de criatividade, apresenta-se porém igualmente cuidada. A seleção italiana, por exemplo, ostenta barbas tão bem cortadas quanto seus ternos Dolce & Gabbana.

Não é só nos estádios. Depois de um século de pouca aceitação, a barba voltou a ser sinônimo de virilidade. Elemento compositivo do gênero bad-boy , adequa o rosto ao jeans rasgado, aos tênis, às tatuagens. É a barba fazendo de conta que não chega a ser barba, que está ali por esquecimento ou falta de lâmina, um centímetro apenas, como se fruto de ressaca. É exatamente aquela em que, no passado recente, o homem passava a mão a contrapelo dizendo para si mesmo, esqueci de fazer a barba.

Meu pai usava navalha, ou pelo menos usou por um tempo quando eu era pequena. Navalha afiada na tira de couro, para meu fascínio. Tive na adolescência um namorado que também se barbeava com navalha e um dia pediu para passá-la na minha perna; deixei, sentindo-me valente e exposta como mulher de atirador de facas no circo. A pele ficava suave como veludo.

Agora a barba nem se raspa nem se deixa crescer, conserva-se entre uma coisa e outra, quase em suspenso. E nessa suspensão qualquer falha grita aos olhos. A quase barba exige ser compacta. É aonde entra o implante de barba.

Os melhores e mais baratos estão sendo feitos na Turquia. Já não se vai a Istambul para visitar o museu Topkapi ou hospedar-se no Hotel Pera Palace, aquele que recebia os passageiros do Orient Express e onde Agata Christie se homiziou numa fuga doméstica, mas para “fazer a barba”. 40 mil novos barbudos foram produzidos pela Turquia, só no ano passado. O preço é atraente, sobretudo se considerados em relação ao de outros países. Uma barba completa custa entre dois e três mil euros, bigodes incluídos, mas podemos acreditar que um remendo na zona do agrião saia mais barato. De pelo em pelo, 2013 rendeu à Turquia cerca de 100 milhões de dólares.

O processo não chega a ser inovador, é o mesmo do implante de cabelos. Preleva-se um tufinho de cabelos do alto da nuca, e implanta-se no rosto. Com anestesia local, é claro. A cada sessão, migram no máximo 1000 pelos, o que torna necessários vários rounds. Vale perguntar quem faz a contagem, e se o preço é estabelecido por pelos transportados, ou por centimetragem coberta.

Até aqui, nada que surpreenda, além da vaidade viril sempre tão negada. O surpreendente é o que acontece em seguida. Cicatrizados os furinhos todos, superados dor e vexame, os fiapos pilosos que até então haviam-se comportado como cabelos, adequam-se ao novo território, pedem cidadania, e se transformam em autênticos fios de barba. Como tais, passarão a crescer - ou a semi crescer, já que o comprimento da hora não passa de um centímetro. É a natureza curvando-se à moda.

Fotos: Marina e Nélida


No encontro, mediado pelo jornalista Claufe Rodrigues, Nélida falou sobre a vida do escritor no país. “O escritor no Brasil ganha tão pouco que é pago pela paixão. Escrever é um estado milagroso. Todos vocês podem ler uma história escrita por alguém como se você tivesse escrito, como se fosse escrito para você”. Marina define o papel do escritor como impulsionador da compreensão do leitor. “A função da educação, que não é só a sala de aula, é dar ao jovem a capacidade de discernimento. A função da literatura e da arte como um todo é estabelecer o diálogo com o leitor para que ele possa entender-se e localizar-se no mundo”.