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Crônica de Quinta: Debaixo da pele

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 03 de setembro de 2015




Todos tatuados, em "A Regra do Jogo". Não é difícil prever uma corrida às lojas de tatuadores, em busca dos mesmos desenhos exibidos pelas personagens da novela. Diferença será que ao fim das gravações as tatoos cenográficas se vão no banho, enquanto os fãs guardarão seu momento de devoção para sempre incrustado na pele. 

Tento entender a atual febre das tatuagens como algo mais do que apenas moda. Encontro uma explicação no livro sobre a vida de Marie Curie ("L'idée ridicule de ne plus jamais te revoir"- a idéia ridícula de nunca mais te ver), da escritora espanhola Rosa Montero. Fazendo um paralelo entre corpo e alma, Rosa fala dos milênios de disciplina, de cilícios e flagelações, de jejuns, bulimias, anorexias, de intervenções estéticas selvagens como os pés deformados das chinesas ou as operações plásticas de Michel Jackson e diz compreender a atração exercida por alguma delas. "Por exemplo, o prazer que produzem as tatuagens: é viciante. Mandei tatuar uma salamandra no braço direito há doze anos, e tive que me conter para não ir correndo fazer outra tatuagem qualquer no dia seguinte. Devo dizer que a sensação é maravilhosa, um alívio e uma plenitude irracionais, como se, com aquele rabisco de tinta sob a pele, tivéssemos conseguido vencer por uma vez o grande inimigo, humilhar esse corpo tirânico que nos humilha, um corpo que não escolhemos e de que somos obrigados a cuidar durante toda a vida, esse corpo que nos encerra e que acaba por nos matar, esse corpo safado e traidor que de repente fica manco e dá um basta em nosso prazer de subir montanhas. Ou que faz crescer insidiosamente, no silêncio das células, um tumor maligno que vai nos torturar antes de nos assassinar."

Rosa faz da tatuagem uma forma estética de vingança, uma intervenção para mostrar ao corpo quem realmente manda. Entretanto, o jovem soldado que vi recentemente, com uma imagem de Jesus Cristo tatuada no peito e uma granada tatuada no costado, não estava se impondo a seu próprio corpo, e sim mandando um claro recado a quem o olhasse: sou cristão, mas disposto a explodir o que me provocar. 

Nem querem "humilhar o corpo que nos humilha" os jovens musculadíssimos, depiladíssimos, que exibem corpo e tatuagens como bandeira.

Sempre, quando vejo pessoas muito tatuadas, penso na aflição de nunca mais poder se despir. Um braço todo tatuado está de manga, e impossibilitado de trocar a estampa.

Andava eu outro dia em Ipanema, quando me surpreendi com um cartaz pequeno colado a um muro: "Procura-se tatuagem na nuca". Pensando fosse alguma mensagem com vezo artístico, me aproximei para ler. Era somente um anúncio para um documentário ou filmagem, com e-mail ao pé. No dia seguinte, quando tornei a passar, havia sido arrancado. Durou bem menos que uma tatuagem.

Rosa vê a tatuagem como forma de humilhar o corpo. Eu a penso como uma maneira de torná-lo visível, pespegar-lhe uma identificação, quase um crachá. Na aldeia ou na pequena cidade cada um tem o seu papel, a sua função, e são eles que o identificam. João é o padeiro, Joana a parteira, todos conhecem. Na metrópole, as identidades se esbatem e se sobrepõem, os habitantes se tornam massa em movimento na qual todos se desconhecem. E quanto mais nos confundem na massa, mais necessidade temos de destacar-nos dela.

Um rapaz magro, com uma enorme cruz tatuada nas costas, e um sagrado coração quase apoiado na beira do calção. Havia muitas outras pessoas ao redor da piscina naquela manhã. Mas o único de que lembro é aquele rapaz magro quase crucificado em seu próprio corpo.

Marina Colasanti e Vera Holtz fazem parceria no palco


Com quase três horas de duração, o encontro proporcionou ao público a proximidade com a vida e a obra da escritora ítalo-brasileira, mas nascida na África – e que no palco fez destas memórias boas histórias e arrancou risadas e expressões de satisfação do público.

Sarau do Tamanduel no Fliaraxá


Sarau do Tamanduel

Convidados: PAULO NETHO, O MÚSICO SALATIEL SILVA E MARINA COLASANTI

Local: Auditório 01

Indicação: Público Infantil

Marina Colasanti dá brilho e experiência a esta atividade que envolve música, poesia e improvisação, com participação do público, com a presença do mascote Tamanduel.









Escrevendo para todos (Fliaraxá)


Festival de Literatura de Araxá - FLIARAXÁ. Nas fotos a conversa "Escrevendo para todos" com Humberto Werneck, Marina Colasanti e Luiz Ruffato.











Fotos: Rubens Weil/Infinito

Fernanda Soutto Mayor Manda Lembranças: Fliaraxá



Platéia ilustre no Fli !
Pasquele Cipro Neto
Celso Adolfo
Mary Del Priore
Marina Colassanti
Leila Ferreira
Dirceu Ferreira

Ana Amélia Manda Lembranças: Fliaraxá


Marina Colasanti, Luiz Ruffato, Humberto Werneck agora na terrinha. O Fliaraxá está lindo e imperdível!

Crônica de Quinta: O oitavo de uma estirpe

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 27 de agosto de 2015




Confesso, não sabia quem fosse Fujima Kanjuro até decidir ver sua apresentação - o Japão é distante, por mais que gostemos dele. No entanto, como descobri no programa ao chegar na Cidade das Artes, a família Fujima está ligada à coreografia do teatro Kabuki desde o século XIX, sendo este Fujima o oitavo grão-mestre de dança da sua família. Por mecanismos que eu ignoro, o nome Kanjuro só lhe foi atribuído aos 22 anos, e com ele o direito de assinar-se Fujima Kanjuro VIII.

Nunca vi Kabuki em cena, nem mesmo quando fui ao Japão. Só em documentários, ou alguns fragmentos em filmes, coisa pouca para arte tão complexa. Desta vez também, o que vi não foi exatamente Kabuki mas uma forma simplificada chamada su-odori ( su=simples e odori=dança) defendida pela Escola Fujima. Mais simples nos trajes, nos cenários, não na dança. 

Dizemos dança, e o que vemos com nossos olhos ocidentais nos parece coisa diferente, menos corpo, talvez, e mais teatro. Nada daquilo que consideramos expressões de sensualidade, nenhuma interferência dos quadris. O corpo obedece a um rigor domesticado e exato que integra as longas mangas do quimono, as mãos dialogam. Entre um e outro movimento, pausas infinitesimais congelam a composição como nas gravuras dos mestres. 

Não era tão rigorosa mas tinha a mesma intensidade de beleza a dança folclórica japonesa que, há muitos anos, foi apresentada só para mim. Com a tarefa de escrever um artigo sobre a vida doméstica no Japão, eu estava hospedada em uma casa de Saitama - localidade rural antiga, hoje cidade-dormitório de Tóquio. Nessa casa havia um pai sempre ausente a trabalho, uma jovem filha, uma mãe e uma avó. Uma certa solidão perpassava a vida da avó. Não tinha tarefas na casa, quase nada por fazer. Eu a via acender os bastões de incenso e trocar a tigela de arroz no altarzinho dos antepassados que mantinha no quarto. E porque os outros pouco ligavam para ela, lhe sorria inclinando-me. Pedi à neta que servisse de intérprete para que pudéssemos minimamente conversar. Soube assim, que frequentava junto com outras senhoras um grupo de danças folclóricas, e que ensaiavam para uma apresentação no Festival de Verão a acontecer no próximo final de semana. Nos dias seguintes, me interessei pelos ensaios, prometi que iria vê-la no Festival. E um dia, através da neta, perguntou se eu gostaria de vê-la dançar, e me fez saber que à noite dançaria para mim . 

Entramos as três na sala, ela, a jovem, e eu. A jovem levava o aparelho de som. Ela vestia o belo quimono da apresentação. Fechamos a porta de papel de arroz, sentei-me na esteira. E ali, naquela casa diante de uma plantação de berinjelas, gestos delicados recriaram o ceifar do trigo, as espigas caindo no campo e sendo atadas em feixe, símbolo da abundância e garantia de alimento para o inverno. Era a Dança da Colheita.

Sábado, na Cidade das Artes, o teatro estava cheio, havia muitos japoneses, famílias inteiras. E ao meu encantamento acrescentei o prazer que emanava deles - uma senhora de idade e duas moças nipônicas estavam sentadas ao meu lado. Emigrada que sou, vivenciei sua funda emoção de reencontro, a familiaridade com que viviam aquilo que para o resto do público era tão diferente. Não só compreendiam as palavras dos recitativos modulados- talvez devesse chamá-los canções - como captavam, na música e nos gestos, ricos significados que nos escapavam. Alguns haviam levado crianças, e pensei no esforço de transmissão, semelhante àquele que fez de Fujima Kanjuro o oitavo da sua estirpe.

Marina Colasanti na Fliaraxá 2015


A quarta edição do Festival Literário de Araxá (Fliaraxá) acontece entre os dias 26 a 30 de agosto, com participação desta edição comemorativa dos 150 anos de Araxá de autores de renome nacional e internacional. A escritora Lya Luft é a homenageada desta edição

Debates, oficinas, lançamento de livros, exposição fotográfica, concurso literário, teatro e música fazem parte da programação do festival. A curadoria é de Afonso Borges, idealizador do Fliaraxá e do Sempre Um Papo, projeto de incentivo à leitura criado há 29 anos.

Participam desta edição nomes como Ana Elisa Ribeiro, Ana Martins Marques, Babi Dewet, Bruna Vieira, Carlos Andreazza, Carlos de Brito e Mello, Carlos Herculano Lopes, Fábio de Sá Cesnik, Fernando Bonassi, Francisco Azevedo, Frei Betto, Gonçalo Tavares (Portugal), Humberto Werneck, Jô Oliveira, José Paulo Cavalcanti Filho, José Santos, Leilla Ferreira, Leo Cunha, Leopoldo Brizuela (Argentina), Lucrecia Leite, Luiz Ruffato, Lya Luft, Marçal Aquino, Marco Haurélio, Marina Colasanti, Mary Del Priore, Miriam Leitão, Nélida Piñon, Nelson de Oliveira, Paula Pimenta, Paulo Netho, Pedro Gabriel, Ricardo Aleixo, Santiago Nazarian, Selma Maria, Sérgio Abranches, Thalita Rebouças, Vicente de Britto Pereira, Xico Sá, Elisangela Soares, Ricardo Barros (ambos Sesi/SP).

Entre os araxaenses estão Gessy Glória Lemos (secretária municipal de Educação de Araxá), Canarinho, Cátia Lemos, Dirceu Ferreira, Glaura Teixeira Nogueira de Lima, Hermes Honório da Costa, José Otávio Lemos, Márcio Antônio de Paula Duarte, Odone Rios, Rodrigo Feres e Tarcísio Cardoso.


Programação completa - www.fliaraxa.com.br.

Fonte: http://www.diariodearaxa.com.br/Noticia/Cultura/2015/7/Fliaraxa-2015-conta-com-a-presenca-de-mais-de-40-escritores-em-Araxa/16017.aspx#ixzz3jwIYxJkU

Marina visita Colégio de Aplicação da UFV


Contamos com trechos da conversa entre a escritora e jornalista ítalo-brasileira Marina Colasanti, realizada no Colégio de Aplicação da UFV (Coluni), no dia 12/05/2015.

Affonso Manda Lembranças: Depois do maravilhoso concerto


"Depois do maravilhoso concerto com Rosana Lancelotte"

Crônica de Quinta: O olho aberto da noite

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 20 de agosto de 2015


Edward Hopper

Sequestraram o farol da Ilha Rasa! Procuro no horizonte escuro e não o encontro, nem é mais escuro o horizonte. Hoje, Drummond não poderia dizer, "Triste farol da Ilha Rasa". 

Não era triste para mim, quando vim morar nesta casa. Era um cometa, uma estrela cadente que atravessava minha sala num lampejo marcando a regular pulsação da noite, e que me dizia com sua voz de luz " está tudo bem, nenhum navio esfacelou-se nos rochedos, podemos dormir tranquilos". 

Para isso servem os faróis, para indicar a zona de perigo e tranquilizar quem navega, no mar ou na vida. 

E servem, ali parados no topo de um rochedo ou de uma mínima ilha, como referência de estabilidade. A paisagem urbana tem mudado constantemente debaixo dos meus olhos, a curva do horizonte, antes livre do Leblon a Copacabana, foi sendo denteada pelos edifícios, uma torre de acesso ao metrô cresceu ao meu lado, passarelas foram estendidas, as calçadas se tornaram estreitas para a quantidade de pedestres. Mas, nos anos, a Rasa e seu farol continuavam iguais, vivendo um outro tempo cercado de mar. 

É o mesmo tempo em suspensão que encontro nos muitos quadros de faróis pintados pelo americano Edward Hopper. Como em seu repertório de mulheres - vestidas ou nuas, em ambientes domésticos ou estáticas diante da natureza- algo está parado, os ponteiros dos relógios ou a expectativa imobilizaram-se por instantes, algo está por acontecer e não acontece. 

Algo está sempre por acontecer nos faróis. A tempestade, o vento, o navio à deriva. A tragédia espreita o farol, e a função dos espelhos iluminados é evitá-la. 

Ainda assim, não vivem perigosamente os faroleiros. Ao contrário, vivem uma rotina precisa, regulada pelo relógio e pelo trânsito do sol, funcionários que são de luzes e engrenagens. E embora sempre os imaginemos sozinhos, esperando a data em que um barco virá trazer-lhes provisões, muitos vivem com suas famílias, alguns criam cabras no magro entorno rochoso e podemos imaginar um cão que late em noites de ventania. 

Sempre quis entrar num farol. Não servem as vezes em que os vi em filmes. Um farol de verdade não cabe no enquadramento retangular de uma tela, é todo circular, como um túnel ou um poço erguido. Invejei Rubem Braga que visitou o farol da Rasa e o fez saber numa crônica. Eu, mais modesta, visitei um Farol do Saber. Era a década de 90 em Curitiba, e o então prefeito Rafael Greca me levou para conhecer uma das bibliotecas comunitárias que havia criado, um pequeno farol cheio de livros, com a escada em caracol levando ao topo. "Quero um para mim!" exclamei, e era verdade. 

Mas agora o farol que eu tinha ao longe, com quem dialogava na noite, foi sequestrado. Não o tiraram do lugar, que seria impossível. Nem o desativaram. Obliteraram sua luz. 

Um farol precisa de espaço para agir, de amplidão que o justifique. E o da Rasa, plantado ao topo da sua ilha, o tinha. Progressivamente, porém, cargueiros à espera de vaga para atracar na baía, começaram a fundear ao largo, mais e mais numerosos. Hoje são tantos, que olhando o horizonte à noite tenho a impressão de estar vendo povoações. E as luzes daquelas falsas povoações se confundem e se sobrepõem ao olho aberto da noite que dardejava seu raio em minha sala.

A Pequena Alice no País das Maravilhas com tradução de Marina Colasanti


Vinte anos depois de seu grande clássico Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll reescreveu a mesma história para crianças de 0 a 5 anos: Nursery Alice, ou A pequena Alice no país das maravilhas. Agora, no ano em que se comemora os 150 anos de Alice, a Galerinha traz para o Brasil uma nova edição da obra, ilustrada pelo francês Emmanuel Polanco e traduzida pela premiada escritora Marina Colasanti. Com um coelho balzaquiano, um gato de enigmáticos sorrisos, e uma menina que muda de tamanho a cada capítulo, a história continua deliciosa! De cabeça para baixo e sem sentido. Ou melhor... com o sentido dos sonhos. Sempre livres, sempre lindos, eternos.








As fotografias belíssimas são do site "Perdida na Utopia" da Maria Clara.