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Crônica de Quinta: A beleza, no fim

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 16 de abril de 2015



Você folheia um livro, uma revista, e de repente, como se cruzasse uma esquina, um fato pelo qual não esperava está à sua frente. Como a foto em que esbarrei ao virar uma página 7.

Ali estava uma cena de museu absolutamente incomum. Diante de um auto retrato de Rembrandt, moldura dourada sobre parede cinzenta, uma mulher cujo rosto não se vê porque voltado para o quadro, olha. Não está de pé. Está deitada em uma maca hospitalar conectada a aparelhos. Quatro assistentes estão com ela. Todos olham o quadro, menos a jovem mulher que controla os aparelhos.

O fotógrafo é Roel Foppen, militar aposentado, acompanhante voluntário da Stichting Ambulance Wens, uma associação holandesa cuja finalidade é a realização de desejos de doentes em fase terminal. De ambulância, a associação leva pessoas próximas à morte para rever algum país, cidade, obra, parente ou amigo que lhe seja especialmente caro e cuja visão queira ter consigo na última viagem. 

"No dia 3 de março - diz o autor da foto- levamos três doentes de mobilidade reduzida ao Rijksmuseum . Eram 17 horas. Tínhamos o museu somente para nós." A luz que incidia sobre o quadro, iluminando o olhar quase amoroso com que o velho pintor parecia dialogar com a mulher, chamou sua atenção. Afastou-se e fotografou. 

Nada disse à mulher, uma senhora de 78 anos, portadora de esclerose lateral amiotrófica. O rosto dela não aparece, a discrição é absoluta, e ele não quis interromper o seu momento de contemplação. Mais tarde, postou a foto nas redes sociais - é possível que você que agora me lê a tenha visto - não para exibir sua foto, mas para chamar a atenção do mundo para a atividade da associação.

Certamente chamou a minha. Parei como todos os que estão na foto. Porém, não para olhar o " Auto retrato com dois círculos", obra do final da vida de Rembrandt da qual todos nos sentimos íntimos, e sim para permitir que a visão daquele gesto de amor ao próximo e de busca da beleza afagasse minha alma diariamente maltratada pelo noticiário.

A associação de idéias recolheu na memória um filme visto no início da década de 70, "Soylent Green". Definido como ficção científica é, na verdade, uma ficção profética que retrata Nova Iorque no ano de 2022, com 40 milhões de habitantes. A ciência conseguiu vencer as doenças, mas o calor é sufocante, a água é só para beber, no planeta poluído e super povoado os recursos naturais se esgotaram, a população pobre suada e suja se alimenta de tabletes fornecidos pela indústria Soylent. O último lançamento de tabletes é verde. 

Não foi pelos tabletes que me lembrei do filme. Foi pela cena final, quando o velho companheiro do detetive Thorn ( Charlton Heston) decide que chegou a hora de morrer e se encaminha para a Casa, espaço destinado aos que querem receber o fim através de um medicamento. Ali, deitado numa maca diante de imensa tela, verá projetadas durante vinte minutos cenas de como o planeta era antes, rico e verdejante, com seus campos e bosques, seus rios claros, suas geleiras e desertos, seus imensos oceanos. Acompanhando as cenas, ouve a Patética, de Tchaikovsky e a Pastoral, de Beethoven. E morre levando consigo a harmonia da criação.

Não foi só a personagem Sol, que levou atrás dos olhos essa visão. Seu intérprete, o ator Edward G. Robinson estava doente de câncer, terminal. A cena foi uma dupla despedida que fez chorar Charlton Heston. Edward G. Robinson morreu 10 dias após o término das filmagens.

Dedicatória do Livro do Mês Uma Ideia Toda Azul


Linda dedicatória da Marina para suas filhas no livro "Uma Ideia Toda Azul"

Para Fabiana e Alessandra, fadas minhas.

O Marina Manda Lembranças está sorteando um exemplar de Uma Ideia Toda Azul. Veja como participar acessando o nosso perfil no facebook

Sorteio do Livro do Mês Uma Ideia Toda Azul


"Uma ideia toda azul" é o livro do mês de abril no Marina Manda Lembranças e iremos sortear um exemplar dessa publicação que foi lançada em 1978 para os seguidores do MML no facebook

Para concorrer é só curtir a nossa página do facebook e compartilhar a imagem da promoção em seu perfil.

Resultado da promoção dia 30 de abril!

Resultado do sorteio do livro Nada na Manga

Hoje, dia 10, foi realizado o sorteio do Livro do Mês de março "Nada na Manga. E a leitora que receberá o livro em casa é a Marilucia Silva. 


O sorteio foi realizado através do aplicativo sorteie.me.


Fatia de alma, a escrita de Marina Colasanti

Grande Otelo anuncia programação até junho. A escritora Marina Colasanti é um dos destaques da agenda e realiza palestra por lá no dia 26 de junho.


O projeto Fatia de alma, a escrita de Marina Colasanti, revisita a extensa obra da escritora em diversas atividades de diferentes áreas artísticas.

Projeto especial - Fatia de alma, a escrita de Marina Colasanti
- Oficina de artes plásticas: As híbridas cores de Marina Colasanti. Coordenada por Silvana Sarti. Acontece dos dias 14 de abril a 26 de maio, às terças-feiras, das 18h30 às 21h30. Público: estudantes de arte, artistas visuais e interessados, a partir de 16 anos. Inscrições: até 11 de abril. Seleção: carta de interesse. 15 vagas
- Oficina de interpretação para cinema: A poética de Marina Colasanti. Coordenada por Eli Corrêa. Acontece dos dias 16 de abril a 25 de junho, quinta-feira, das 18h30 às 21h30. Público: atores amadores a partir de 16 anos. Inscrições: até 11 de abril. Seleção: currículo e carta de interesse. 20 vagas
- Oficina de fotografia: Representações imagéticas de Marina Colasanti. Coordenada por Fernanda Pontes e Márcio Prestes. Acontece dos dias 7 de maio a 18 de junho, quintas-feiras, das 18h30 às 21h30. Público: fotógrafos amadores ou profissionais e demais interessados em fotografia e literatura. Inscrições: até 30 de abril. Seleção: carta de interesse. 15 vagas
- Palestra: O navio fantasma atracou na terceira margem do rio. Com Marina Colasanti. Dia 26 de junho, sexta-feira, das 19h às 21h. Público: interessados em geral. Inscrições: até 25 de junho. Seleção: primeiros inscritos. 30 vagas

Crônica de Quinta: Pinóquio, um herói da transgressão

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 9 de Abril de 2015

Leonardo Mattioli,  Pinocchio (1955)

Preparo, nesses dias, um curso sobre Pinóquio a ser dado on-line para alunos de pós graduação em Literatura Infanto Juvenil da Universidade Autônoma de Barcelona. Já dei esse curso antes. E, ainda assim, nunca dei esse curso antes, porque minha ignorância aliada à riqueza da personagem faz com que cada vez descubra, dentro e fora da minha cabeça, coisas que ignorava.

Agora, por exemplo, fui assaltada por um pensamento: o que há de comum entre Aquiles, Sigfrido, e a nossa marionete? O ponto frágil. Aquiles tinha aquele calcanhar desprotegido, e Sigfrido não viu que, ao banhar-se no sangue do dragão, uma folha pequena havia se grudado em suas costas deixando uma falha na invulnerabilidade do corpo. Por esses pontos os dois heróis podiam ser abatidos. E Pinóquio, qual é seu ponto frágil? Eu diria que é algo mais intenso que a curiosidade, a vitalidade. As suas boas intenções são sistematicamente derrubadas se alguém ou alguma coisa o atrai, levando-o a crer que o melhor está logo adiante.

É o que acontece quando se prepara para, pela primeira vez, ir à escola. "pareceu-lhe ouvir à distância uma música de pífaros e batidas de tambor(..)" Ele se pergunta que música seria aquela, hesita, e decide ir ver os pífaros. É o que acontece quando encontra a Raposa e o Gato que lhe prometem multiplicar suas moedas. E quando, novamente, deixa de ir à escola para ir até a praia com os colegas. E quando desiste de ser um bom menino, para acompanhar seu amigo Pavio ao País dos Brinquedos.

Ele quer fazer o que é certo, e tem consciência disso, mas acaba sempre preferindo fazer o errado.

O leitor sabe que Pinóquio vai ceder e que a escolha terá más consequências, mas não pode avisá-lo. E nem quereria, porque sendo também criança prefere seguir em frente com a marionete e viver, através dela, a transgressão. Nenhum pequeno leitor é cúmplice do Grilo Falante.

Com o mesmo sentimento das crianças, um alemão, o escritor Otto Julius Bierbaum, escreveu outra versão de Pinóquio, "Zäppel Kerns Abenteuer" ( as aventuras de Zäppel Kerns ) em que o herói, confrontado no final com a oportunidade oferecida pela Fada de tornar-se um bom menino, hesita: "Mas mãe, eu teria que perder tudo aquilo que sou, abandonar as minhas características artísticas? (...) Me parece, mãe, que seria melhor eu continuar sendo uma marionete." Ao que a Fada responde:"Muito bem dito, meu filho! (...) Continue sendo o que é : não um menino, mas uma imagem para os meninos com a qual eles tenham o que aprender, rindo." Sobem os dois numa rica carruagem e partem para um destino que, embora vago, sorri.

E no entanto, o livro de Collodi teria sido muito outro se apenas ele o tivesse acabado, como tentou, no capítulo 15, quando o pobre Pinoquio é enforcado pela Raposa e o Gato no galho do Carvalho grande. Teríamos então um final dramático, sem redenção possível para o herói, sem sequer a vitória do mal, pois os dois meliantes abandonam a vítima sem ter conseguido arrancar-lhe as quatro moedas que escondia debaixo da língua. E sem Fada, já que a sua única aparição até ali havia sido como uma menina pálida, de cabelos azuis que, à janela de uma casinha branca se dizia morta, à espera do caixão que viria buscá-la.

Felizmente as crianças que acompanhavam a aventura em capítulos no "Giornale per i bambini" protestaram, obrigando o autor a continuar a história.

Sesc Três Rios oferece oficinas literárias com Marina



A escritora Marina Colasanti irá realizar oficinas literárias gratuitas neste mês de abril no Sesc Três Rios (RJ). Segundo nota da assessoria, os encontros são pelo projeto "Fala Autor!", que visa incentivar a leitura através de ações educativas e culturais. "Eles mostram que o prazer e a diversão provocados pela leitura não são ficção".

Interessados em participar podem se cadastrar na biblioteca do Sesc, localizado na Rua Nelson Viana, nº 327, no Centro. É necesssário apresentar RG, CPF e comprovante de residência. O prazo segue até dia 9 ou até o preenchimento das vagas. Mais informações pelo telefone (24) 2252-6454.

Ainda de acordo com o comunicado divulgado, as oficinas serão realizadas nos dias 9 e 10, com material didático também gratuito

Como uma carta de amor (vídeo)


Histórias maravilhosas são uma especialidade da escritora Marina Colasanti, que as faz de uma maneira muito peculiar, impossível de se dizer que são para crianças, jovens, adultos. São para todos, ela afirma. A cada leitura pode-se tirar novas conclusões desses contos, espantar-se com algo diferente, encantar-se sempre.

Marina no Maio Cultural 2015

A página da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Bragança Paulista acaba de anunciar que Marina estará presente  no evento Maio Cultural 2015. Em breve divulgarão programação completa. 

Uma ideia toda azul


A Mariana Muro fala sobre o livro Uma Ideia Toda Azul e seu contato com a obra


Crônica de Quinta: Paris antes da primavera

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 2 de Abril de 2015

Pierre Bonnard 1914-1914 Femme au Tub. Fonte
Devo ter cruzado com a Primavera no aeroporto, mas não a vi. Sei que em Paris tudo esperava por ela, as árvores já incham seus brotos, algumas mais afoitas exibem mínimos toques de rosa, e as margaridinhas, sempre as mais pontuais, abrem seu sorriso nos gramados.

Nesse outono ainda frio, a silhueta dos parisienses é facilmente descrita: um retângulo encorpado encimado por um pequeno volume, e duas listas finas saindo dele até o chão. Tudo igualmente escuro, preto ou azul marinho. São os casacos acolchoados que descem até as coxas, engolindo metade da cabeça no capuz debruado de pelo, muitas vezes engrossados pelas mochilas. E as pernas, as magras pernas francesas metidas em calças justas ou em collants, como as da renascença italiana, finalizando em botas ou botinhas da mesma cor, de modo a que tudo pareça uma única coisa. 

Silhuetas todas iguais, rostos todos diferentes. De tantos taxis que tomamos, nenhum era dirigido por alguém com antepassados gauleses. O mundo inteiro transita em Paris, uma parte até mora lá. Nesses dias, estava cheio de italianos, e todos os dias tem-se a impressão de que uma parte do Oriente mudou de lugar no mapa. Antes, quando o yen era moeda fortíssima, todos os de olho puxado eram, para nós ocidentais, japoneses. Agora não hesitamos, são chineses.

Os chineses, aliás, estão comprando metade da França. Não me refiro a bolsas Vuitton ou a roupas de marca e perfumes. Isso também eles estão comprando. Mas seu interesse maior está focado em outro tipo de produto, aquele que rende. Já compraram peças chave da rede hoteleira, e não apenas em Paris, mas também na Normandia e na Provença. Compraram grupos, conglomerados, nomes emblemáticos de lojas de departamentos, cassinos. Enfim, há uma transferência de capital em curso, bem mais importante - e menos visível- que a afluência turística.

Todos, em Paris, querem ver a exposição de Pierre Bonnard e muitos o conseguem, apesar das filas. É uma mega exposição deste pintor de quem costumamos ver poucos quadros em cada museu, em geral eclipsados pelos numerosos, e mais conhecidos, impressionistas. Na atual exposição do museu d'Orsay, estão quadros representativos de todas as suas fases, e até mesmo minúsculas fotografias, pois Bonnard era fotógrafo apaixonado.

Grandes planos de cor viva, muita luz, cenas domésticas cotidianas, ramagens, e muitas, muitas cenas de toucador e de banheiro, muitas cenas de banho. É um pintor de estética decorativa, agradável, quase jocoso por vezes.

No entanto, uma outra realidade se esconde atrás dessas cores de sol. As banheiras, os nus mergulhados em água, os espelhos refletindo azulejos não são casuais, nem, certamente, uma escolha puramente estética. Martha, a mulher que durante muitos anos foi sua modelo e amante e com a qual acabou se casando, sofria de doença mental e, tendo sido submetida a um tratamento hidroterápico, passava grande parte dos seus dias submersa na banheira. 

Nem a alegria tomava outros caminhos na vida de Bonnard. No dia em que ele se casou com Martha, sua amante também estável - Martha e a amante aparecem juntas ao ar livre em uma das minúsculas fotos - suicidou-se.   

A história de Martha não está contada nos painéis da exposição. Os quadros resultam mais leves. 

Martha, fotografia de Pierre Bonnard. Fotografia tirada entre 1867-1947. Fonte

Nada na Manga: Alessandra


Por sobre os altos muros da dor estendo a mão à minha filha buscando-a para o começo. Bate sua cabecinha forçando a passagem enquanto meu corpo lhe cede aos poucos o direito de evadir-se. Bate seu tempo em mim rasgando a divisão. E somos duas, e somos uma, trancadas na cidadela da primeira luta. 

Imóvel, deixo o corpo flutuar sobre as arestas, ferindo-se apenas no fluxo da maré, sem debater-se. Deixo que vá e volte, sentindo que avança a cada onda. E espero a próxima que, sei, virá mais forte. 

Chega de longe, pressentida tão antes de chegar. Do pé, da sola do pé, das raízes que o pé planta no ventre do passado, profundo útero de tantas mães. Vem de dentro de mim, e anula tudo o que se passa fora. 

É por isso que fecho os olhos, para evitar o mundo externo em que posso me perder. A ansiedade no rosto de quem me ama, a luz, as cores, tudo ameça minha dedicação, tudo me distrai do centro. Se desviar o pensamento da minha tarefa terei medo, quererei fugir, e me afogarei no próximo fluxo. 

Vai o corpo nos círculos da dor, entregue à serpente que me esmaga os quadris e por instantes me abandona, feroz e lerda. Vai o corpo entregar sua carne a outra carne que a devora. Sem sangue, sangramos em segredo. 

Quantas horas? 10 horas. Quanto falta? muitas horas. Quanto tempo, numa hora?

No mundo sem relógios puxo a mãozinha molhada através de corredores escuros. Não tenha medo, querida, mamãe está qui. Vamos juntas. A luz está longe, mas conheço o caminho. Não há pressa. A tua força é a minha força, e eu toda só existo agora para te guiar. 

Bate a cabeça derrocando minhas paredes mais sólidas. Macia avança no percurso macio, e tudo é aço. 

A veia bebe o açúcar do soro, branco sangue de garrafa. E eu vou e volto sem sair do lugar. Estive tão longe, demorei?Não conheço onde fui, mas era tão distante que quase me perdi, e te deixei sozinha. Desculpe, querida, já voltei. 

É longo o trabalho para ela, tão pequena. Cansativo para mim, que preciso ainda de toda a minha força. Mas as mãos unidas por sobre os muros, por entre o que resta dos muros, se afagam e se puxam. E imperiosa, me chega a ordem de expulsá-la. 

Quanto falta? Falta pouco. Vamos te levar. A hora está chegando. 

A hora, querida, a hora é você. Vão nos levar, ouviu? Vão nos levar para te receber, com toda a pompa. 

Luz no corredor, rostos recortados contra o teto que anda ao passo da minha maca. Portas, vozes, ordens. 

Me ajuda, querida, agora é você quem tem que me guiar, a luz é tua. Vem, estou te dando tudo o que tenho e não sei se tenho mais. Vem, depressa. Você que é tão mais forte do que eu, me leva para a luz. 

Aço e fogo, ferro e sangue. Corre a água, o peixe salta. É ela à minha frente, suspensa e branca no primeiro brilho do choro. É ela, liberta de todos os muros. Oh! querida, que bom te ver, que bom estar contigo, que bom, que bom, meu amor, que você enfim chegou. 

29-10-72