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Crônica de Quinta: Como se à beira do sono

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 26 de maio de 2016


O cinema estava vazio. Melhor, tive o filme só para mim que bem o merecia. Três contos somente, dos 50 escritos por Giambattista Basile no começo do século XVII. Mas de tamanha beleza, que faz a parte valer pelo todo e justifica o filme ser nomeado como o livro, "O conto dos contos".

Não devemos levar a sério o subtítulo da obra de Basile " overo lo Trattenemiento de Peccerille" ( "ou seja, o entretenimento dos pequeninos"). Como as grandes coletâneas de contos maravilhosos que a antecederam, as 49 narrativas englobadas em um conto-moldura destinam-se a qualquer idade. Nem Matteo Garrone fez um filme para crianças, ou mesmo para adolescentes. Ao contrário da série de adaptações de contos de fadas com que Hollywood vem nos castigando, não há luta do bem contra o mal, nenhum super herói, nada de enfrentamentos bélicos ou explosões, nenhuma obviedade. Distante está o ritmo de filme de aventura. Tudo é pausado, surpreendente e, como uma voz de narrador, a beleza torna-se elemento da história.

Garrone escolheu e fundiu três dos contos, "A corça encantada", "A pulga", e "A velha esfolada". Propositadamente deixou de lado as mais famosas. Poucos sabem, mas Cinderela - ou A Gata Borralheira- atribuída a Perrault ( e hoje desapropriada por Disney), faz parte da coletânea de Basile sob o título "La gatta Cenerentola ". E também são de Basile "Branca de neve", "O gato de botas", e "A bela adormecida".

Como Perrault, Basile também não é o criador dos contos, que colheu do folclore e escreveu em dialeto napolitano. Como Perrault, foi muito admirado pelos irmãos Grimm que o consideravam o pai dos contos de fadas. Graças e eles, a tradução para o alemão antecedeu em quase um século a tradução do napolitano para o italiano, logo transformando a obra em um clássico.

Falando em tradução, há alguns abundantes anos, meu amigo Sebastião Lacerda, editor da Nova Fronteira, me pediu para fazer a tradução de "Lo cunto de li cunti". Confesso que a tentação foi grande, teria sido um enfrentamento delicioso. Mas depois de muito pensar, recusei. Não estava me furtando ao trabalho, que seria intenso, mas sim evitando o risco de contaminação. Sendo eu mesma autora de contos de fadas, temia que depois de meses mergulhada no universo maravilhoso de Basile, algum fiapo de enredo ficasse emaranhado na minha memória levando-me a cometer, inconscientemente, algo próximo do plágio.

Por isso escrevi na primeira linha que eu bem merecia ver o filme como se tivesse sido feito só para mim, ou só para mim estivesse sendo contado como se contam os contos de fadas à beira da cama, no limiar do sono. 

Garrone tratou os contos com a densidade que eles merecem. Passando por cima da linguagem de Basile transbordante e barroca, frequentemente desbocada, criou com suas imagens um discurso nobre, elegante e sombrio. O drama está sempre à espreita, e a realização dos desejos cobra um preço que pode ser muito caro. 

Tudo parece verdadeiro nessas narrativas visuais entretecidas de irrealidade. Os castelos são sólidos, os abismos são profundos, e a escuridão é tão viva e pastosa como aquela pintada por Caravaggio. Há majestade nos reis, há peso nas caudas dos vestidos das damas e leveza nos seus véus. E há drama e medo e sacrifício na busca, tão humana, daquilo que mais se quer.

Dormiremos à sombra (Contos de amor rasgados)


   Não sabia dormir com luz. Assim que clareava o dia, amarrava um lenço preto sobre os olhos e continuava o sono em profunda noite. 
   Em plena revolução, foi preso e condenado à morte. Tremia. Permitiram que sentasse diante do pelotão de fuzilamento. O padre trouxe a estrema-unção. O capitão trouxe a venda. 
   Antes que fosse dada a ordem de atirar, o pano preto fez noite em seus olhos. E encostando a cabeça no espaldar, adormeceu. 

Marina Colasanti no livro "Contos de amor rasgados" (Editora Rocco, 1986).

Marina (Foto)



Crônica de Quinta: Mulheres e política

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 19 de maio de 2016




Dezessete ministras e ex-ministras da França, entre as quais a poderosa Christine Lagarde, assinaram no último domingo uma declaração contra o abuso sexual na política, publicada nos principais jornais do país.

A notícia chega em boa hora, quando o Brasil denuncia o machismo na composição do novo ministério, para o qual nenhuma mulher foi convidada - segundo escalão não é ministério. 

"Nem todas as mulheres se sentem ofendidas com cantadas."- disse Yvette Roudy, ex- ministra para os Direitos das Mulheres e uma das que assinaram a petição- "Mas algumas consideram isso extremamente ofensivo. E agora decidiram falar". A frase-chave da petição é exatamente :"Não calaremos mais". 

E não se trata apenas de cantadas, que já seriam intoleráveis em um ambiente que pretende a seriedade. Sandrine Rousseau, porta-voz do Partido Verde, acusou Denis Baupin, deputado do mesmo partido e vice-presidente da Assembléia Nacional, de apertar-lhe os seios e tentar beijá-la à força em um corredor. Baupin nega, mas demitiu-se.

Seria importante perguntar às minguadas mulheres da nossa representação política se já sofreram cantadas, se algum colega alongou a mão por baixo de uma mesa, se já lhe elogiou as formas ou mergulhou o olhar no seu decote. E seria mais importante ainda perguntar o que elas consideram mais ofensivo, se as cantadas, ou o fato de serem tão poucas e sempre menos consideradas que seus colegas homens.

O machismo se revela nos detalhes, mas está ancorado no todo. O ministério de François Hollande tem 9 homens e 7 mulheres. Na hora de compor o seu ministério, Michel Temer não estava pensando em igualdade, estava contando os votos que os nomes escolhidos lhe garantiriam no Congresso, votos de que necessitará para aprovar as mudanças prometidas. E os votos que as mulheres parlamentares arrastam consigo são insuficientes. 

Não por incompetência, certamente. Se há mulheres no Supremo, se há mulheres chefiando empresas e há mulheres de ponta na ciência e na indústria, por que não as haveria em política? Sou tentada a dizer que por falta de espaço, por preconceito do eleitorado e dentro dos próprios partidos ( Dilma não ganhou por competência, conforme se viu, ganhou apesar de ser mulher, somente por ser a representação de Lula). Mas a resposta não me cabe, cabe a elas.

Progressiva e firme acontece, porém, uma mudança reveladora no universo político. Se a presença feminina não aumenta no congresso, domina, disparada, a mídia. Vozes femininas entrevistam os políticos e fazem a cobertura em Brasília. Mulheres comandam programas políticos, e mulheres estão na primeira linha de comentaristas. Nas últimas semanas, quando o Brasil esteve parado diante da televisão, muito mais do que os homens brilharam as mulheres, não só na cobertura dos fatos, mas nas análises e na projeção de possíveis desdobramentos. 

Se as mulheres entendem tanto de política, parece pouco provável que não saibam fazê-la.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, Trump prossegue com sua campanha à frente do partido Republicano. Vamos ver se as mulheres americanas, que já denunciaram seu escancarado machismo, e já sabem de suas investidas indesejadas, de suas piadinhas grosseiras e de seus comentários sobre a forma física feminina, o rejeitam nas urnas.

Crônica de Quinta: Outra guerra

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 12 de maio de 2016



Como escrever uma crônica em tempos de guerra como os que estamos atravessando? Conversava na segunda-feira com Miriam Leitão e dizíamos justamente isso, que na atual situação o texto jornalístico escrito hoje pode estar ultrapassado amanhã, pior, pode estar ultrapassado antes mesmo da gente acabar de escrevê-lo. 

Nem há cabeça para falar de amenidades com a câmara pegando fogo, o senado pegando fogo e o Palácio da Alvorada em chamas. Então, melhor ficar no clima e falar de guerra.

Uma outra guerra, porém. Aquela relatada por Svetlana Alexiévich no livro de que falei na semana passada, "La guerra no tiene rostro de mujer", que agora estou lendo.

Como todos os livros dessa jornalista e prêmio Nobel bielo-russa, este também é de depoimentos. No caso, depoimentos de algumas das tantas mulheres que combateram na linha de frente do exército russo na Segunda Guerra Mundial. Eram cerca de um milhão, embora quase não se fale delas. O dobro das quinhentas mil dos Estados Unidos, que o cinema preferiu nos mostrar sempre lindas e bem maquiladas, sempre na retaguarda. E o dobro das alemãs.

Svetlana nasceu em 1048, bem depois do fim da guerra. Mas o avô ucraniano havia sido morto em batalha, a avó paterna havia morrido de tifo em um destacamento de partisans e dos seus três filhos que foram para a guerra só um voltou para casa, o pai de Svetlana. Onze de seus familiares foram queimados vivos pelos alemães. A guerra está emaranhada em suas raízes.

"Percorri um longo caminho com minhas personagens - escreve -. Como elas, tive que deixar passar um tempo para poder assumir que nossa Vitória tinha duas caras: uma bonita e a outra espantosa, coberta de cicatrizes. Olhar para ela dói. "

E começam os depoimentos das mulheres.

"Ninguém imagina como é difícil matar um ser vivo. Eu pertencia a uma organização clandestina. Me mandaram obter um posto de camareira no refeitório dos oficiais (...) Tinha que botar veneno na sopa deles e voltar ao acampamento dos partisans . Mas eu havia me acostumado com eles.(....) Matar é difícil. Matar é mais difícil que morrer."

E contam que lhes cortaram os cabelos quando se alistaram, eram meninas cheias de entusiasmo e tiveram que aprender a atirar e a se camuflar, e porque só dispunham de 5 minutos para se vestir e calçar escolhiam botas um número maior para que deslizassem mais rapidamente nos pés. Finda a guerra e de volta a suas casas, foi preciso reaprender as pequenas coisas do cotidiano, ser novamente mulher, usar sapatos e vestir saias.

Diz uma franco atiradora mais de dez vezes condecorada, com 75 mortes no currículo:" Uma coisa que penso...Escuta só...Quantos anos durou a guerra? Quatro anos. É muito tempo...Não lembro nem de pássaros, nem de cores. Claro que estavam presentes, mas não lembro deles. Sim... é estranho, não é? Será que os filmes sobre a guerra podem ser coloridos?Ali tudo é negro. Só o sangue é de outra cor, só o sangue é vermelho..."

Embora a escuridão, o feminino permanece. As combatentes que não temem o inimigo se assustam com ratos, e enfrentando a morte pensam que o pior seria morrer feias ou desfiguradas. Ninguém, na organização, pensou em providenciar absorventes para elas que, andando na neve deixavam rastro de sangue. Só depois de meses de combates descobririam que a tensão e o medo eliminam a menstruação.

Alessandra Manda Lembranças: Dia das mães


(08.05.2016) querido diário, hoje eu dei dez barras de chocolate para minha mãe, hoje a gente saiu para comer fondue, hoje e sempre dia das mães

Marina na Feira Internacional do Livro de Bogotá




Janny van der Molen y Marina Colasanti hablan junto a Yolanda Reyes sobre "Leer y escribir: refugios imaginarios".

Crônica de Quinta: Duas culminâncias

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 05 de maio de 2016




Na FILBO deste ano houve duas culminâncias. FILBO é a feira internacional do livro de Bogotá, de onde acabo de regressar.

Cheguei quando Svetlana Alexiévich, nome principal dos convidados estrangeiros, já havia falado. Todos se referiram com grande entusiasmo à sua apresentação. Disseram que essa mulher da Bielo-Russía, prêmio Nobel que não é literata mas jornalista investigativa, que não escreve romances mas faz uma espécie de colagem de entrevistas desenhando grandes fatos históricos através dos depoimentos de quem os viveu, fala com visível emoção. Mostravam o braço no gesto clássico de quem se arrepiou. Ela havia cativando seu auditório. Poderemos conferir quando vier à Flip este ano.

Também cheguei tarde para o outro ponto alto da Feira. Multidões haviam feito filas intermináveis nos guichês e lotado os amplos espaços externos para o lançamento do livro "Chupa el perro" ( chupa o cão) , de German Garmendia. Jovens fãs choravam histéricas, pais lutavam para comprar o livro atendendo as súplicas dos filhos, houve empurra-empurra. A situação ficou tão tensa que, pela primeira vez na história da Feira, fecharam-se os guichês de venda de ingressos. 

E quem é esse autor tão disputado, de quem nós nunca ouvimos falar? Um jovem youtuber chileno, capaz de entregar ao seu editor milhões de seguidores.

A expressão chilena "chupa el perro" tem duplo significado. Quer dizer sexo oral aplicado a um homem, mas também pode ser usada com sentido de "dane-se". Um amigo de German, gordote e vulgar, explica na internet o que o titular quer dizer com a expressão. Para ser mais claro, ou mais grosseiramente óbvio, segura um filhote de cão e, língua de fora ou boca escancarada, vai demonstrando as múltiplas possibilidades.

Fui também em busca dos vídeos de German, tentando entender a paixão dos adolescentes. Não entendi, mas pode ser porque não sou adolescente.

É tudo vertiginosamente rápido. O rapaz pode até ser considerado bonito. Frases curtas. Situações que se resolvem no ato. Por exemplo: como se fossem duas personagens, ele mesmo, de camiseta listada pergunta, "você é homo?", e ele mesmo, agora de camiseta lisa, hesita na resposta fazendo-se de constrangido, diz que tentou evitar mas teve que assumir, sim, é homo. Pausa brevíssima, e acrescenta: homo sapiens. Não tive desejo de ver mais.

A questão levantada na Feira não era sequer a da qualidade dessas perfomances. E sim a propriedade de, uma vez transferidas para o formato livro, serem lançadas numa feira que se pretende de literatura.

Fenômenos parecidos têm acontecido em nossas bienais. Basta uma personagem mediática qualquer, um cozinheiro ou um treinador de cachorros ou um apresentador esportivo, escrever algo que se assemelhe a um livro, para que seu lançamento eclipse a apresentação do livro de um autor sério e respeitável. Muitos autores de literatura têm evitado participar de bienais para evitar esse vexame.

Comprei um livro de Svetlana, "La guerra no tiene rostro de mujer"( não achei referência a qualquer edição em português) sobre a presença das mulheres russas no front da Segunda Guerra Mundial.

O livro "Chupa el perro"não tive desejo de comprar.

Crônica de Quinta: Consertando filó

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 28 de abril de 2016 



Saímos do sítio depois do almoço. E pegamos a estradinha de terra. Íamos consertar filó. O sítio era perto de Conselheiro Paulino, mínima cidade que hoje cresceu e mais parece um subúrbio de Friburgo. Naquele sítio, o pai artista da minha amiga plantava palmas. E lá passávamos as férias de verão.

Sobre o pó da estradinha, a tarde escorria mansa feito riacho em seu leito. Poucos pássaros nas árvores, talvez repousassem. Por vezes um cantar. Um ou outro trabalhador cruzou conosco na estradinha, uma ou outra mulher com filho no colo ou pela mão. Trocávamos cumprimentos ao passar. Entre os dentes, levávamos um talo de capim arrancado da beira para ir mastigando no caminho.

Era longo o caminho. Passamos por várias casas antes de chegar. Mas afinal, chegamos. Nosso destino não era uma casa, era um ponto ao ar livre, sob as árvores, rodeado de mato. Nesse ponto, espécie de terreno batido e varrido, Dona Morena ( o nome real não é este, e já se verá porque o troco), conhecida da minha amiga, consertava filó.

A questão do filó era coisa de outros tempos, que sobrevivia quando já usávamos tule sintético. Da Fábrica de Filó, em Friburgo, por descuido ou incompetência das máquinas, o produto saía com falhas que eram detectadas estendendo-se o filó sobre imensas mesas e marcando cada falha com um grosso lápis vermelho. O filó marcado era então metido em sacos e entregue às consertadoras, mulheres do campo que faziam esse serviço para ganhar um dinheirinho extra. O pagamento ínfimo fazia-se por falha consertada.

Todas as tardes, pelo menos no verão, Dona Morena sentava-se num banquinho, o colo coberto pelo filó que espumava ao redor, metros e metros daquele branco quase impalpável rodeando-a e derramando-se sobre o terreiro. Era filó de algodão. E usando uma agulha enfiada com o fio daquele mesmo algodão, ela ia cerzindo, se assim se pode dizer, cada falha.

Não só ela. Como um ninho, o filó abrigava várias crianças de várias idades que, pedindo uma agulha à matriarca, cuidavam a seu modo de remendar filó. Nós também, ao chegar, pedimos um banquinho e uma agulha, pegamos uma ponta qualquer daquela espuma, e começamos a recompor os alvéolos falhados.

Tomava-se café, água de moringa, conversava-se sem pressa de assuntos sem importância. As galinhas ciscavam ao redor, uma gata cuidava da ninhada. O tempo era acolhedor como o filó.

Mas aconteceu que, de repente, outra personagem entrasse naquela cena. Dona Morena então se levantou, sacudiu da saia os fiapos de linha branca, entregou a agulha a uma das crianças, e foi arrastando sandálias até o recém chegado. Era o seu amante. Com a maior naturalidade encaminharam-se os dois para o mato, onde a função do amor se desenrolou protegida pela silenciosa conivência de crianças e adultos. Depois, Dona Morena reassumiu agulha, banquinho, e sua pose de rainha.

Ao escurecer, minha amiga e eu voltamos para o sítio como se regressássemos de uma viagem. 

Não há mais falhas no filó de nylon que sai das máquinas rígido e perfeito como uma rede. As máquinas modernas não ousam errar. Mas esse filó que mais parece de matéria plástica não acolhe ninguém, não ficará na memória de nenhuma criança como a espuma aconchegante que em tardes de verão se espalhava pelo terreiro.

Por duas asas de veludo


Atriz: Daniela Landin

Crônica de quinta: Mais que uma Ilíada

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 21 de abril de 2015

Bruce Gomlevsky assume atuação e direção na peça "Uma Iliada" - Foto


Agaménnon, Aquiles e Ulisses foram os heróis da minha infância. Entretanto, se como adulta tivesse tido a idéia de trazê-los ao palco através de uma única voz narrativa, a teria recusado, considerando-a não só pretensiosa, como demasiado grandiosa para o público da modernidade, demasiado reflexiva para gente cada vez mais distante de Homero, cada vez mais seduzida pela leveza. 

Felizmente, quem teve a idéia não a recusou. A diretora Lisa Peterson e o ator Denis O'Hare condensaram nove anos do cerco de Tróia, e os motivos que o causaram, as rivalidades, os orgulhos feridos e amores que o levaram adiante, além da interferência dos deuses replicando no Olimpo igual rivalidade e orgulhos e amores. 

A peça se chama "Uma Ilíada"e fui vê-la na impecável encenação de Bruce Gomlevsky.

Quando criança, a leitura da Ilíada foi tão impactante que, adiante na vida, não a quis retomar, com medo de estragar aquele encantamento primeiro. Eu havia lido uma adaptação feita para crianças maiores, talvez não tenha entendido tudo o que lia, mas nunca mais esqueci a emoção que aquela narrativa me provocava. Durante os últimos anos na Itália, gregos e aqueus povoaram as conversas e as brincadeiras com meu irmão, e lembro claramente os guerreiros de saiote e elmo que ele desenhava nas beiradas dos cadernos. Com a chegada ao Brasil, a força tropical nos distanciou progressivamente dos que haviam sido nosso heróis.

Fui reencontrá-los no palco do teatro Maison de France, ausentes e presentes na voz do aedo que os cantava. O figurino estranho como uma obra de Bispo do Rosário ajuda a cancelar o tempo. E na escuridão, só um fogo de luz sobre o narrador, a história começa a ser contada.

Quantos ecos desperta o nome de Agamennon! Quando fui a Micenas, já casada, atravessei a Porta do Leão como quem entra em casa que conhece ou que sempre desejou conhecer. E no Museu Arqueológico, diante da máscara mortuária de ouro que lhe foi atribuída no passado, mesmo sabendo que não era dele pois a ciência comprovou sua origem anterior, procurei sensibilizada o rosto de general vitorioso.

Não sei exatamente em que momento da vida resolvi correr o risco de amarrotar o passado. Mas o laço ainda não havia sido desfeito, pois foi em uma viagem à Itália que comprei a versão em prosa da Ilíada, como se ler na mesma língua da primeira leitura diminuísse o perigo. Procedi de forma igual, em outra viagem, com a Odisséia. E não as quis em versos, já que em prosa as conhecia.

Pergunto-me agora, quais terão sido os percursos de Peterson e O'Hare. Não se chega a Homero de sopetão. O percurso de Bruce perguntarei a ele da próxima vez que o encontrar. Na noite em que fui ao teatro e esperei que saísse do camarim, ele estava ainda tão tomado pela concentração, pelo esforço daquela enorme viagem, que mal conseguia articular agradecimentos. Não havia voltado de todo, parte dele continuava às portas de Tróia.

Eu também, tomada pelo seu trabalho, pela força da sua emoção, fiquei por alguns dias entre a beira mar grega e as muralhas troianas. E lamentei que meu irmão não estivesse mais aqui, porque certamente eu o chamaria para almoçar e, finda a comida, ficaríamos os dois falando daquela guerra, como o fazíamos no tempo em que parecia tão próxima quanto a outra, real, que se desenrolava lá fora.

Eu sei mas não devia por Simão Cunha


Intérprete: Simão Cunha

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.