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Crônica de Quinta: Conceito extendido

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 22 de janeiro de 2015



O braço dos humanos - em geral o direito- acaba de crescer cerca de um metro. É o "pau de selfie", bem recebido ampliador do ângulo de narcisismo e último gadget do verão. Podemos prever enfrentamentos em aglomerações turísticas, duelos com esse novo florete registradíssimos de lado a lado e logo postados nas redes sociais. Não à toa os clubes de futebol ingleses proibiram seu uso nos estádios, e na Coreia do Sul será controlado.

Vivemos inicialmente - e continuamos vivendo- a febre dos selfies. Depois vieram os butt-selfies, ou autorretratos dos glúteos, talvez retrato dos autoglúteos, com técnica ensinada na internet, quantos graus de distância do espelho, como obter o efeito magnificante projetando a parte em questão e retraindo o resto. Seguiram-se os car-selfies, tirados dentro do carro, com todos os passageiros incluídos - quando, a meu ver, deveria chamar-se else-selfie. E agora chegou o extensor.

Não há dúvida, o papel social da fotografia tornou-se outro.

Penso nas fotos dos emigrantes europeus frente às casas que acabavam de erguer em sua nova terra. Ou nas fotos dos avós, lado a lado em suas molduras ovais, na parede da casa modesta. Ou ainda na foto, em casa burguesa, da filha de véu e grinalda no dia do casamento. Eram fotos emblemáticas, de pessoas essenciais à identidade daquela família, ou registro dos momentos em que a vida havia marcado um novo rumo. Eram fotos que pretendiam fixar pontos determinantes do percurso de cada um. Fotos de permanência.

E eram privadas, patrimônio familiar, a transmitir como se transmite o DNA. " Esses - diziam as fotos - somos nós. Assim é a família à qual você pertence. Aqui está parte de você".

As fotos não eram muitas, porque eram caras. E não eram muitas porque a abundância era conceito que ainda não havia sido transformado em dever.

Tenho poucas fotos de infância. Embora meu pai gostasse de fotografar - até o fim da vida falaria com encantamento da Leica que usava naquele tempo- eram anos de guerra, raramente ele estava presente, e quando estava as preocupações eram outras. Nem por isso minha infância parece menor. E, se sinto falta de algum registro, é apenas da casa que tivemos em Tripoli, porque da nossa estada naquela cidade só sobrou a memória, e minha memória aos quase quatro anos era ainda muito reduzida.

Com o sistema digital - que economiza não só a película como toda uma parte do processo - e sobretudo com o celular, a foto passou a ter outro significado.

Não mais a permanência. As fotos que tiramos constantemente, em toda e qualquer circunstância, do fato alheio ao prato de comida, não são para guardar. Guardamos, sim, no poço escuro e sem fundo do computador ou no esquecimento da própria câmara, mas não para isso as tiramos. Nossas fotos não se destinam mais a conservar o passado. O que pretendem é registrar um presente sempre em movimento, como fotogramas de um filme. São fotos de mobilidade. Por isso, tantas, uma após a outra, sem parar.

Nem são privadas, nada a ver com o DNA. Se, ainda que simbolicamente, alguma foto se pendura na parede, que seja em parede alheia. Não queremos saber quem somos, queremos que os outros saibam. E para os outros nos fotografamos sempre sorrindo, com belas paisagens ao fundo, agora ampliadas pelo extensor de selfie.

Minha tia me contou


Um barulho no meio da noite remete a moça a um tempo feliz de sua vida. O tempo da infância, repleto de sonhos e fantasia.

A vida em família, o relacionamento com vizinhos e o universo das brincadeiras de criança são alguns dos elementos que compõem a bem elaborada narrativa da grande escritora Marina Colasanti.

Um texto comovente. Uma bela história permeada de memórias afetivas.

Foto: Marina no Congresso Brasileiro de Poesia (1990)


Marina Colasanti na primeira edição
do Congresso Brasileiro de Poesia -
Nova Prata-RS - 1990
 
Criado em 1990 pelo Jornalista, Poeta e Produtor Cultural Ademir Bacca, o Congresso Brasileiro de Poesia teve suas primeiras edições realizadas na cidade de Nova Prata. A partir de 1996 passou a ser realizado em Bento Gonçalves. O Congresso Brasileiro de Poesia acontece durante uma semana com o apoio da Prefeitura Municipal de Bento Gonçalves e de Empresas e Comércio e é uma realização do Proyecto Cultural Sur Brasil.

Crônica de Quinta: Com licença

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 15 de janeiro de 2015




Meu pai tinha 17 anos quando fugiu de casa com a conivência do pai. Ia à guerra. A guerra, na ocasião era a conquista da cidade de Fiume ( atual Rijika, na Croácia) pelas forças irredentistas comandadas pelo poeta /aviador /soldado Gabriele d'Annunzio. Meu pai se juntaria a outros 1999 combatentes( é provável que na realidade o número não fosse tão exato, mas a história registra 2000) todos voluntários. Era o ano de 1919.

Depois dessa, houve guerras de montão bem mais fatais que, certamente, contaram com infinitos voluntários. Mas o sinistro ataque ao Charlie Hebdo traz de volta ao primeiro plano o impulso que leva um jovem a adotar ideais extremos, e a oferecer sua vida por algo aparentemente distante do seu cotidiano, que meses ou anos antes sequer ocupava sua atenção.

Todos nos perguntamos o que faz com que um jovem americano ou holandês ou seja de onde for, até então aparentemente normal, saia da sua vida para ir a outro país, submeter-se a um treinamento que o levará diante das câmaras a decepar a cabeça de um semelhante.

Cherif Kouachi foi até certo ponto um jovem meio perdido que gostava de rap. Mais adiante, quando esse ponto havia sido ultrapassado, foi preso no aeroporto, tentando embarcar para a Síria . Quantos jovens de ficha mais limpa que a dele, passaram tranquilamente pela mesma roleta e se tornaram combatentes?

Tento não me contaminar pensando nos resultados ou avaliando a ideologia. Quero manter o foco no impulso que subitamente - ou lentamente- desperta o instinto guerreiro.

Calcula-se que haja atualmente em Israel 3000 hayalim bodedim, ou seja, lone soldier, jovens soldados sem família no país, vindos do mundo todo. Estima-se que 500 sejam franceses. Geralmente muito jovens, classe média, sem terem jamais vivido a guerra, saídos diretamente da faculdade ou do início de carreira. Podem adotar a nacionalidade israelense ou recrutar-se sem ela como voluntários militares. Para isso, é necessário comprovar pelo menos um avô ou avó judeus. O número de postulantes aumenta grandemente nos períodos de acirramento dos conflitos.

Diz Nissim, capitão de infantaria de um batalhão de elite, que se inscreveu por um período de 5 anos e meio: "Quando eu estava acabando o segundo grau, em Paris, o diretor nos aconselhou a ficar para trás na plataforma do metrô, porque um aluno havia sido empurrado sobre os trilhos. Aqui, podemos nos defender... Já fiz a guerra do Líbano, centenas de operações na Judéia, na Samária, em Gaza..."

Depois de Fiume, quando já adulto, meu pai foi voluntário duas vezes mais, nas guerras colonialistas da Itália. Da segunda vez, era tanto o seu desejo de participação que, havendo excesso de oficiais, ele se degradou, indo como soldado simples. E era já um senhor de bastante idade quando lamentou comigo não poder ir à guerra das Malvinas. "A guerra, Marina, é bonita para um homem", me disse à guisa de explicação.

Essa frase plantou em mim, para sempre, a suspeita de que a guerra exerça sobre os homens uma atração em si, que eles concretizam se apenas lhes aparece uma ideologia que a justifique.

O sucesso de James Bond pode ter aí suas raízes. Ele também usa uniforme ( seu smocking impecável), mantém a adrenalina altíssima, está a serviço de uma causa, corre riscos constantes mas está certo de sobreviver, usa armas incríveis. E tem licença para matar.

Marina Colasanti na TV PUC Rio



A escritora Marina Colasanti, vencedora do Prêmio Jabuti 2014, na Categoria Infantil, com o livro “Uma breve história de um pequeno amor”, contou à TV PUC que a obra trata de seu relacionamento real com dois filhotes de pombo, uma metáfora para o crescimento dos filhos. Marina participou do encontro aberto realizado pelo Instituto Interdisciplinar de Leitura da PUC/Cátedra Unesco de Leitura.

Crônica de Quinta: Entre livro e tablet

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 8 de janeiro de 2015




A menina tem seis meses. Sei disso porque ouvi a mãe dizer. E ainda mama. Ali mesmo, na mesa do restaurante, entre uma e outra garfada de pizza, a mãe lhe deu o peito mais de uma vez. Agora está sentada no carrinho em que chegou, olhando para um telinha, creio que uma espécie de tablet, com jogos ou figuras em movimento.

Ainda de manhã li o alerta da Academia Americana de Pediatria, segundo a qual estudos científicos demonstraram que crianças muito novinhas, quando submetidas ao bombardeio do mundo digital, podem vir a sofrer vários problemas. Entre eles, atrasos cognitivos, problemas de atenção, dificuldade de concentração na escola, transtornos do sono e de alimentação ( sobretudo relativos a obesidade).

A telinha que a menina olha agora, num esforço de entendimento e apreensão, está encaixada em uma estrutura plana, de material macio, cor de rosa, em feitio de boneco. A tela forma o corpo da estranha criatura, sobrando para os lados pernas e braços. A estrutura encaixa-se perfeitamente na parte dianteira do carrinho, com os braços servindo de suporte, o que me faz crer que tenha sido concebida exatamente para distrair bebês incautos, enquanto os pais dão cabo de pizza, cerveja, ou simplesmente conversa.

Diz a AAP, que as crianças americanas estão gastando uma média de sete horas diárias diante de telinhas de variados tamanhos. Não sei a média no Brasil, mas pelo que tenho visto em aeroportos, aviões, restaurantes e lanchonetes, deve andar mais ou menos por aí. A nova postura infantil é corpo largado, cabeça baixa, rosto iluminado pela luz fria da tela, e indicador agindo rápido. Com eles entretidos, os adultos podem mergulhar em suas próprias telinhas.

"O cérebro de uma criança- diz o alerta da AAP- se desenvolve rapidamente durante os primeiros anos, e as crianças aprendem melhor através da interação com pessoas, não com telas. É importante que passem mais tempo brincando ao ar livre, fazendo leituras, divertindo-se com passatempos e usando sua imaginação em brincadeiras".

A pequena choraminga. Certamente está com sono, a hora dela dormir passou há muito. Então a mãe a pega no colo, põe o tablet cor de rosa sobre a mesa, e vai distraindo a filha mostrando-lhe como, batendo ou deslizando com o dedo, a figura muda.

Para que a mãe folheasse um livro, em vez de dedilhar uma tela, seria preciso: a) que o tivesse trazido e, eventualmente, comprado. b) que soubesse escolher o livro adequado. c) que tivesse real consciência de quanto a leitura é boa para a filha. d) que soubesse interagir com o livro. e) que fosse, ela própria, leitora.

É muita coisa, convenhamos. Pelo menos, na nossa cultura.

Este ano, mais uma vez, pudemos constatar a esquizofrenia social que faz com que, embora reafirmando constantemente o valor da leitura na infância, esse mesmo valor seja negado. Nas listas que ao fim do ano apontam os melhores de cada categoria, e que os veículos preparam com tanto esmero, alguém viu constar a literatura infantil? Reservam-se para ela, pelo menos, alguns lugares junto à literatura adulta?

Sem deparar-se com qualquer reconhecimento de valor, por que a mãe da menininha escolheria um livro em vez de um tablet, elevado pela publicidade a sonho de consumo? E como saberia ela que livro escolher, se ninguém lhe diz quais são os melhores? Quando a filha crescer um pouco, talvez escolham juntas algum livrinho Disney, para combinar com a mochila , o caderno, a malinha ou com a nova capa do novo tablet.

Tentando se segurar numa alça lilás


Tentando se segurar numa alça lilás

Entrou no elevador.
A um canto, outra mulher segurava firme debaixo do braço uma enorme bolsa de couro lilás.
- Que ousadia, uma bolsa lilás - sorriu ela.
- Acabei de dizer a um homem que o amo - respondeu a outra. - Então entrei numa loja e, entre todas, escolhi essa bolsa. Eu precisava sentir nas mãos a minha audácia. 
Não sorriu. Agarrou-se náufraga na alça.

Marina Colasanti em "Contos de amor rasgados" (editora Rocco, 1986).

Entrevista para a Folhinha


Folhinha: Foi uma surpresa ganhar o Jabuti de melhor livro do ano?

Marina Colasanti: Gostaria de dizer que sim. Mas há um certo demérito ligado a literatura infantil, como se não fosse necessário ser escritor para escrever livros para crianças. Veja uma coisa: se algum escritor brasileiro ganhasse o Nobel, todos fariam muito barulho, concorda? Porém, o Brasil já ganhou três vezes o Hans Christian Andersen (considerado o Nobel da Literatura Infantil), e ninguém fala sobre isso. 

Por outro lado, a literatura infantil e juvenil está na ponta mais valorizada do mercado, que tem altíssimo interesse por esse tipo de livro. Há muita demanda, muito lançamento. Mas muitas vezes sem cuidado literário.

Leia a entrevista na íntegra AQUI

Crônica de Quinta: Uma Imperatriz e três cisnes

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 1º de janeiro de 2015




Um livro intenso tem habitado minha vida nas últimas semanas, "A Imperatriz de Ferro", da historiadora chinesa Yung Chang. E aconteceu que, zapeando, desse de cara com ela sendo entrevistada no palco do Hay Festival de Dhaka, em Bangladesh.

O diálogo que até então travávamos em silêncio, pareceu ganhar outra dimensão. Mal a reconhecia, porém. A mulher que eu guardava na lembrança era, não só mais jovem, como moderna, vestida à moda ocidental, o cabelo mal batendo nos ombros. Esta, ao contrário, tinha o corpo oculto por um traje chinês longo e largo, de grandes mangas, bordado. E o cabelo havia-se transformado em cabeleira farta, presa ao alto em estranho penteado.

Mais adiante, na entrevista, Yung Chang explicou. Em homenagem ao seu livro e à sua personagem, vestia um traje original, da época da Imperatriz Cixi, presente de uma colecionadora italiana, leitora apaixonada de seu outro livro,"Cisnes Selvagens".

Aos nossos ouvidos, Cixi parece apelido pouco consoante com a mulher que com mão forte levou a China para a modernidade, em meados do século XIX. Mas Cixi, que também pode ser grafado Tzu Hsi, é o nome que recebeu ao ingressar na corte quando, aos 16 anos, foi selecionada entre as jovens mais promissoras do pais, para ser concubina do imperador. Significa "gentil e alegre". Como se chamasse antes não se sabe. Nomes femininos não mereciam registro, e ela consta apenas como "mulher da família Nala".

Por ser mulher, a Imperatriz de Ferro governou sempre atrás de um biombo de seda. Os dignitários, embaixadores, colaboradores e chefes militares que despachavam com ela na sala de audiências, e que se ajoelhavam batendo três vezes com a fronte no chão, não deviam vê-la. Viúva, ela reinou sobre um país imenso e poderoso, mas à sombra de dois imperadores. Primeiro o filho, que morreu de varíola aos 18 anos, depois o sobrinho, adotado por ela aos 3 anos para tornar-se imperador.

Yung Chang nos conta a história dessa mulher determinada, numa China que não deixava espaço para a determinação das mulheres. Foi governante acima de tudo. Um dia antes de morrer, sabendo que morreria, mandou envenenar o filho adotivo, também moribundo, para que não houvesse risco de que, recuperado, arruinasse com seu temperamento fraco a China que ela havia lutado para construir. Conheci Yung Chang em 1995, quando veio ao Brasil para o lançamento de "Cisnes Selvagens", seu primeiro livro. Na época, escrevi numa crônica como ela começou a fala tirando da bolsa, e nos mostrando, a braçadeira que havia usado quando Guarda Vermelha, e o sapatinho de cetim da sua avó, que durante toda a vida sofrera dores nos pés encolhidos. Yung Chang começava sua carreira contando parte da história da China através de vidas femininas. No meu exemplar do livro, encontro anotado: "Apresentei Yung Chang em sua conferência na Casa Lauro Alvim. A mãe, que estava com ela, não fala outra língua a não ser chinês, mas vê-la falar é encantador. Ela se acende quando fala. Ambas têm uma pele maravilhosa, compacta, uniforme.(....) Em seu livro, ela se refere, como ponto de beleza, a pessoas de pele branca e rosada. Comprova-se que os "amarelos" só são amarelos para nós. Nem uma única vez ela se refere a essa cor de pele. Os chineses se vêm absolutamente brancos"

Crônica de Quinta: Um amor diário

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 25 de dezembro de 2014


Eu amo o Dahmer. Meu marido sabe e, embora não compartilhe pois não é amante de tiras, não se opõe.

Todo dia, depois do café e às vezes durante, abro o Segundo Caderno do Globo e vou lá no alto da página 7, ver como funciona a cabeça que é a ilha, ou o que estranhos demônios criaram e certamente continuarão criando, ou o que datilografa em sua velha máquina de escrever o homenzinho sempre de perfil e cabelos ao vento.

Há gente que gosta de tiras, e gente que não. Mas gostar de tiras não funciona assim, no plural. É gostar de uma ou outra, específica, e nem olhar para as demais. É uma cumplicidade, um pacto. Eu nem sei quais são as que vêm abaixo do Dahmer, na mesma página. Confesso outros amores - ah, o desenho do Laerte! - mas em outros jornais, na Folha, no Estado, e não tão diários.

Gosto mais de tiras, talvez, que de cartoons - embora goste de ambos. O cartoon mata o assunto com um só tiro, seco. Prescinde da colaboração de quem o lê, e se entrega inteiro a um único olhar. Exige precisão, é verdade, e ganha mais vida se for inteligente e não somente engraçado. É como a tacada que encaçapa direto.

A tira, ao contrário, vive da pausa. Respira em três quadros, no máximo quatro. E conta com isso. O leitor entra de pé leve no primeiro quadro, troca o pé para pisar no segundo, e pula com os dois juntos no terceiro. É uma dança mental que espera - e exige- ser recompensada ao final. Uma colaboração entre leitor e desenhista. Quando a tira é inteligente e dá um pulo do gato no último quadro, torna-se automático voltar ao primeiro, que agora completado pelo final, entrega outra leitura. Para ficarmos na metáfora da sinuca, é aquela tacada que faz a bola dar dois toques e encaçapa por ricochete.

Porque amo o Dahmer? Porque ele quase nunca me trai. E traição é justamente o grande risco da tira. Ou seja, você é convidado à dança, dá o primeiro passo, se empenha, já expectante dá o segundo passo, prepara-se para o pulo final, mas no terceiro quadro nada é dito que justifique você ter percorrido o caminho até ali. Desapontamento. Se o desapontamento se repetir ou ocorrer com frequência, você desama aquela tira, passa a visitá-la só esporadicamente, ou a abandona de todo.

Gosto da crueldade crítica do Dahmer, da sua economia verbal, do traço essencial. Posso estar equivocada, mas ele começou essa tira desenhando de outro modo, desenhando muito bem. E aí deu uma meia trava e "desaprendeu"a desenhar. Foi quando começou a desenhar melhor.

Tive um professor de gravura, Orlando da Silva, pessoa encantadora a quem muito devo, que a certa altura da vida sentiu seu desenho ficar muito fácil, muito certinho. Então, para fugir da facilidade, começou a desenhar com a mão esquerda. O problema é que não com a mão se desenha, ou não prioritariamente com a mão. Desenha-se com a cabeça. A mão, talentosa ou bem treinada, obedece. De modo que, mesmo usando a esquerda sem ser canhoto, corre-se o perigo dela aprender, e passar a desenhar tão certinha quanto a direita.

Não gosto de tiras narrativas, nem das que prosseguem uma história como se fossem capítulos. A ser assim, vou logo para os quadrinhos. O bom da tira, para mim, é quando ela se completa nos três quadros. Como um miniconto. Ou, se for econômica e exata nas palavras, como um haikai.

A Mulher Ramada - Animação


Somos de uma produtora que faz já há 5 anos uma oficina de cinema com crianças e adolescentes chamada Oficina do Pequeno Cineasta, onde os jovens criam seus roteiros, dirigem e fazem todas as funções envolvidas numa filmagem para terem seus próprios filmes. ​

Dessa Oficina, surgiu no ano passado o convite do Canal Brasil para exibirmos uma seleção de filmes. Decidimos então abrir para que todos os jovens que tivessem seus filmes se inscrevessem para selecionarmos não só do nosso projeto e fossemos mais democráticos abrindo esse espaço tão bacana.

Um dos filmes inscritos e que gostaríamos muito de exibir é uma adaptação do seu conto "A Mulher Ramada". A animação é incrível e foi feita por duas adolescentes de 13 anos do Rio de Janeiro

Aline Barreiros


Crônica de Quinta: Desde os pterosauros



Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 18 de dezembro de 2014




Esta semana, enquanto o assalto à Petrobrás não para de crescer convocando nossa atenção, roubaram o punhal da estátua de João Caetano, diante do teatro do mesmo nome. Foi serrado e desapropriado na madrugada, juntamente com uma bolsa que faz parte do conjunto estatuário. Na notícia do jornal falava-se em "vândalos", acho que "ladrões "seria mais apropriado.

Estátua é bom, porque tem endereço fixo - e é melhor que fiação porque não dá choque. Rouba-se uma vez, espera-se a restauração, e volta-se lá. É a terceira vez, nos últimos dois anos, que levam o punhal do homem. O escultor Edgar Duvivier, que tinha refeito este, se oferece para fazer outro. Sugere-se não quebrar o molde.

O petróleo grosso das delações premiadas, da corrupção ativa e passiva, dos laranjas e das offshores entorna no meu colo, fecho o jornal e vou à feira em busca de laranjas mais honestas.

Passo pelo Chafariz das Saracuras. Era para ele estar seguro no pátio do Convento da Ajuda onde o queriam as freiras que o encomendaram a Meste Valentim. Mas o convento foi demolido, o chafariz foi doado à prefeitura e colocado na Praça General Osório, em Ipanema. Era 1911. Desde então, as quatro saracuras e as quatro tartarugas de bronze do chafariz vão e vêm como se vivas. As saracuras são mais migrantes, não por causa das asas mas porque aquelas patinhas finas as tornam mais fáceis de arrancar. As tartarugas, bem chumbadas na pedra pela barriga, ficam por algum tempo. Às vezes, restauradas, voltam todas. Mas o naipe raramente está completo. Hoje vi uma única tartaruga curtindo solidão.

A prefeitura contabiliza cerca de 40 furtos desses por ano. Arredondando, chegamos a um por semana. O furto dos óculos de Drummond já se tornou tão tradicional quanto as selfies que os turistas tiram com a estátua do poeta. E, não demora, a haste do violão que Tom Jobim carrega no ombro terá o mesmo destino.

O grande larápio diferencia-se do ladrão de galinhas apenas pelas quantias e pelos ternos bem cortados, ma o princípio é o mesmo. E ouvindo ecoar nos meus ouvidos a frase basilar do presidente do Bird ,"A corrupção é endêmica no Brasil", me pergunto se teria essa epidemia começado com o Caiuajara dobrunskii, pterosauro que há 80 milhões de anos habitou nosso país.

Pesquisas recentes nos dizem que 70% dos brasileiros não acreditam que Dilma nada soubesse do que estava acontecendo no seu quintal. Sobram 30% que acreditam, fora a porcentagem - que no momento desconheço e não vou procurar - dos que não sabem.

Ora, Dilma se elegeu com 51,64% dos votos. Podemos acreditar que mais de 20% dos que votaram nela, quando já estava rolando o pós-sal da Petrobrás, votaram acreditando que ela sabia. E votaram assim mesmo. Se na madrugada roubo o punhal de uma estátua, não me cabe indignação - ou devo dizer "repúdio", para ficar no clima? - pelo furto dos dinheiros públicos, e sim admiração.

Não se trata aqui da pessoa Dilma e dos seus bemfeitos, pois sem dúvida os há. Trata-se da situação em que essa pessoa estava inserida naquele momento. Ou devemos crer que olhos e ouvidos daqueles mais de 20% ainda não haviam sido abertos, apesar do noticiário, e eles votaram em um passado conhecido em vez de se inquietar com o passado e presente que estava sendo revelado?