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Aborto, que se quer ignorar

Imagem: Alexandra Levasseur

Em final de novembro de 1992, a socióloga e senadora Eva Blay se preparava para subir à tribuna e defender a liberação legal do aborto até a 12º semana de gestação. Seu argumento mais forte seriam os dados oficiais sobre a ocupação de leitos destinados a ginecologia e obstetrícia nos hospitais da rede do Inamps em todo o país: 60% deles utilizado por mulheres vítimas de complicações causadas por abortos ilegais. Estava certa de poder convencer a platéia conservadora e prevalentemente masculina. Não conseguiu.

Quatro anos mais tarde, uma representação da bancada feminina na Câmara, liderada pela então deputada Marta Suplicy, lutava para priorizar no segundo semestre a votação de projetos que ampliavam as situações em que o aborto poderia ser feito legalmente no país. Mas o direito a aborto por malformação do feto só seria obtido em 2012.

Olho esses dois recortes tirados quase aleatoriamente do meu arquivo, olho, a seu lado sobre a mesa, dois recortes de sexta e sábado passados, relatando as investigações do caso Jandira, e não sei se o que me toma é revolta ou desalento. Essas questões, pelas quais batalhamos tanto nos anos 70 e 80, andam no Brasil a passos de cágado.

Não deixa de ser surpreendente esse atraso, para um país que se quer sempre moderno, de ponta, em que as pessoas adotam as modas que mal acabaram de surgir, e saem correndo para adquirir qualquer nova engenhoca eletrônica. Portugal, que sempre olhamos de cima, que chamamos depreciativamente de " avozinho", há muito aprovou por plebiscito popular a liberação do aborto. E quando foi mesmo que mais de trezentas personalidades femininas da França assinaram o documento "Eu fiz um aborto"? Faz tempo. Mas o apelo teve êxito, e em 1975, alavancada por Simone Veil, Ministra da Saúde, a liberação do aborto foi aprovada. Desde então, o número de abortos vem decaindo progressivamente.

Aqui, porém, nesse nosso país erótico por excelência - não é a imagem que fazemos questão de exportar? - preferimos a hipocrisia.

Calcula-se, modestamente, em 100 mil o número de abortos anuais no Brasil. Tendo em vista, porém, o silêncio imposto pela legislação, podemos pensar em até 1 milhão, ou mais. Só no caso de Jandira, quatro mulheres embarcaram no mesmo carro, com a mesma finalidade. Jandira não voltou. Uma em quatro, a proporção é alta.

Toda vez que é chamada a opinar, a classe médica diz que o aborto precisa ser debatido, não do ponto de vista ideológico, mas como grave questão de saúde pública. E era exatamente o que dizia em 2010 o ministro Temporão:"Aborto é uma questão de saúde pública".

Criminalizar o aborto não é, conforme já se verificou no mundo inteiro, a forma de acabar com ele. A mulher que de fato não quer ter um filho, não o terá, seja quais forem os meios. E se 3 anos de cárcere é a pena que pode pegar pelo aborto, muito mais longa é a pena que lhe tocaria tendo um filho que não quer, ou que não pode ter.

Ao contrário do que apregoam as organizações conservadoras, não se trata de ser contra ou a favor do aborto. Ninguém é a favor, muito menos as mulheres que se vêm compelidas a fazê-lo. A questão é proteger a saúde e a vida daquelas mulheres que, com ou sem direito legal, interromperão sua gravidez.

Antes de desligar o celular, Jandira disse para o ex-marido:"...tô em pânico, ore por mim". Ignorada pela lei dos homens, tentava se socorrer com as orações. Também não foi ouvida.

Crônica de Quinta: Manhã de sábado em Ipanema

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 11 de setembro de 2014



Sábado de manhã, dia de sol, andávamos em Ipanema e, cruzada uma esquina, passamos pelo Chico. Chico é personagem querida do bairro, um livreiro, digamos assim. Expõe seus livros no chão, na exata costura da calçada com alguma edificação, de modo a mantê-los de pé, a capa bem visível. Não são muitos, e são desbaratados como convém a um sebo popular. No chão, deitadas, velhas revistas.

Paramos, conversamos um tanto, pedimos notícias de amigos comuns, relembramos Caio Mourão, o insubstituível joalheiro. Prometi levar-lhe mais livros - promessa que ainda não cumpri, e que ele certamente já esqueceu- e fomos adiante.

Dez passos mais, lá estava Anamaria com suas flores no cabelo e seu sorriso. Anamaria é a "Mulher de Branco", que um documentário feito em 2009 pelo jornalista Chico Canindé, tornou conhecida fora das fronteiras de Ipanema. Aqui, ela sempre foi conhecida de todos, desde os tempos da bossa nova, quando era jovem, bela, e cantava. Depois, vestiu-se durante muitos anos de branco, só de branco, que a partir de certo ponto trocou por cor de rosa, e agora, já faz tempo, por azul. Só azul. Menos nas flores de pano com que enfeita a cabeça. Gosto de parar para falar com ela, saber como vai, trocar dois minutos de carinho. E, já lhe disse mais de uma vez, nunca passo pela sua casa - um apartamento térreo em prédio pequeno e antigo- sem verificar se a luz está acesa ou a janela aberta, jeito ingênuo de verificar se ela está bem. É tão perigosa a rua! E Ana Maria anda o dia inteiro, de uma rua a outra, falando com as muitas pessoas que conhece, com algumas que nem tanto, ou sozinha, vagando no cosmo, olhando o mar.

Estávamos parados falando com ela, e eis que o Chico veio vindo para arrematar o encontro em que algo havia ficado faltando. Sorria cheio de esperteza, segurando uma revista. Era um exemplar da revista Azul.

Sei que existe hoje uma revista Azul, mas não era a que estava na mão de Chico. A que ele segurava foi somente um piscar de olhos editorial. Uma revista criada há mais de dez anos pelo jornalista Cal Gomes, que pretendia falar de Ipanema, e falou, mas numa única edição. O dinheiro só deu para fazer o 1º número. O entusiasmo teria sido suficiente para muitos mais, mas não apareceram anunciantes, e a revista que parecia tão promissora fechou.

Pois era essa a que Chico trazia, um raro exemplar da edição única, que abriu na nossa frente, para mostrar a reportagem em que ele era abundantemente citado. O autor da reportagem era Ezequiel Neves.

Zeca Neves, outra figura de Ipanema, embora importado de Minas. Zeca Neves, o irreverente, amigo íntimo de toda a música popular brasileira, cognominado "O vovô do rock". Produtor de todos os discos do Barão Vermelho, guru e parceiro musical de Cazuza, gabava-se - e era verdade- de ter escrito para a revista "Rolling Stones", e de ter tomado todas as drogas.

O dia havia avançado menos de meia hora, enquanto nós cruzávamos várias décadas. Caio, com os cintilar dos medalhões de prata que todos almejavam, Cal e sua meteórica revista, Zeca, levando no bolso a engenhoca chiquérrima para aspirar cocaína, Cazuza, todos haviam passado ali, na Barão da Torre quase esquina com Farme de Amoedo, como passavam antes a caminho da praia ou do bar. Ficávamos nós, sobreviventes de uma Ipanema que também se foi, e que com nosso bem querer mantínhamos viva naquela manhã de sábado.

O Leitor Manda Lembranças: Bruno Zebendo


Minha nobre Marina, um breve relato. Quando eu estava na sexta-série do ensino fundamental, o que já não sei mais o que vale na nomenclatura escolar atual, me caiu em mãos, por meio de um livro didático, um poema seu "Eu sei, mas não devia". Passou década e meia e essa poema continua na memória...pois quando da produção do meu primeiro disco, ele nasceu em música. Não se tratou exatamente de musicar o poema, o que não seria possível, mas, inspirar-se nele e fazer outra letra. Mas é clara a influência. E, sem demagogia, é a minha letra favorita do disco. Por isso tudo, obrigado!

II Jornada Literária do Vale Histórico


No dia 30 de setembro, a Abertura Oficial, da II Jornada Literária do Vale Histórico, terá Palestra Magna da escritora Marina Colasanti.

"A Magia dos Contos de Fada na Literatura" será o tema.

Local: Teatro São Joaquim, em Lorena, às 19 horas.

A verdadeira história de Alessandra Colasanti


Com tintas fantásticas, a comédia é escrita, dirigida e estrelada por Alessanda Colasanti. Na inusitada história, a atriz desaparece sem deixar rastros, às vésperas de seu aniversário de 40 anos. Entra em cena, então, a detetive Alexandra Cavalcanti (vivida pela própria Alessandra) para, ao lado da assistente Srta. Ramalhete (Flavia Espírito Santo), encontrar a artista sumida (90min). 14 anos.

Endereço:Espaço Sesc - Rua Domingos Ferreira - 160 - - Copacabana
Horário: Quinta a sábado, 19h; domingo, 18h. Até 28 de setembro. Estreia essa sexta (5).


Crônica de Quinta: O gazista e as eleições

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 04 de setembro de 2014


O aquecedor na casa da minha filha enguiçou. Ela chamou seu gazista de confiança, estava ocupado em uma obra, não poderia ir. Chamou outro. O profissional chegou, examinou o aquecedor, fez cara de desalento, e tirou uma peça. É essa, disse. Quanto vai custar?, perguntou a filha. E o homem, compungido, trezentos e trinta, madame....- e vendo a surpresa no rosto dela - é que a peça é cara... só ela são cento e noventa. Minha filha agradeceu, disse que ia pensar, chamaria depois.

Dia seguinte, vem ela almoçar na minha casa, mas antes passa na grande loja de aquecedores aqui perto. Mostra a peça ao vendedor, pede uma nova. Mínima demora, peça nova na mão, o vendedor dá o preço: são sessenta reais. Espanto da filha, o primeiro. Porque logo o homem sugere testar a peça que ela trouxe, para ver se, de fato, está estragada. Testada na frente dela, a peça que o gazista havia querido trocar funciona perfeitamente. Segundo espanto da filha. O vendedor ainda pergunta quanto o gazista queria cobrar e, ao saber a quantia, sibila entre dentes: "safado! "

Conto esse episódio doméstico movida pelos tempos eleitorais. Em quem votará o gazista? E quais serão seus argumentos justificando a escolha?

As campanhas fervem, os debates se sucedem, os candidatos invadem nossas casas nos horários eleitorais . Somos diretamente convocados a participar. E participamos, ah!, se participamos. No taxi, na feira, na sala de espera do médico, na manicure ou na fila do supermercado fala-se de política, esquartejam-se os pretendentes aos diversos postos de comando.

E o argumento que mais tenho ouvido para a escolha de um candidato, não é o seu valor pessoal ou seu partido, muito menos o seu projeto de governo. O que mais está se usando como justificativa é a afirmação - feita com cara de desprezo quando não de nojo- que os outros políticos são "todos corruptos" ou "safados" ou, com mais frequência, "ladrões".

É verdade, há muita corrupção, muita ladroagem, muita safadeza na nossa política. Mas os políticos não foram importados, nem são invasores que se apossaram de Brasília. São brasileiros normais, como todos os brasileiros normais - pressupondo que a normalidade exista - e por eles foram escolhidos.

Com certeza, o gazista da casa da minha filha esbraveja, em casa ou no botequim, contra a ganância dos políticos, embora sendo ele mesmo fiel praticante do furto, na medida que lhe é possível.

E o policial que achaca o motorista, o dono de restaurante que põe uma cerveja a mais na nota, os milhões de cidadãos que escamoteiam dados do Imposto de Renda, os que fazem gatos, os que vendem recibos médicos, os que falsificam carteirinha de estudante, os que aumentam preços de forma abusiva, os que pulam por cima das roletas, todos eles enchem a boca para falar da "pouca vergonha" dos políticos.

Os políticos não são espécie à parte, são parte de nós. Não à toa nos representam. E se há tantos que se deixam corromper, é porque há outros tantos corruptores. E se há muitos que são honestos, sérios, batalhadores, é porque entre nós também há muita gente de bem.

É cômodo queixar-se, criar um império do mal e descarregar nele tudo o que se despreza. Mas ao achar que o panorama eleitoral é uma treva, que ninguém ou quase ninguém ali presta, seria aconselhável dar uma olhada na nossa sociedade, e perguntar-se porque não produz uma classe política da qual possa se orgulhar.

A Moça Tecelã pelas Irmãs Dumond


Bordados : Irmãs Dumond
Ilustrações: Demóstenes Vargas

Crônica de Quinta: Em tempos de poliamor

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 28 de agosto de 2014



Leio nas folhas: os gêneros estão superados, é tempo de poliamor. Tento forjar uma definição: poliamor seria, então, todo tipo de parceria que o desejo sugere e o corpo realiza, não apenas em termos de sexo, mas também em termos de amor.

Pois justamente nesses dias dei de cara com uma história verídica, puro poliamor, que resumo para partilhar com vocês. As personagens são públicas, a história também.

Os irmãos Wachowski vocês conhecem. Larry e Andy. Se no momento não estão juntando os nomes às pessoas, dou uma ajuda: autores e diretores da trilogia "Matrix".

Pois bem, depois de cinco filmes, e de um sexto que entrará em circuito ainda este ano, Larry acabou trocando de sexo, tornou-se Lana, uma gatinha de dreadlocks cor de rosa. Até aí nada de estranho. Mas uma certa surpresa pode nos alcançar ao ler sua declaração ao "New Yorker":" Sei que tem muita gente morrendo de vontade de saber se fiz uma vaginoplastia, mas prefiro guardar essa informação para a minha mulher".

Vamos retroceder. Larry tem 10 anos e Andy 7, quando assistem a "2001, A Odisséia do Espaço", e o pai explica que o monolito negro é um símbolo. "Houve um estalo em mim. - diz agora Larry/Lana- Depois disso nunca mais fui a mesma pessoa". Talvez tenha ocorrido aí a primeira mudança. Os irmãos são inseparáveis, leem juntos, fabulam juntos, juntos mergulham no universo de Tolkien e nas histórias em quadrinhos. Terminados os estudos, partem juntos para Nova Iorque.

E ali são contratados pela Marvel Comics para escrever roteiros para a série "Ectokid", desenhada por Steve Korce. Filho de um fantasma, (!) Ectokid é um herói de 14 anos, que com o olho direito vê o mundo real, e com o esquerdo enxerga um mundo paralelo, cheio de criaturas espantosas, a Ectosfera. O duplo universo de Matrix, e de Larry, começa a se delinear.

Um salto adiante. Os irmãos Wachowski estão acabando de lançar "Matrix Reloaded" quando um certo Jake Miller procura o " Daily Mail" para acusar Larry de ter roubado sua mulher, Ilsa Strix. Jake Miller é, na realidade, uma ex-mulher que se tornou homem. E sua mulher - verdadeiro nome , Karin Winslow - é uma vedete sado-maso, dominatrix loura, flageladora, autora do vídeo "Trans Sex Slave" em que quatro transexuais se entrelaçam, e já indicada ao Oscar de vídeo X. Era ela a acompanhante de Larry na cerimônia de lançamento do filme.

Na véspera, a esposa de Larry - sim, existia uma esposa - Thea Bloom, havia apresentado um pedido legal de divorcio alegando "razões íntimas", acrescidas de razões econômicas, e pedindo que fosse sustada a construção de uma casa de 2,7 milhões de dólares - por esse preço quase modesto podemos crer que fosse mais um ninho de amor que uma mansão - destinada a acolher Larry e Ilsa.

Larry, que ainda não havia se decidido a ser Lana, entra em depressão. Se está vendo o mundo com dois olhos diferentes, nenhum dos dois lhe mostra ainda o que gostaria de ver.

Só em 2009, portanto seis anos depois da acusação de Jake Miller, e quando já havia realizado o último filme da trilogia Matrix, Larry casa-se com Ilse e, apoiado pelos pais e pelo irmão inseparável começa a terapia hormonal que o levará a trocar seu nome de Laurence Wakowski para Laurenca Wakowski, ou Lana.

Hoje, seu irmão Andy declara,"é muito mais fácil trabalhar com Lana, que com Larry".

Foto: Congresso de Leitura do Brasil (Cole)


Crônica de Quinta: Considerações a partir de um limoeiro

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Ilustração: Liekeland

Passei a manhã de faquinha em punho, limpando, raspando, tratando um limoeiro siciliano com cujos frutos faço o melhor limoncello senão de Ipanema, pelo menos da rua Nascimento Silva. O limoeiro cresce na minha casa de montanha cuidada com carinho e devoção por um caseiro excelente. Excelente, porém ligado à sua cultura. Para ele, mais importante que raspar, galho por galho, um arbusto parasitado por mofos, é cortar a grama, cuidar da aparência do jardim. Os ingleses criaram gramados estupendos entregando-os ao apetite dos cavalos. Um grego talvez preferisse cabras. É o jeito de cada um.

Faz muito tempo, quando o melão ainda era uma iguaria rara nas mesas brasileiras, um amigo meu, coronel da aeronáutica envolvido com o episódio de Aragarças (corrida rápida ao google), foi enviado, mais justo dizer degredado, para Belém. Era muito longe, muito isolada Belém, naqueles idos. Mas comia-se melão. Ele, com família, pouca ou quase nenhuma atividade profissional, e com um jardim, pensou logo em fazer uma plantação doméstica de melões. Preparou o solo, comprou as sementes, plantou conforme as instruções, e ficou esperando, já com água na boca. Brotos, plantinhas, proliferar dos ramos tentaculares das plantinhas, rastejar entrelaçado, e, sob as folhas, o surgir dos primeiros frutos pequenos e verdes. Tudo conforme o desejado. Todo dia meu amigo ia controlar o crescimento promissor, o verde cedendo espaço ao amarelo. Mas eis que quando os melões estavam quase maduros começaram, um a um, a apodrecer. Um inseto noturno roía o talo, separando-os da vida. E no entanto, havia melões à venda, produzidos por uma família de japoneses. Meu amigo foi até a plantação dos nipônicos, perguntar como conseguiam a façanha. E eles explicaram: era simples, cada membro da família passava uma noite em claro, lanterna em punho, percorrendo com a luz todos os talos da plantação, e esmagando os insetos roedores.

Antes de tornar-se ator, meu pai teve uma fazenda perto de Angra dos Reis. E ao transferir-se para lá surpreendeu-se vendo que nenhum dos trabalhadores que ali moravam tinha horta ou plantava qualquer coisa para consumo da sua própria família. Comentou comigo: “tem tanto chão, por que não plantam? – e acrescentou – Vai ver, não gostam de verduras”. Ele, porém, como bom italiano, decidiu logo fazer uma horta para si, a fim de comer salada. Não preparou o solo pessoalmente porque não entendia nada disso, mas mandou preparar, comprou as sementes, mandou plantar, e ficou à espera, a boca já salivando. Mal apareceram os primeiros brotos tenros, as formigas se apresentaram para o banquete, devorando tudo. Meu pai não era um homem especialmente determinado, mas gostava de uma boa mesa e era amante de salada. Tentou mais uma vez, as formigas só não bateram palmas porque não fazia parte do seu código de comunicação. Meu pai, então, providenciou pneus velhos que, cortados ao meio e cheios de água, rodeariam as plantinhas que haveriam de crescer de novas sementes. Dessa vez, as formigas não se atreveram a atravessar aquele fosso medieval sem ponte levadiça. As plantinhas cresceram. Meu pai, entusiasmado, plantou também couve. As couves cresceram. E quando tudo estava em ponto de ser comido, foi colhido, na calada da noite, por mãos anônimas e alheias. Os trabalhadores da fazenda gostavam, sim, de verduras. Só não gostavam de plantá-las e de lutar contra as formigas.

Entrevista em Penélope Manda Lembranças


Entrevista especial para o livro de contos "Penélope manda lembranças", publicado pela Editora Ática em 2001.

Crônica de Quinta: Ninguém à Janela

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Ilustração - Santiago Régis

Você está andando na rua. Há uma janela ao alto. Há sempre janelas ao alto se você anda na rua, qualquer rua, de uma cidade. Você não olha para cima. Quase nunca olha, tem uma meta à frente, e pressa. Se olhasse, veria apenas uma fachada de pouco ou nenhum interesse arquitetônico vazada pelos retângulos lisos das janelas. Ninguém debruçado, nenhuma presença humana visível. A fachada e os vidros, só isso.

E no entanto, era bom debruçar-se à janela. Quando o português Antonio Clemente Pinto, Barão de Nova Friburgo, comprou uma casa na Rua do Catete e a demoliu, pretendia fazer uma mansão no centro do enorme terreno que ia até a praia. Chegou a plantar fundações. Mas a esposa exigiu que a nova casa se erguesse logo a partir da calçada, janelas aberta para a vida da cidade. Não podia prever que em 1897 a mansão seria transformada em sede do Governo Federal, e que a partir daí ninguém mais olharia para fora. O lado de dentro havia-se tornado bem mais importante.

Janelas eram mais loquazes que portas. A porta só servia à passagem, a janela, à permanência. As avós, as mulheres que já não tinham serviços domésticos, ali se empoleiravam, algumas com almofada no rebordo. A dona da casa, depois de limpa a cozinha, chegava-se à janela, percorrendo a rua com o mesmo olhar organizador com que havia conferido o louceiro e o fogão. A moça ia à janela pentear o cabelo depois do banho, olhando a chegada da noite como se olhasse no espelho.

Ainda peguei o tempo das venezianas e, enquanto houve venezianas, houve uma espécie de convite. Abriam-se os batentes de manhã, e o próprio gesto levava a uma mínima parada, recepção do novo dia, conferência da ordem estabelecida pela luz. Fechavam-se os batentes à noite, e pela fresta formada antes de girar o trinco, dava-se um último olhar de despedida. Não há mais venezianas, há cortinas. Que não se abrem nem se fecham, estão ali quietas, quase parentes das paredes. Ou se abrem e fecham em lâminas, apenas girando a ponta de uma haste. E ninguém mais se debruça.

A janela foi substituída. Se aquela tradicional perdeu seu papel social – olho da casa aberto sobre a comunidade - , se serve apenas para deixar entrar ar e luz, se a rua parece distante lá embaixo, e se quem passa não se interessa por nós, abrimos outra janela, no quarto ou na sala, cheia de luz e cores, cheia de vida alheia, rica de paisagens, mais igual a si mesma que uma folhinha, mais cheia de ensinamentos que um almanaque, tão disponível quanto o tempo. E sobre ela nos debruçamos encantados, sabendo que nos espiona mas não nos critica.

A televisão tornou-se nossa janela. Se queremos saber que tempo fará à tarde ou amanhã, nada de olhar o céu, farejar o vento ou estudar as nuvens. A “moça do tempo” – sempre uma moça para suavizar as previsões- nos conta tudo o que queremos saber. Se ouvimos um tiroteio na esquina, esperamos que o noticiário do dia seguinte nos diga o que aconteceu – é mais seguro. E nem precisamos aguçar ouvido e olhar para saber o que acontece com os outros, nossa janela nos conta. Quando não conta, é sinal inequívoco de que as personagens não valiam a pena.

Esta semana tivemos noites de super Lua. Saí no terraço, noite alta, para viver o esplendor da sua luz. Olhei os prédios ao redor. Não havia ninguém à janela.