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Apresentação de Remy Gorga Filho para o livro Nada na Manga (1973)


O Sonho de Marina

Eis aqui, diante de mim, o livro de Marina Colasanti. Pronto, acabado, cheirando novo. Um livro sempre é um sonho. Um sonho de quem o escreveu, de quem o inspirou, de quem o editou e, até mesmo, daqueles que só animam imperiosas razões de comércio e indústria. Um livro é sempre como um sonho. Eis, então, aqui, o sonho de Marina Colasanti. E Marina Colasanti deve ser lida. Mas é preciso dizer mais: bom seria que, depois de lida, a gente pudesse conhecer Marina Colasanti, na profundidade do conhecimento que homem e mulher podem ter sem que disso resulte outra coisa que não a estima, a admiração, a amizade. Ler e conhecer. É o que se espera - o que eu espero - do leitor deste livro, daquele que ainda não leu nem conhece essa filha dos desertos de Asmara, brilhante de sóis cariocas, vontade de conhecer Marina Colasanti. Para quem já leu o que ela escreve, fica sempre o gosto de releitura e o sabor da revisita ao mundo ardente e desinibido que ela criou, como a melhor e a mais doce das promessas encerradas nestas páginas. 

Cronista, armada de coragem e ternura segundo Fausto Cunha, mulher livre de preconceitos, crítica severa de costumes e tabus, ela sabe tirar da manga do seu casaco mágico as doses de otimismo e esperança de que tanto necessitam os pobres mortais que, como nós, vivem a dificuldade de viver.

Jornalista a 11 anos, casada com Affonso Romano de Sant'Anna, mãe de duas filhas (Fabiana e Alessandra), nasceu em Asmara, Etiópia, é italiana, naturalizada brasileira. Desde 1948 no Brasil, após nômades andanças ao sabor da Guerra, fez estudos de Belas Artes, iniciou uma carreira como gravadora, com exposições e salões, até que o jornalismo, em 1962, a desviou para o texto, a notícia, a crítica, a crônica e o mundo da ficção. 

Tem um primeiro livro, quase inédito, de 1968: Eu Sozinha. Chega agora a este Nada na Manga após traduzir oito livros (de Morávia, Kosinski, Papini, Kawabata).

Entretanto, esta não é toda a Marina Colasanti que se deve conhecer. Juro que não. A mulher, e qualquer outra consideração de ordem pessoal que o leitor queira melhor conhecer, está devidamente contida (em princípio) no presente livro.

Remy Gorga Filho

Eu Sozinha: Crônica 21


A casa é grande, o jardim, ao redor, imenso. Vi a casa uma vez do alto do Corcovado, e só então percebi quanto era isolada, a mancha negra da mata, mais escura que a noite, vindo desmanchar seus contornos quase a meus pés. Somente no centro, onde eu sabia ser o pátio, uma lâmpada acesa. 

A partir daquela noite, tive sempre, vívida, a noção de mim mesma ao lado da lâmpada, em meio aquele enorme mar de escuridão.

Na casa eu moro com meu irmão, e , às vezes, com meu pai, quando vem da fazenda. O casal de empregados que dorme no andar térreo desaparece tão completamente, logo depois do jantar, que parece partir. Não considero a lavadeira pessoa que more conosco; escura e silenciosa caminha pelos corredores denunciada apenas pelo pano branco da cabeça, e, em tantos anos, nunca a vi no andar superior.

A casa começa, no térreo, pela cozinha imensa, onde o fogão cheio de chaves e cromados é locomotiva doméstica, e as panelas borbulham lentamente na calma da tarde. 

A sala de refeições dos empregados tem muitas cadeiras, já inúteis, ao longo da mesa comprida. Há uma mancha de ferrugem no bojo da pia. O sol que entra pelas janelas sempre abertas se reflete, mortiço, nos espelhos da cristaleira vazia. 

Atrás da portinhola de rede, a despensa é gruta cheia de mistérios; as garrafas mais preciosas da escuridão; há o barulho da água nos tanques da lavanderia, e um cheiro de sol que os lençõis devolvem sob o ferro quente.

No corredor comprido muitas portas, antes quartos de empregados; algumas, fechadas a chave, protegem malas esquecidas; não creio que haja nada guardado no cofre forte ao fundo do corredor, mas a porta de aço mantêm a antiga dignidade.

Há grades em todas as janelas. Todas as janelas tem gerânios floridos.

Para chegar ao primeiro andar sobe-se uma escada interna fechada por uma cancela de madeira. A enorme porta da entrada principal, que na frente da casa, da para este andar, tem o trinco reforçado por uma corrente grossa entre os batentes de vidro e segura por um cadeado: raramente se abrem.

É aqui que eu fico, quase sempre só. Meu irmão passa os dias na rua, meu pai aparece esporadicamente, em vistas breves, os empregados sobem apenas nas horas das refeições e da limpeza. 

A cancela de madeira dá para a copa, a copa se abre sobre o pátio interno. 

Ao centro do pátio, a piscina é verde e escura; parada, se encrespa ao fim da tarde, quando as andorinhas forçam o peito n'água em rápido mergulho. A camada de cima é quente, a de baixo é fria, o fundo coberto de limo. Nos quatro cantos os sapos de bronze não cospem mais água.

A galeria que cobre ao redor da piscina se abre em arcadas: colunas sem elegância encimadas por capitéis pretensiosos recortam o sol e a lua, em sombras, sob o chão de mármore.

De um lado a sala de jantar, do outro os salões, nos dois restantes os quartos. Destes, usam-se o meu e o do meu irmão, ligados por um arco. Quando meu pai vem, abre-se também o quarto dele. Os outros estão, na maioria fechados a chave, fora alguns comunicantes que, sem móveis, se alinham vazios como corredores. 

Na sala de jantar, só vou para as refeições. 

Filtrada pelas venezianas, a luz dos salões dilui minha imagem nos espelhos. Sento nas poltronas, ando descalça sobre os tapetes. Sozinha, participo de grandes festas, danço, canto, sou muito bonita.

Nas tardes de verão, quando tudo parece parado a espera da noite, eu atravesso a casa lentamente. Não abro janelas. Olho nos quartos em penumbra coisas que já conheço. Depois, subo ao terraço. Um pouco intimada por tanto céu, vejo de um lado a lagoa, as ruas, os carros e as pessoas; do outro o interior da casa, a piscina parada, as colunas, o chão e mármore e sinto a vida toda deste lado. 


Sobre a estrutura do livro Eu Sozinha


Quando eu publiquei meu primeiro livro, que foi publicado em 1968, mas foi escrito cinco anos antes - ficou esperando o editor - ele foi recebido como um livro de crônicas. Não era. 

Eu naquela época trabalhava no Jornal do Brasil, era cronista, do Segundo Caderno. E claro que eu não ia querer chegar em casa e repetir aquilo que eu tinha feito na redação, eu fazia crônica na redação e ia chegar em casa e fazer crônica de novo pra mim? Não era isso que eu queria. Eu estava, uma vez que eu já tinha algum retorno como cronista, já tinha alguma micro segurança sobre o meu texto, eu estava a procura de outros caminhos. Caminhos esses dos quais não tinha ideia, eu não sabia nem que caminhos eram, então, tateando, eu criei uma estrutura. Eu não sabia na verdade que eu estava estabelecendo um padrão para o futuro, que eu usaria ao longo de toda a minha carreira. Criei uma estrutura e escolhi um tema. 

A estrutura era muito ousada, e eu também não sabia. Vocês estão vendo que eu era cheia de ignorância e desconhecimentos. E o tema era de uma pretensão espantosa, mas jovem não sabe quando está sendo pretensioso. O tema era a solidão. Eu escolhi esse tema por que era alguma coisa com que eu tinha certa intimidade. E a estrutura que eu criei foi baseada na minha própria vida, não por uma ânsia auto biográfica exibicionista mas porque era a única vida que eu conhecia, que eu achava que conhecia bem, muita intimidade com essa vida que era minha. A estrutura funcionava assim: eu trabalhei com alternância, os capítulos pares eram de momentos de solidão do presente e os capítulos ímpares eram de momentos de solidão do passado, auto biográficos, avançando cronologicamente começando na África onde eu nasci. 

Eu sabia que eu não queria escrever um romance, como não quis escrever até hoje. Eu achava que eu não queria talvez escrever uma história, ou se eu queria escrever uma história, eu queria escrevê-la de forma não linear, de forma não óbvia, porque a linearidade eu já tinha na redação, eu era secretária de texto, eu corrigia textos dos outros o dia inteiro, e o texto de imprensa é por sua própria natureza linear, realista e óbvio. Foi isso que me conduziu a essa estrutura. 

O livro saiu e ninguém percebeu estrutura nenhuma. Zero. Mas eu já tinha achado o meu caminho. Essa conversa de estrutura bastante rigorosa que eu criei, essa moldura auto imposta, porque ninguém estava me obrigando, parece em desacordo com o clima altamente emocionado desse primeiro livro e com imaginário desembestado com que eu ia trabalhar dali pra frente. Mas na verdade eu criei a estrutura porque eu precisava de uma defesa, como um guarda mancebo, aquela coisa ao redor do barco, com aqueles arames, para que o marinheiro possa andar no convés mesmo em tempestade. Eu sentia a necessidade de alguma coisa em que me segurar pra não entornar os sentimentos, entornar as palavras, desbordar. A estrutura me servia para manter o controle sobre aquilo que eu estava escrevendo e que para mim era muito intenso.  

Trecho retirado da conferência: "O navio fantasma atraca na terceira margem do rio" ministrada durante o 19º Congresso de Leitura do Brasil (COLE). 
Veja o vídeo completo AQUI. 

Crônica de Quinta: Medeia vista de frente

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015




Acabo de ler um livro muito interessante que me foi mandado de presente por uma amiga francesa: "Medéia", da escritora alemã Christa Wolf. 

A Medéia que habitava meu imaginário era uma fusão do mito com a personagem de Eurípides, somada ao rosto de Maria Callas intérprete enigmática no filme que Pasolini fez dessa tragédia grega. Era a mulher que por amor ou por ciúme ou por ressentimento, mata os próprios filhos gerados pelo homem que a abandona. Nem sei se lhe agregava o título de feiticeira, mas é provável que não, porque feiticeiras costumam ter uma parcela da minha simpatia. A bem dizer, nunca havia parado para encará-la.

De repente, Christa Wolf me leva a olhá-la de frente. E a mulher que vai se concretizando através do relato de seis vozes diferentes, inclusive a sua própria, tem uma concretude que a extrai da moldura mitológica e a traz para o cotidiano.

Nenhuma das seis vozes dialoga com a outra. Cada voz é solitária e muda, pensamento das seis personagens ao redor das quais se articula esse drama anunciado. Entre passado e presente, cada uma nos dá uma versão da história que a todos eles pertence, porque de todos mudou a vida.

Medeia é bonita, disso nunca duvidamos. E é exótica. Sua terra, a Cólquida (atualmente a Georgia) é vista pelos gregos como bárbara. Ali, Jasão só enfrentou dificuldades, lutas e perigosos encantamentos. Se conseguiu vencê-los e roubar afinal o Velocino de ouro, foi graças aos filtros, aos unguentos e aos conselhos de Medeia. Por isso a leva consigo no Argos para Corinto. Medeia é feiticeira? Assim se deu a entender. Mas não é o que sempre se disse das mulheres que, através dos séculos, conheceram o poder medicinal das plantas e a força de uma sensibilidade aguçada? Quantas daquelas historicamente acusadas de feitiçaria, e mortas por isso, o eram realmente?

Medeia é uma presença diferente em Corinto, os homens a olham com desejo e temor, as mulheres a olham com desprezo e temor. O temor não é um bom sentimento. Se alguém a acusar de alguma coisa, todos os que lhe têm temor a acusarão também. E é fatal que alguém lhe atire a primeira pedra, pois ela caminha como quem tem orgulho.

Jasão, convenhamos, é mais ambicioso que herói, ou talvez o heroísmo seja uma manifestação da ambição. O fato é que ele vai buscar o Velocino porque seu tio Pélias , o rei de Iolco, prometeu entregar-lhe o trono se o trouxesse. Quando Pélias não entrega trono algum, Jasão vai para Corinto, aproximando-se do Rei Creonte. Quer um trono a qualquer preço, e se livrará de Medeia porque Creonte quer lhe dar a filha em casamento para fazê-lo seu sucessor.

Medeia é banida de Corinto. Glaucia, a filha de Creonte morre.

E aí trombamos com algo curioso. O assassinato dos filhos pela própria mãe pode nunca ter acontecido. Alguns narradores contam que ao ser banida de Corinto, Medeia não teve tempo de levar consigo os dois meninos, e os familiares de Creonte, em vingança pela morte de Glaucia, os lapidaram. Essa é também a versão do livro de Christa.

Por que, então, Medeia tornou-se o símbolo do filicidio? Porque Eurípides assim a quis, trágica protagonista da sua peça. Mas a escolha custou-lhe cara; no seu tempo, o dramaturgo foi acusado de ter-se deixado subornar pelos cidadãos de Corinto que não queriam ser retratados no palco como assassinos de crianças.

Marina Colasanti e Ciça Fittipaldi são indicadas ao Hans Christian Andersen 2016

A escritora Marina Colasanti e a ilustradora Ciça Fittipaldi são as indicadas pela FNLIJ para o Prêmio Hans Christian Andersen – IBBY de 2016, considerado o Nobel da Literatura infantil e juvenil. Esta não é a primeira indicação delas. Marina já concorreu ao prêmio em 1994 e Ciça em 1996.
Tês brasileiros já ganharam a medalha: o ilustrador Roger Mello em 2014, a escritora Ana Maria Machado em 2000 e a também escritora Lygia Bonjunga em 1982.



Crônica de Quinta: Eu deveria fazer uma crônica alegre

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Foto: Reprodução/CPTur

Eu deveria fazer uma crônica alegre porque as rosas da Mangueira ganharam orvalho com a chuva. Mas, como dizem os franceses, estou com hematomas na alma.

Fomos informados pelos serviços de inteligência que o filme do EI tingido de sangue foi feito em janeiro ou até dezembro. Mas só agora a fila simétrica de homens, um diante do outro, laranja e preto alternados , caminhou diante dos meus olhos sobre aquela aresta de praia. Só agora vi os homens de laranja ajoelhados à espera. E eu, que na infância tantas vezes fui ao Coliseu, penso que melhores eram os leões, matando cristãos ou o que tivessem pela frente, por fome, sem qualquer escudo ideológico. Os homens de preto falam em religião, apontam a faca numa direção que dizem ser de Roma, e eu não vejo religião alguma, não vejo Roma, vejo somente um embate entre civilização e barbárie, a barbárie em estado puro que acreditávamos vencida definitivamente ao fim da Segunda Guerra. 

Eu deveria fazer uma crônica alegre porque já na semana passada falei de um fato nada risonho, e não se deve pesar sobre o leitor. Mas é ligar a televisão, ou abrir o jornal, para que o sorriso tenha dificuldade em se manter.

No estado de São Paulo, aquele de que dizemos ser o mais civilizado – e certamente o mais rico – do país, um estupro acontece a cada hora. Talvez para colaborar com a estatística, esta semana houve um estupro coletivo. Creio que foram nove homens e rapazes. Mas oito ou nove dá no mesmo, para a vítima qualquer coisa  acima de um é multidão. Pensávamos que estupro coletivo fosse coisa de Índia, coisa de casta, de preconceito. Mas somos parte do Brics e fazemos nossa parte. O que não dizemos é que, em sociedade tão permissiva quanto a nossa, em que sexo se faz em qualquer esquina, o estupro também é barbárie em estado puro. E quando coletivo, pretende ser em honra do deus falo.

Eu deveria fazer uma crônica alegre porque vi um belo documentário francês, sobre o trabalho de conservação ambiental realizado nas Pequenas Antilhas, no Caribe.  Havia um rochedo desabitado em meio ao mar, abrigo de aves marinhas, e cinco câmaras estrategicamente localizadas para registrar sua vida estavam sendo checadas por técnicos/montanhistas. E havia dois guias percorrendo as trilhas nas florestas de Guadalupe para fiscalizar seu bom estado. E havia um catamaran que durante um mês navega de ilha em ilha, com uma tripulação de voluntários registrando a presença de embarcações e a vida marinha. E havia um casal de botânicos que percorre as encostas da sua ilha em busca das plantas silvestres com que produz artesanalmente o índigo blue. 

Mas também vi a notícia do casal de navegadores que, depois de percorrer com seu veleiro, durante 25 anos, as costas do mundo inteiro, teve a infeliz idéia de lançar âncora na baía de São Marcos, em São Luis. Haviam visto fotos do lugar, o mar azul, acharam lindo e resolveram vir. Iriam depois à Amazônia. Não podiam saber que o Maranhão, depredado por seu governo durante tantos anos, tem os piores índices do país. E porque não falavam português, não entenderam os avisos passados por rádio, para que não ancorassem ali, naquela beleza aparente que abriga piratas bárbaros como os da Somália.  

Crônica de Quinta: Os primeiros passos

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015



Aconteceu como vou contar. Parece fato pequeno, não é.

Meio dia, eu de pé na esquina da praça esperando a mudança de sinal.  A mesma praça de Ipanema de que falei na semana passada. Hoje também dia de feira (não é um dado pessoal, faz parte). Vinha do lado oposto um grupo de jovens, seis, talvez, uma moça com eles. Teriam cerca de 15 ou 16 anos. Jeito de quem vem da praia ou para a praia vai, bermudão lá embaixo, peito nu, descalços. Atravessaram antes mesmo que o sinal abrisse. Um deles, na retaguarda.

Ponhamos agora na cena uma bicicleta velha, presa com corrente no poste. E no quidom  da bicicleta, um pano escuro torcido e amarrado.

Eu ainda estou em pé ali ao lado. O garoto passa, vê o pano, talvez pense ser uma camiseta.  Diminui a passada o quanto basta para conferir, apalpa o pano, sacode. Não é camiseta. O jovem desiste, dá dois passos à frente.

Não é camiseta, mas está disponível. O garotão volta. Examina o produto. E começa a desamarrá-lo.

- Isso tem dono! - digo alto para ele. - Não é seu!

O jovem gatuno mal me olha.

- Pára com isso!- insisto.

As pessoas passam indiferentes. Dia de feira, a esquina tem muito movimento.

O gatuno conseguiu desfazer o nó, que estava apertado.

- Isso é roubo ! - exclamo. E repito - É roubo!

O ladrãozinho me olha mal encarado, mas está mais interessado no exame daquilo que conseguiu. É uma canga. 

Ele me dirige algum insulto que intuo mas não ouço, os colegas o estão chamando, ele sai correndo agitando o seu troféu. 

A cena que aqui parece lenta, durou poucos minutos. 

Reparo que havia uma jovem mulher ao meu lado, também esperando para atravessar a rua. 

- Também, o cara deu mole! - comenta agora em tom superior - Larga a canga assim, solta na bicicleta....

Esse tom, vindo de quem tudo viu e nada disse, me toca os nervos.

- Que dizer que as pessoas têm que se comportar como se todo cidadão fosse ladrão?! - respondo - Sinto muito, não concordo.

- A senhora ainda foi se meter... tava se arriscando.

- Prefiro me arriscar, que assistir calada. De tanta gente que passou, ninguém fez nada.

O sinal abriu, avançamos ainda próximas rumo ao outro lado. Ela aponta para a cabine da polícia. 

- E bem na cara da polícia - diz, já se afastando.

Um fato de nada, que não é de nada e que me trava a garganta.

Homens não usam canga. O ladrãozinho roubou, portanto, um objeto que não pode usar. Certamente não espera vender uma canga velha, escura e usada. Roubou, pois, uma coisa que não lhe dará dinheiro. Então, roubou por que? Porque roubar tornou-se um hábito nacional. Porque a canga "estava dando mole" como disse a mulher. Porque era alguma coisa - não importa o que - desassistida, sem proteção de vigilante ou de arame farpado, sem cerca eletrificada, sem cão de guarda feroz, sem alarme. Alguma coisa que se podia tomar de alguém, sem risco. O jovem ladrão testou antes. Tocou a canga na passagem, pronto a correr se fosse necessário. Ainda deu dois passos, nenhuma voz de dono fez-se ouvir, ele voltou. Só o dono reagiria, e por impulso irrefreável. Os outros estão sendo diariamente doutrinados para não ver e não ouvir, para não correr riscos, porque o risco é inútil.

Em dia de semana, aquele rapaz não estava trabalhando, não estava estudando. Estava dando os primeiros passos na sua futura profissão.

Vídeo: O navio fantasma atraca na terceira margem do rio


Marina Colasanti costura com a serpente entre o medo e a sedução, e apresenta a leitura como um processo para atingir o inesperado. Uma busca na diferença para intervalar a escrita e uma doação de si para aproximar-se do outro seriam aspectos do ato de criação que tomam o escritor, fazendo com que o controle da história fique em uma margem do rio, junto a qualquer segurança possível sobre a estrutura ou destino do texto. Fluidez em que o pensamento obriga o autor a navegar à outras margens, margens que ele ainda não sabe onde estão.


Marina Colasanti 19o COLE "O navio fantasma atraca na terceira margem do rio" from Marcus Novaes on Vimeo.

Crônica de Quinta: Aulas de vôo e de vício

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 05 de fevereiro de 2015


Há momentos em que sentimos falta de um amigo que já se foi, porque teríamos uma coisa específica a contar-lhe, uma coisa de que ele gostaria tanto e que, na impossibilidade de comunicação, se torna para nós quase incompleta. Agora, por exemplo, precisaria ligar para Rubem Braga, cujo verde domínio continuo vendo do alto do meu terraço embora sabendo que as pitangueiras não o ocultam mais ao meu olhar. 

Eu telefonaria e diria, Rubem, já sei o que se dá de comer a um filhote de pombo. E mais, aprendi como a mãe lhe ensina a voar.
Rubem, o homem-sabiá, responderia então com sua voz um pouco arrastada, um tanto embolada, contente de ganhar mais um conhecimento ornitológico, mas com aquele seu jeito de não dá-lo a saber. 

O que filhote de pombo come descobri tendo que alimentar um, conforme está contado no meu livro Breve História de um Pequeno amor. Não chega a ser um conhecimento relevante. Mas a aula de vôo acaba de me chegar, como se voando, pela internet. Quem me conta é minha especial amiga Myriam Giambiagi, e transcrevo abaixo sua mensagem ( traduzida, porque ela me escreveu em italiano, nossa língua comum ):

"(....) Não sou Rubem Braga, mas posso te contar alguma coisa dos métodos pedagógicos das mamães pombas, por ter apreciado uma cena preciosa da janela do décimo primeiro andar, na esquina da Prado Junior  com a praia, há alguns anos. Uma pomba voava levando o filhotinho nas costas e de repente se lançava para baixo. O bichinho movia as asinhas do jeito mais sem jeito do mundo, e logo ela o acolhia de novo nas costas e subia novamente, exibindo para nós a sua sabedoria. Fez isso diversas vezes, portanto era evidentemente um sistema. Depois foi embora, sempre levando o filhote nas costas, com um ar de "por hoje chega, amanhã a gente tenta outra vez".

Eis aí porque nunca vemos essa aula. Ela se dá longe dos nossos olhos, em pleno ar, assim como é no chão que as mães humanas ensinam seus filhotes a andar. 

E foi no chão, que esta semana vi outra cena de pombos. Vinha eu já saindo da feira - sim, faço feira toda semana- prestes a cruzar pela barraca de "pastel e suco de cana" que marca sua fronteira numa das esquinas da praça, quando deparei com eles. No espaço livre da calçada , vários pombos disputavam a golpes de bico pedaços de pastel ainda brilhantes de gordura. Era a junk food chegando ao reino animal.

O perigo é que pombo se vicia fácil. Leio no jornal que os princípios da "caixa de Skinner"estão sendo utilizados para aplicar aos humanos os mecanismos do vício.

A caixa foi inventada por Frederic Skinner. Coloca-se dentro dela um pombo. Não há tigelinha de comida. Logo, o pombo descobre que para comer precisa puxar com o bico uma alavanca. Se o sistema for regular, alavanca=comida, o pombo economiza esforços e só a puxa quando está com fome. Se, ao contrário, a comida só aparece eventualmente apesar das puxadas de alavanca, o pombo se sente ameaçado pela possibilidade de fome e, para se garantir, recorre a ela seguidas vezes. Está estabelecida  a compulsão, ou seja, o vício.


Diante disso, não sei o que devo desejar. Que nem sempre haja pedaços de pastel na calçada, levando os penosos ao vício mas protegendo-lhes o estômago. Ou que toda semana os haja, impedindo o vício, mas garantindo a alta de colesterol.

Eu Sozinha: Crônica 9


9

Um dia, as flores entraram em minha vida. Não lembro bem como foi, sei que, antes, só existiam os oleandros. Flores das férias, cresciam por toda parte, na cidadezinha onde passávamos o verão, nas praças, nos jardins, ao longo das ruas, e na estação de trem. Seus galhos lisos e flexíveis pareciam cobertos de couro, pele de bicho, as folhas eram pontas agressivas. Mas as flores, brancas, rosa e vermelhas, desabrochavam em profusão, quase em cachos, e, sob o sol, enchiam o ar de um perfume intenso que ficou sendo para mim, desde então, o cheiro do verão. Quando lançadas do alto, as pétalas distribuídas em hélice faziam girar a flor, e eu ficava horas acocorada sobre a pilastra do portão, jogando os pequenos cataventos no ar, para vê-los descer rodopiando. Eram estas as únicas flores que eu via, as outras me ficaram desapercebidas durante muitos anos, sem que me detivesse para olha-las. 

Morei em apartamentos, em casas com jardim, em sítios. Até que, um dia, vi as azaleias. Foi só porque chamaram minha atenção para elas, mas talvez justamente por causa desse impacto - as azaleias formavam naquele momento blocos enormes sobre o gramado - que eu passei a reparar.

Porque, depois, conheci as glicínias. Desciam de algum lugar, provavelmente uma varanda; apesar de trepadeiras, as glicínias sempre me deram a impressão de que descem ao invés de subir. Eu as via delicadas, com um leve mel - bom de sugar, - nos pistilos e só muito mais tarde, já adulta e vulnerável aos lugares comuns, liguei sua imagem ao Japão. Havia também os lilazes. Estes  não tinham nada de delicado, apesar do aspecto espumejante; os galhinhos secos e duros que prendiam os cachos quebravam num estalo, sem lascas, como ossos, e as folhas luzídias não tinham linfa. 

Surpreendi as violetas no aparecer, quando apenas a folha redonda anunciava, sobre a grama, a próxima mancha de cor. Ajoelhada, o rosto bem próximo, espiei seu botão,e , com as mãos em concha tentei abafar a luz, na esperança de que o miolo dourado brilhasse no escuro, flor-vagalume. Disseram-me que as margaridinhas selvagens enrubeciam de puro recato; sem acreditar nisso, passei, entretanto, a lhes atribuir dores especiais de sensibilidade. O ciclame me assustava, lembrando com seu perfume intenso os lugares úmidos e escuros em que nasce. Sempre liguei à magnólia a ideia de flor carnívora. 

Quando soube  que das flores nasciam os frutos me enchi de espanto diante da primavera. Cada flor uma maçã, cada flor uma pera, e tantas flores que os galhos, quando tudo estivesse pronto, vergariam sob o peso, e não haveria árvore capaz de suportar tal abundância. Desde então, os galhos floridos das árvores frutíferas, postos em jarras, se me afiguram como imperdoável sacrifício. 

E havia o campo. Em meio ao trigo, na trilha estreita feita pela sabedoria antiga de muitos passos, eu parava para olhar. As papoulas eram asas de borboletas, não deviam ser tocadas; se eu lhes soubesse a linguagem, os talos, tentáculos peludos, obedeceriam ao meu chamado. As hastes de trigo protegiam os miosótis. As pétalas douradas dos ranúnculos brilhavam somente pelo lado de dentro, na suprema vaidade de uma alma espelhada. E por vê-los sempre tão próximos, coloquei também na categoria das flores os pequenos pássaros que fazem ninho junto ao chão. 

Sobre a extensão de neve, descobri um dia um "fura-neve". Nunca outra flor me encheu de tanto respeito. 

Não existiam, em minha visão de infância, flores tropicais. Quando cheguei ao Brasil já era crescida demais para, com a surpresa, renovar o encantamento. E imagino, triste, o quanto perdi. 

Crônica número 9 do livro "Eu Sozinha" - página 39 (1968)

 

Lançamento do Projeto Marinando


A partir desse mês de fevereiro a equipe Marina Manda Lembranças inicia o projeto "Marinando". O Marinando será um grupo de leitura composto por amigos e admiradores da obra literária da escritora Marina Colasanti. Além do encontro mensal do grupo de leitura para apreciação das obras, o blog/site Marina Manda Lembranças (www.marinacolasanti.com) irá publicar diversas postagens durante o mês explorando o livro escolhido. E o livro do mês de fevereiro é "Eu Sozinha" (1968). 

Interessados em fazer parte do grupo de leitura, entrar em contato através do e-mail:
 marinamandalembrancas@gmail.com

Em Angra, entre dois tempos

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 29 de janeiro de 2015



Passei o fim de semana em Angra. O passado, como um cavalo, me puxava para um lado. O presente, com seus motores, insistia em levar-me para o outro. Atender ambos exigiu um certo empenho interior. Voltei refrescada de mar por fora, sensibilizada por dentro.

Meu pai teve uma fazenda em Angra dos Reis. Chamava-se Pedra Branca. Isso foi muito antes que existisse a nova estrada. Íamos pela antiga Rio/São Paulo, embicávamos antes de chegar a Barra Mansa, subíamos a serra, vencíamos três pontos culminantes - esses e só esses pavimentados de paralelepípedos - descíamos em Lídice, comprávamos um famoso queijo, e em algum momento chegávamos à fazenda. Nada ao redor. O mar estava a 11 quilômetros.

O mar, neste fim de semana, esteve o tempo todo diante dos meus olhos. O mesmo mar, mas outro. Sempre foi verde e manso o mar na Bahia da Ribeira, sempre se apoiou em silêncio nos costões, refletindo a vegetação. Continua verde e manso, mas o namoro com a costa foi rompido por casas, condomínios, deques e ancoradouros que não param de se multiplicar. E o silêncio foi sequestrado pelas lanchas.

Meu amigo, dono da casa onde estive este fim de semana, acaba de voltar de um congresso nos EUA. Um congresso de modernidade, cheio de robôs e equipamentos eletrônicos, de máquinas e de programas que fazem coisas com mais rapidez e eficácia que os humanos. Falamos disso uma noite, de como os computadores estão mais precisos nos diagnósticos médicos e nas análises laboratoriais do que os médicos, de como em alguns países a lavoura está toda mecanizada. De como esse processo avança veloz.

Com meu pai, íamos à cidade fazer compras de comida, tomar um café ou uma cachaça, ver gente. Que bonita era Angra! Os dois conventos, a rua principal toda de sobrados antigos, daqueles de sacada em ferro batido e abacaxis nas beiradas. Começava o comércio a estragar o conjunto, mas apenas começava. E era bom caminhar até o porto, ver as traineiras ondeando suas cores. Angra guardava seu coração antigo.

Era esse coração que ainda batia no tempo dos campeonatos de Caça Submarina. Parecia então que o Argos havia atracado no porto, a cidade tomada por aqueles homens bonitos e jovens, queimados de sol, por vezes louros. E na pesagem dos peixes, penduravam-se nas correntes os meros imensos como mitológicos monstros marinhos. Meu irmão era um dos argonautas dessa cena, e íamos a Angra em bando, algumas vezes voltando ao Rio de traineira em fim de tarde quase escuro, envoltos nas japonas.

Neste fim de semana não vi nenhuma traineira cruzando o mar com as lanchas. Nenhuma traineira poitada diante dos deques. E no entanto, muitos anos depois dos campeonatos, um casal amigo que tinha uma casa na ilha da Gipóia, ainda preferia usar uma traineirinha para se deslocar até o continente.

Vi, isso sim, uma ilha completamente despida da sua vegetação, recoberta de gramados e canteiros como um jardim francês do século XVIII. Parecia uma bolsa Vuitton na paisagem.

Durante esses dois dias, o passado me puxou de um lado, a modernidade do outro. Meu amigo me contava que caça bois perdidos, em sua fazenda, com um drone conectado a três satélites, câmara ligada diretamente no celular, um raio de alcance aéreo de 300 metros. E olhando o mar à minha frente eu pensava na Angra que conheci quando a estrada ia até Mangaratiba, e de lá se pegava a lancha para chegar à Ilha Grande.