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Crônica de Quinta: Consertando filó

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 28 de abril de 2016 



Saímos do sítio depois do almoço. E pegamos a estradinha de terra. Íamos consertar filó. O sítio era perto de Conselheiro Paulino, mínima cidade que hoje cresceu e mais parece um subúrbio de Friburgo. Naquele sítio, o pai artista da minha amiga plantava palmas. E lá passávamos as férias de verão.

Sobre o pó da estradinha, a tarde escorria mansa feito riacho em seu leito. Poucos pássaros nas árvores, talvez repousassem. Por vezes um cantar. Um ou outro trabalhador cruzou conosco na estradinha, uma ou outra mulher com filho no colo ou pela mão. Trocávamos cumprimentos ao passar. Entre os dentes, levávamos um talo de capim arrancado da beira para ir mastigando no caminho.

Era longo o caminho. Passamos por várias casas antes de chegar. Mas afinal, chegamos. Nosso destino não era uma casa, era um ponto ao ar livre, sob as árvores, rodeado de mato. Nesse ponto, espécie de terreno batido e varrido, Dona Morena ( o nome real não é este, e já se verá porque o troco), conhecida da minha amiga, consertava filó.

A questão do filó era coisa de outros tempos, que sobrevivia quando já usávamos tule sintético. Da Fábrica de Filó, em Friburgo, por descuido ou incompetência das máquinas, o produto saía com falhas que eram detectadas estendendo-se o filó sobre imensas mesas e marcando cada falha com um grosso lápis vermelho. O filó marcado era então metido em sacos e entregue às consertadoras, mulheres do campo que faziam esse serviço para ganhar um dinheirinho extra. O pagamento ínfimo fazia-se por falha consertada.

Todas as tardes, pelo menos no verão, Dona Morena sentava-se num banquinho, o colo coberto pelo filó que espumava ao redor, metros e metros daquele branco quase impalpável rodeando-a e derramando-se sobre o terreiro. Era filó de algodão. E usando uma agulha enfiada com o fio daquele mesmo algodão, ela ia cerzindo, se assim se pode dizer, cada falha.

Não só ela. Como um ninho, o filó abrigava várias crianças de várias idades que, pedindo uma agulha à matriarca, cuidavam a seu modo de remendar filó. Nós também, ao chegar, pedimos um banquinho e uma agulha, pegamos uma ponta qualquer daquela espuma, e começamos a recompor os alvéolos falhados.

Tomava-se café, água de moringa, conversava-se sem pressa de assuntos sem importância. As galinhas ciscavam ao redor, uma gata cuidava da ninhada. O tempo era acolhedor como o filó.

Mas aconteceu que, de repente, outra personagem entrasse naquela cena. Dona Morena então se levantou, sacudiu da saia os fiapos de linha branca, entregou a agulha a uma das crianças, e foi arrastando sandálias até o recém chegado. Era o seu amante. Com a maior naturalidade encaminharam-se os dois para o mato, onde a função do amor se desenrolou protegida pela silenciosa conivência de crianças e adultos. Depois, Dona Morena reassumiu agulha, banquinho, e sua pose de rainha.

Ao escurecer, minha amiga e eu voltamos para o sítio como se regressássemos de uma viagem. 

Não há mais falhas no filó de nylon que sai das máquinas rígido e perfeito como uma rede. As máquinas modernas não ousam errar. Mas esse filó que mais parece de matéria plástica não acolhe ninguém, não ficará na memória de nenhuma criança como a espuma aconchegante que em tardes de verão se espalhava pelo terreiro.

Por duas asas de veludo


Atriz: Daniela Landin

Crônica de quinta: Mais que uma Ilíada

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 21 de abril de 2015

Bruce Gomlevsky assume atuação e direção na peça "Uma Iliada" - Foto


Agaménnon, Aquiles e Ulisses foram os heróis da minha infância. Entretanto, se como adulta tivesse tido a idéia de trazê-los ao palco através de uma única voz narrativa, a teria recusado, considerando-a não só pretensiosa, como demasiado grandiosa para o público da modernidade, demasiado reflexiva para gente cada vez mais distante de Homero, cada vez mais seduzida pela leveza. 

Felizmente, quem teve a idéia não a recusou. A diretora Lisa Peterson e o ator Denis O'Hare condensaram nove anos do cerco de Tróia, e os motivos que o causaram, as rivalidades, os orgulhos feridos e amores que o levaram adiante, além da interferência dos deuses replicando no Olimpo igual rivalidade e orgulhos e amores. 

A peça se chama "Uma Ilíada"e fui vê-la na impecável encenação de Bruce Gomlevsky.

Quando criança, a leitura da Ilíada foi tão impactante que, adiante na vida, não a quis retomar, com medo de estragar aquele encantamento primeiro. Eu havia lido uma adaptação feita para crianças maiores, talvez não tenha entendido tudo o que lia, mas nunca mais esqueci a emoção que aquela narrativa me provocava. Durante os últimos anos na Itália, gregos e aqueus povoaram as conversas e as brincadeiras com meu irmão, e lembro claramente os guerreiros de saiote e elmo que ele desenhava nas beiradas dos cadernos. Com a chegada ao Brasil, a força tropical nos distanciou progressivamente dos que haviam sido nosso heróis.

Fui reencontrá-los no palco do teatro Maison de France, ausentes e presentes na voz do aedo que os cantava. O figurino estranho como uma obra de Bispo do Rosário ajuda a cancelar o tempo. E na escuridão, só um fogo de luz sobre o narrador, a história começa a ser contada.

Quantos ecos desperta o nome de Agamennon! Quando fui a Micenas, já casada, atravessei a Porta do Leão como quem entra em casa que conhece ou que sempre desejou conhecer. E no Museu Arqueológico, diante da máscara mortuária de ouro que lhe foi atribuída no passado, mesmo sabendo que não era dele pois a ciência comprovou sua origem anterior, procurei sensibilizada o rosto de general vitorioso.

Não sei exatamente em que momento da vida resolvi correr o risco de amarrotar o passado. Mas o laço ainda não havia sido desfeito, pois foi em uma viagem à Itália que comprei a versão em prosa da Ilíada, como se ler na mesma língua da primeira leitura diminuísse o perigo. Procedi de forma igual, em outra viagem, com a Odisséia. E não as quis em versos, já que em prosa as conhecia.

Pergunto-me agora, quais terão sido os percursos de Peterson e O'Hare. Não se chega a Homero de sopetão. O percurso de Bruce perguntarei a ele da próxima vez que o encontrar. Na noite em que fui ao teatro e esperei que saísse do camarim, ele estava ainda tão tomado pela concentração, pelo esforço daquela enorme viagem, que mal conseguia articular agradecimentos. Não havia voltado de todo, parte dele continuava às portas de Tróia.

Eu também, tomada pelo seu trabalho, pela força da sua emoção, fiquei por alguns dias entre a beira mar grega e as muralhas troianas. E lamentei que meu irmão não estivesse mais aqui, porque certamente eu o chamaria para almoçar e, finda a comida, ficaríamos os dois falando daquela guerra, como o fazíamos no tempo em que parecia tão próxima quanto a outra, real, que se desenrolava lá fora.

Eu sei mas não devia por Simão Cunha


Intérprete: Simão Cunha

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Resenha de 23 Histórias de um Viajante no blog Papel Papel


Sinopse: Um viajante chega a cavalo às portas de um reino onde um príncipe vive isolado do resto do mundo. Fascinado pelas histórias que o outro lhe traz, o príncipe decide acompanhá-lo na travessia de suas próprias terras. Enquanto avançam, o viajante conta. Narrar é viajar.

Como uma caixa que contém outras caixas, essas histórias se desdobram e se somam na construção de um sentido comum, surpreendentes por sua carga mítica, fascinantes por sua modernidade.

Levado pela linguagem poética de Marina Colasanti, o leitor empreenderá através delas a sua própria viagem.

Leia texto na íntegra no Papel Papel


Crônica de Quinta: Elas nem sabem

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 14 de abril de 2016




Falando ao telefone no meu escritório levantei o olhar, vi que os retratos de Affonso que coabitam na mesma moldura estavam embaralhados, alonguei a mão que não segurava o fone, puxei a moldura para perto, prendi o fone entre a cabeça e o ombro, soltei a parte de trás da moldura, arrumei as fotos, fechei e coloquei no lugar a moldura. Coisa de poucos minutos de que o interlocutor nem se deu conta. Mas suficiente para trazer a tragédia.

Pousando o olhar na superfície branca do tampo da mesa, vi que sem me dar conta, havia esmagado uma minúscula formiga.

Agora as suas três ou quatro companheiras pareciam enlouquecidas, e talvez estivessem loucas de dor ou de espanto. Corriam em todas as direções, desatinadas, indo e voltando e, ora uma ora outra, parava junto àquele cadáver que era para mim apenas uma mínima poeira de formiga, mas que para elas era o corpo morto da companheira. Demoravam-se poucos segundos, talvez debruçadas sobre a outra, talvez cheirando ou tentando reanima-la, como saber, sendo elas tão pequenas?, e recomeçavam aquelas corridinhas.

Pareceu-me estar vendo Guernica, de Picasso, o desespero da guerra, os gritos mudos nas bocas escancaradas, as mãos hirtas, os olhos esbugalhados, os jorros de lágrimas. Estariam esbugalhados os olhos daquelas formigas? 

Definitiva como a morte na guerra é a morte na paz. 

Ajeitando uma moldura que poderia ter continuado do jeito que estava, matei um ser vivo. Um gesto dispensável, um olhar distraído, e eis que a mão se alonga sem saber o que provocará. O tamanho da vítima não diminui a intensidade do fato, teria sido o mesmo se tivesse matado um elefante, apenas me daria mais trabalho remover o corpo, e enfrentaria dificuldades com a sociedade protetora dos animais. Ninguém protege as formigas, ninguém as protege de mim. Toda noite, acabado o jantar, passo um pano molhado sobre a bancada da cozinha. Tenho que fazê-lo, por mínimas normas de higiene. Mas toda noite minha mão traz uma tsunami devastadora para a pequeníssimas formigas que nas migalhas do meu alimento vêm buscar o seu.

Vasta e lisa e branca é a minha mesa de trabalho. Agora, no calor, há sempre alguma formiga que a cruza. Tão extensa para ela, tão inóspita e perigosa como um deserto ou uma superfície de gelo. Pergunto-me o que as atrai, aqui onde não há nada para comer, nenhum fruto, nenhuma brotação, nada. Mas o que sei eu das formigas com quem convivo?

Sei agora que se perturbam com a morte. Talvez vejam, no cadáver da outra, seu próprio destino. É tão fácil reconhecer num cão ou num gato o sofrimento pela morte do companheiro, por que não sofreriam igualmente as formigas?

Não perturbar-se com a morte equivale a não reconhece-la. E desconhecer a morte põe em grave risco a vida.

As formigas que se debruçaram sobre o cadáver daquela que esmaguei, terão que dar a notícia no formigueiro. Em qualquer comunidade, uma baixa conta e tem que ser comunicada. Sabemos que as formigas se comunicam. Mas me pergunto como estas que vi relatarão às outras a perda de uma vida. Dos relatos não constará a moldura, elas nem sabem que fui eu que a matei - uma moldura é como uma avalanche e nunca sabemos que mão a empurrou. Mas eu sei.

Crônica de Quinta: Rimbaud, Verlaine e Esther

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 07 de abril de 2016
Esther é uma menina de 11 anos. Foi transformada em personagem, mas é real e, na vida real conversa com o desenhista Riad Sattouf. É ele quem faz das conversas de Esther uma página de quadrinhos publicada semanalmente em uma revista francesa de alta tiragem. 

Esta semana, enquanto leio na nossa imprensa sobre a maracutaia milionária do suco de laranja destinado à merenda escolar, o multiplicar-se de estupros na Universidade Rural, a ocupação de mais duas escolas, e minha diarista me diz que a filha está sem aulas há mais de um mês, deparo-me, justamente, com uma conversa de Esther sobre educação.

Transcrevo algumas partes. "Agora estamos estudando a vida de Rimbaud e Verlaine (dois poetas que viveram no passado. Rimbaud é bonito e misterioso, escreveu seus primeiros poemas lá pelos 15 anos (4 mais que eu). Verlaine menos bonito (feio mesmo) é careca, e tem ar cruel. Eles se amam de amor (embora os dois sejam homens) mas a professora não insistiu muito nisso (ela não gosta de falar de amor)."

Quadrinho seguinte, a professora pergunta como as crianças qualificariam a relação de Verlaine e Rimbaud. E um menino logo grita "Homossexual, é claro".

E a professora: "Sim, mas antes de mais nada, amorosa, livre, artística e apaixonada". É quando uma menina levanta a mão para dizer que não acha correto falar de homossexuais em sala de aula, e que fica chocada. 

Segue-se uma pequena digressão de Esther explicando que Verlaine era casado, tinha uma filha, um namorado, e que a hesitação entre a esposa e Rimbaud o tornava cruel. 

Um outro aluno se levanta: "Professora, por que temos que falar deles? Não podemos falar de poetas que gostam de mulheres? É sério, eu acho triste ter que sempre falar dos homossexuais", e Esther comenta "Pelo que vejo, a homossexualidade era tão mal vista na época, quanto hoje."

A professora para então de falar no assunto, não sem antes contar do tiro de Verlaine que estraçalhou a mão de Rimbaud, e mandar as crianças decorarem o poema "Ma Boh`eme", de Rimbaud. 

Esther acha o poema difícil. "Não compreendo tudo, mas acho muito bonito...".

Nos últimos dois quadrinhos, Esther conta, a seu modo, que Rimbaud parou de escrever e saiu pelo mundo que nem um vagabundo, que vendeu armas, e que a dor que sentia no joelho era um câncer, pelo que lhe cortaram a perna e morreu. E no quadrinho final, sentada na cama, diz que ela também sente dor no joelho quando levanta a perna, que teve medo, mas que o médico disse "é o crescimento".

O crescimento de Esther se faz aprendendo na escola, aos 11 anos, quem eram Rimbaud e Verlaine, e aprendendo com isso, de ricochete, como um preconceito se mantém ativo através dos séculos. Se faz aprendendo de cor um poema que, embora não compreendido inteiramente, ficará na sua memória para sempre (a ciência afirma que as últimas coisas que se apagam da memória são os poemas e as músicas aprendidas na infância). O crescimento de Esther se faz aprendendo que, como aconteceu com Rimbaud, o crescimento dói.

Os franceses se queixam da educação no país. Imagino que até na Coréia do Sul, que tem altíssimos índices educacionais, haja queixas. Mas não são queixas como as nossas, de falta de limpeza nos banheiros, ausência de porteiros, escolas depredadas, violência contra professores e colegas, greves eternas dos professores, falta de verbas, escolas fechadas por ordem dos traficantes. Esse quadro também é formativo. Embora com outros resultados.

Crônica de Quinta: Ainda na Alemanha

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 31 de março de 2016


Monet


Domingo, em casa da favela junto ao meu prédio, houve festa na laje. A música tocou altíssima das quatro da tarde até as onze da noite. Não era meu repertório favorito. Eu não estava mais na Alemanha.

Na Alemanha, em todas as portas de todos os vagões dos trens em que viajamos, há um sinal recomendando silêncio. Percorrendo-os em busca do vagão restaurante, tinha-se a impressão de estar no palácio da Bela Adormecida. Os viajantes até conversavam, mas baixinho. Há um caso que sempre se conta na minha casa, de um professor amigo do meu marido que, tendo se mudado para a Alemanha e obtido um bom posto na Universidade, em breve desistiu e voltou para o Brasil. Não havia suportado o silêncio.

Silêncio e ordem em toda parte. Sobre esses dois trilhos, o país avança. Pela janela do trem vi muitos povoados, pequenas cidades. Todos semelhantes, a mesma arquitetura, os mesmos tetos inclinados para não reter a neve, o mesmo gabarito de três andares, as mesmas paredes brancas. Não havia nenhum pagode chinês, nenhuma casa com portal de colunas como as mansões de O Vento Levou, nenhuma casa pintada de roxo. Ao contrário dos habitantes da Barra, os alemães gostam de se manter discretamente na tradição. 

É nessas cidadezinhas que os jovens estão morando. De tantas pessoas com quem estive e com quem conversei, quase nenhuma morava em Frankfurt ou Colônia ou Berlim. As grandes cidades são caras e apertadas, melhor viver numa casa confortável, tomar um trem ou um carro de manhã e chegar ao trabalho sem engarrafamento e sem estresse. 

Vi, com surpresa, muitos painéis de captação de energia solar, naqueles telhados. Surpresa, porque o céu esteve nublado durante toda a nossa estadia, condição que se mantinha quase inalterada há cerca de seis meses. Sol, para atuar naquelas placas, só nos próximos meses de primavera e verão, verão e primavera que não são nenhuma brastemp. Ainda assim, eles investem, enquanto nós que temos sol para exportação pouco cuidamos de aproveitar-lhe a força.

Investe-se muito também em energia eólica. Ao longo de toda a nossa viagem passamos por muitos parques eólicos, as hélices girando inverno e verão, noite e dia, esbeltas como garças. Passei também por um antigo moinho de vento que não creio esteja em funcionamento, e pensei com ternura nos tantos serviços gratuitos que o vento tem nos prestado ao longo dos séculos. Que diferença da ameaçadora usina nuclear que cruzou nosso caminho, escura e envolta em fumaça, usina que Merkel está batalhando para extinguir. 

Olhando essa paisagem quase plana, de mansas ondulações, percebe-se que há três opções para a terra alemã: ou é campo, ou é cidade, ou é floresta. Não existe terra abandonada, não há chão cujo dono só aparece no papel. Tudo tem função.

Mas não existem mais, nos campos da Europa, os palheiros de que eu gostava tanto quando criança. Agora as máquinas que cortam as colheitas também recolhem a palha e a transformam em rocambole bem comportado. Os palheiros de antigamente iam sendo consumidos dia a dia, a palha retirada com o forcado ia modificando a silhueta ao longo dos meses, criando aquele perfil de pêra mordida que tanto encantou Monet. Os palheiros abrigavam cheiro e calor de sol. Os rolos forrados de plástico permanecem inalterados no limite dos campos.

Antes de voltar, procurei na enorme Estação de Berlim um grão de poeira para trazer de lembrança. Não encontrei. 

Affonso Manda Lembranças: Alemanha


Retorno ao local do crime (dei aulas em Cologne em 1978). Agora lançamento do livro de Marina (MAIN FREMDER KRIEG - Minha guerra alheia) - onde conta sua vida na Eritréia, Líbia e Roma.


Diante da Catedral de Colônia


Alessandra Manda Lembranças: almoço de páscoa


(27.03.2016) querido diário, hoje, além de aniversário do papai, é também domingo de páscoa. almoçamos e apreciamos os cavalinhos. papai e mamãe acabam de chegar da alemanha, lançamento de livro dela, fabulosa, está concorrendo ao prêmio andersen , tô toda coruja, mas quem imperou nas conversas foi mesmo nosso querido e diferente brasil. 79 anos, acompanhar a vida dos pais é também uma emoção. minha prima voltando pra L.A. deixei minha irmã em casa. achei ela bonita. tarde de outono no rio de janeiro

Marina em Viagem a Alemanha (Fotos)

Ontem, em Mainz, tivemos um evento enternecedor. Cerca de oito crianças, de 5 a 11 anos, haviam preparado uma encenação de A Moça Tecelã. O público era pequeno, de pais, amigos, alguns brasileiros ligados ao CCBF ( Centro de Cultura Brasileiro de Frankfurt), gente amorosa que havia se disposto a sair num domingo frio logo depois do almoço.
Leia crônica na íntegra AQUI 



Crônica de Quinta: Em viagem na Alemanha

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 24 de março de 2016


Mainz - Alemanha

Frankfurt- Na verdade, acabei de deixar Frankfurt. Escrevo em um trem, a caminho de Colônia, onde à noite farei uma leitura para lançamento da edição alemã do meu livro “Minha Guerra Alheia”.

Tenho um sentimento de intimidade com Colônia porque ali morei durante um mês, ao tempo em que Affonso lecionava na universidade . Estou quase emocionada de voltar. Sei que saindo da estação verei a Catedral à minha frente, severa e escura como uma muralha. Havia bandeiras esvoaçantes ao meu tempo, mas os tempos são outros e me preparo para a sua ausência.

Ontem, em Mainz, tivemos um evento enternecedor. Cerca de oito crianças, de 5 a 11 anos, haviam preparado uma encenação de A Moça Tecelã. O público era pequeno, de pais, amigos, alguns brasileiros ligados ao CCBF ( Centro de Cultura Brasileiro de Frankfurt), gente amorosa que havia se disposto a sair num domingo frio logo depois do almoço.

Houve perguntas depois da apresentação. Um artista português disse que quando era menino os contos vinham sempre acompanhados de uma moral, queria saber se meu conto também tinha uma moral. Respondi que meus contos nunca têm uma única moral ou uma única possibilidade de leitura, mas várias, de acordo com quem lê. Liliane, a professora – e agora já minha amiga- que havia preparado as crianças disse que, sendo assim, devíamos perguntar a elas. E o fizemos. Os pequenos não tinham resposta, mas uma menina de 11 anos levantou a mão e disparou: “A moral dessa história é que os homens não são necessários”.

Escrevo e de vez em quando paro e olho para fora. Que tão apaziguante é a paisagem. A natureza tem, neste inverno que está acabando, uma cor que não é marrom nem é esverdeada – embora alguns campos já verdejem- , uma cor que eu faria na palheta misturando roxo e marrom e juntando um mínimo toque de carmim, cor mansa e uniforme que aconchega para o sono e para a lã. Durará só mais alguns dias. Em Frankfurt algumas árvores já estão todas floridas de branco e flagrei minúsculas margaridas despontando nos gramados. A primavera está a caminho nas escuras veias dos galhos.

Comemos bolo e tomamos suco depois da apresentação, uma moça chegou esbaforida trazendo uma caixa de pães de queijo. Ela sempre faz pão de queijo para animar os eventos do CCBF.

Há dois modelos básicos para a presença de mulheres brasileiras na Alemanha. No primeiro, a moça de pais ou avós alemães veio à Alemanha completar os estudos, gostou, encontrou um alemão mais interessante que os demais, gostou dele também, casou e ficou. No segundo, o alemão foi para o Brasil a trabalho ou levado por alguma atividade, conheceu a moça, namoraram, casaram e vieram morar na Alemanha. Em ambos os casos a presença delas aqui se deve ao amor, e o calor desse amor se transmite à rede que tecem entre si, de cumplicidade e origem comum, de saudade, de semelhança e pão de queijo.

Falamos disso reunidas por alguns minutos na grande sala europeia, ao redor da caixa aberta da qual exalava um perfume tão brasileiro. Falamos de homens e mulheres, havia dois homens presentes que sorriam ao se verem desenhados pela fala delas, falamos de homens alemães e mulheres brasileiras, parece que a combinação dá muito certo, bem mais do que aquela, menos comum, de homem brasileiro com mulher alemã. E, a tarde acabando, voltei a Frankfurt levando o buquê de flores de papel crepom que as crianças haviam feito para mim.