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Breve historia de un pequeño amor no programa Sueños de Papel



A edição colombiana de "Breve historia de un pequeño amor", escrito pela Marina Colasanti, Traduzido pela Yolanda Reyes, ilustrado pela Elizabeth Builes e lançado pela Editorial Alfaguara, foi lido no programa Sueños de Papel, na voz de Juana Neira.

Para escutar é só dar play:


Mapas Literários: O Rio em histórias


Mapas literários: o Rio em histórias, autógrafos dia 1• de agosto, na editora Rovelle. Convidamos aos amigos e familiares, não percam! Vai ter muitas histórias e cantorias

O livro conta com uma das crônicas da Marina - "Arpoador, anos 50" - publicada aqui no Marina Manda lembranças no dia 16 de janeiro de 2014.


Fazia quase 60 anos que não estávamos juntos, não assim, todos ou quase, como no passado. Nosso passado comum, que nos reuniu em fim de tarde da semana passada no Clube Marimbás, no Rio, é o Arpoador no início da década de 1950.

Não era, então, uma praia da moda. Espremida junto à pedra e encostada na pequena Praia do Diabo, num fim de rua ocupado por instalações militares, parecia mais isolada e entregue à própria sorte do que qualquer outro trecho da orla. Talvez justamente por isso, por seu ar quase agreste, atraía sobretudo os estrangeiros do Rio, os recém-cariocas vindos logo antes ou depois da Segunda Guerra.

A areia era clara e limpa, o mar era claro e limpo, não havia quiosques ou vendedores ambulantes, o bar mais próximo era praticamente um pé-sujo, e bem distante. E nós éramos jovens, tão jovens e bonitos.

Pegávamos ondas no peito ou com pequenas tábuas – tentei algumas vezes, não me dei bem –, e os mais valentes iam esperá-las lá longe, no pontão. Mais tarde começaria o surfe, do qual meu irmão, Arduino, foi precursor com uma enorme prancha de madeira. 

Em dias de mar manso, arraias surgiam ondulando suas grandes asas, e corríamos até o alto da pedra para vê-las passar acompanhadas por sua própria sombra sobre o fundo de areia. Garoupas cochilavam nas tocas. Um dia, Arduino fisgou um caçonete. A partir do nível da água as pedras eram cobertas por espessa camada de mariscos, que comíamos às vezes, em fins de tarde, cozinhados num latão vazio sobre fogueira improvisada no dorso da rocha. 

Coragem era “dar a volta”, sair nadando da Praia do Arpoador, cruzar o pontão, costear em mar aberto a península – se assim a podemos chamar – e sair entre as ondas na Praia do Diabo. Que emoção intensa estar no fundo azul, entre espumas, o corpo tão insignificante e desprotegido naquela imensidão cintilante de sol, e ao redor só o explodir de ondas e gritos de gaivotas. Dei a volta algumas vezes de dia. Mas houve quem o fizesse em noites de luar.

E inauguramos o biquíni. Traje de praia naquele tempo era maiô Catalina, de lastex e com saiote, coisa de miss. Mas nós não éramos misses, éramos garotas um tanto gringas, com outros gostos, e começamos fazendo nossos próprios maiôs de pano. Primeiro inteiros, lonita Renault. Depois, duas peças, e já parecia uma ousadia. Mas, nas praias da Itália, só havia visto minha mãe usar biquíni. E a mãe da minha amiga de fé usava duas peças no Arpoador, abaixo da cintura. Então, na próxima rodada de maiô, cortamos a calça mais baixa, para mostrar o umbigo. Ficou bonito. Dali para a frente, avançamos em ousadia, e nunca mais usamos maiô inteiro.

Foi também o início da pesca de mergulho e sua era de ouro. Os rapazes pescavam no Arpoador, na Gruta da Imprensa, no navio afundado da Barra, na Laje Santo Antônio. E em Angra, nos campeonatos. Eu mergulhava acompanhando meu irmão, não pescava. E, orgulho supremo, fui a primeira mulher a mergulhar na Laje Santo Antônio, em mar aberto.

Depois, crescemos, cada qual seguiu seu rumo, deixamos de ser jovens e fomos ser profissionais. O grupo que havia sido tão unido nunca mais se juntou. Só se recompôs na semana passada. E durante algumas horas estivemos tão próximos e fomos quase tão jovens como havíamos sido naquela praia que nunca mais foi a mesma.

Marina Colasanti no ABC do Ziraldo



Ziraldo conversa com Marina Colasanti, uma das mais premiadas escritoras brasileiras, autora de livros infantis e juvenis, contos, novelas e ensaios. Formada em Belas Artes, ela conta que ilustra a maioria dos seus livros. Fluente em inglês, francês e italiano, também traduz seus próprios livros para outros idiomas.

Marina fala dos seus livros de conto de fadas, suas histórias infantis, suas poesias e sobre a arte de escrever para criança. Em 2014, a autora ganhou mais dois Prêmios Jabuti, o 7º e 8º da sua carreira, com o livro: 'Breve história de um pequeno amor.'



Crônica de Quinta: Diálogo com a natureza

Marina Manda Lembranças, 23 de julho de 2015

Imagem: Estúdio Ghibli

Desenhado a mão. Bastaria isso para me seduzir. Durante oito anos, cada frame do longa "O conto da princesa Kaguya" foi desenhado a mão no Estúdio Ghibli, dando vida e sentido a personagens inicialmente planas. Um processo tão ligado à antiguidade como a história que conta.

Nessa história, um homem do campo vai ao bosque cortar bambus, e dentro de um bambu encontra uma menina pequena, bem pequena, que cabe na palma da sua mão. É no Japão, mas que tão familiar resulta essa cena. Meu imaginário de infância está cheio de lenhadores que vão ao bosque, de velhinhas que carregam feixes de gravetos, e de meninas mágicas achadas em couves, em flores, em ninhos. A criança achada é um presente geralmente dado a um casal sem filhos, mas traz consigo um destino bem diferente daquele que os pais poderiam lhe dar. Desse destino se fará o conto.

Tudo neste filme dialoga com a natureza. A música que a princesa Kaguya canta e que sabia antes mesmo de saber cantar, fala de insetos, do ruído dos grilos, das aves. E insetos saltam em quadro a qualquer hora deslizam sobre o talo das flores, voam com suas mínimas asas. Leio no livro de Lévi-Strauss, "A outra face da Lua, escritos sobre o Japão", que um neurologista japonês, Tsunoda Tadanobu, demonstrou que os japoneses utilizam o lado esquerdo do cérebro para processar os sons emitidos pelos insetos, ao contrário de todos os outros povos - asiáticos incluídos-, que utilizam o direito. Segundo Tadanobu isso significa que, para eles, as vozes dos insetos não são recebidas como ruídos, mas pertencem à ordem da linguagem articulada. É certamente o que motiva o príncipe Genji, no livro "a História de Genji " que venho lendo lentamente há anos, para mandar buscar insetos em terras distantes a fim de que sejam soltos no seu jardim e ele possa deleitar-se com o canto.

Vi com ternura, desenhada no filme, uma casa igual àquela em que entrei no Museu das Casas, em localidade próxima de Tóquio. É um museu diferente de todos, terreno imenso como uma fazenda mantido com seu aspecto natural, em que surgem casas de diversas épocas, trazidas de diversas partes do Japão. Distantes umas das outras, isoladas em meio ao capim alto e aos arbustos, são completas por dentro, com os utensílios da vida doméstica, as esteiras, as sandálias de palha gastas e os quimonos rústicos metidos numa vara de bambu para secar junto ao fogo. É atravessar o umbral, e ingressar em outro mundo, em outro tempo. 

O filme de Isao Takahata também nos leva para outro mundo. Não apenas aquele em que pequenas princesas são achadas dentro de bambus, mas aquele em que todo um longa metragem é desenhado a mão, desprezando o acabamento edulcorado do computador e mantendo viva a antiga tradição japonesa da caligrafia e das estampas.

Estamos em julho. Na minha montanha é o tempo em que florescem as cerejeiras trazidas do Japão como presente para a prefeitura de Friburgo e multiplicadas ao longo dos anos. O meu caseiro já telefonou, avisando que nas do nosso jardim não há uma única folha, só pétalas. Sei que ao seu redor voam os beija-flores e se agitam besouros e abelhas, enquanto pontos leves e rosados como asas caem para pousar-se no gramado. Devo tomar o carro e subir para, como o príncipe Genji, deitar-me à sombra das cerejeiras em flor e ouvir o canto dos insetos.

Imagem Estúdio Ghibli

Breve História de um Pequeno Amor com belíssimas ilustrações de Elizabeth Builes



"Breve historia de un pequeño amor, un relato sobre el tiempo de crecer " Libro para la colección "nidos para la lectura" dirigido por Yolanda Reyes en la Editorial Alfaguara Colombia escrito por Marina Colasanti.










Ilustrações: Elizabeth Builes

Crônica de Quinta: Uma fuga sem herói

Marina Manda Lembranças, 16 de julho de 2015


Joaquim Archivaldo Guzmán "El Chapo" fugiu da prisão de El Altiplano. Que era de segurança máxima e com este episódio ou deixa de sê-lo ou altera o sentido da expressão, "segurança máxima" passando a significar que quem está lá dentro está maximamente protegido - em Chapo ninguém encostou a mão.

Fugas deste tipo costumam ter um cunho heróico, tanto mais heróico quanto mais arriscadas. Pouco importa que sejam quase sempre praticadas por criminosos. Na hora de por o plano em marcha, o condenado se metamorfoseia no nosso imaginário, passa a ser apenas o ser humano lutando por sua liberdade, o justiceiro solitário enfrentando o mundo. Talvez entre nessa costura um conteúdo simbólico, fugir da prisão significando escapar da inevitabilidade da morte. 

Grande foi o meu entusiasmo, na infância, pela fuga de Edmond Dantes, o herói de "O Conde de Monte Cristo". O Chateau d' If, de onde ele se evade de forma espetacular, era a versão século dezenove de uma prisão de segurança máxima, era a Alcatraz do seu tempo. Tenho guardada em algum canto a foto que meu pai fez de mim em Marseille, diante do cartaz que, no caís do porto, anuncia os horários dos barcos para a ilha de If. Eu já tinha 19 anos, mas não quis ir, preferi guardar na lembrança a prisão imaginada, em vez de substituí-la pela realidade turística. 

Nada de suportes logísticos, equipe de engenharia, estruturas modernas, nada de túneis para Dantes. Quando seu companheiro de cela, o abade Faria, morre, Edmond troca de roupa com ele, se deita em seu lugar e fazendo-se de morto se deixa trancar em um saco e atirar ao mar. O saco era bem amarrado, se não me engano havia um peso, o mar espumava ao redor dos rochedos. Finalmente livre depois de 14 anos, Edmond emerge como um Poseidon.

Agora os tempos são outros. Escavar o chão da cela com a colher que se surrupiou no jantar tornou-se coisa para ladrão de galinhas. El Chapo é um profissional do mais alto nível, um especialista em túneis . Já fez 62 atravessando a fronteira dos Estados Unidos, além de uma verdadeira rede interlingando as dezenas de casas em que vivia, e há anos contratou uma equipe internacional para cuidar disso. Calcula-se que o túnel por onde agora escapou tenha sido escavado durante um ano, em absoluto silêncio, com acabamento de primeira e meio de transporte interno, quase uma sala Vip. Nem ele abandonou a área dos chuveiros através de um buraco. A foto da procuradora-geral Arely Gómez examinando o local deixa claro que se trata uma abertura retangular perfeita e ampla, para que ele não tivesse que se espremer ou sequer se sujar.

O único esforço pessoal exigindo do escapante foi a descida da escada de 10 metros. Abaixo, a moto o recolheu, e ele foi levado por baixo da terra até o barracão da casa longínqua onde um banho o esperava, e duas mudas de roupa estavam à disposição, para sua escolha. Os guardas do presídio, benévolos, só desconfiaram da sua demora na área do chuveiro três horas depois dele ter pisado no primeiro degrau da escada. No barracão houve ainda tempo para uma água de colônia. A champagne ficaria para depois.

Nenhum herói nessa fuga. O herói foi substituído pelo CEO ao comando da grande organização, onde se espera que tudo funcione de maneira mais que perfeita, para obter perfeitíssimos resultados. El Chapo não sujou as mãos e nem mesmo os sapatos. Deu as ordens e esperou que fossem cumpridas. O erro era hipótese não admitida.

Marina no Programa Opinião Minas (vídeo)


Esta edição do Opinião Minas exibe a entrevista com a escritora e jornalista ítalo-brasileira Marina Colasanti, gravada na Academia Mineira de Letras, dentro do projeto O Autor na Academia.


Crônica de Quinta: Uma e outra tribo

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 9 de julho de 2015

Foto: João Caldas

Fui ao teatro. Coisa boa é prepara-se para assistir a uma peça de qualidade e não ser desapontado. Boa e rara. Era a estréia de “Tribos”, da inglesa Nina Raine, que há dois anos gira não apenas Brasil afora mas também em Portugal, e só agora chega ao Rio.

O público ri, como disse Antonio Fagundes em entrevista “dá boas gargalhadas”. A intenção é essa, trata-se de uma “comédia perversa”. Eu não consegui dar um sorriso. Não por falha dos atores, Fagundes e Bruno à frente, nem da excelente direção de Ulysses Cruz. Sentia claramente que algumas frases, algumas situações queriam me levar ao riso, mas o que havia por trás das palavras o impedia, era pura tragédia.

Muitos já sabem qual a estrutura da peça, não estou incorrendo em spoiler. Temos uma família disfuncional vivendo sua cotidiana disfunção em várias cenas. Um pai autocentrado e autoritário que se quer intelectual e está aprendendo chinês, uma mãe medianamente submissa que está escrevendo um livro medíocre, uma filha quase da mesma idade da mãe que se ilude de ser cantora cantando na igreja, um filho esquizofrênico que ouve vozes, e um filho surdo que não ouve nada. 

Os filhos não saem de casa, embora o pai viva repetindo o quanto gostaria que se fossem. Todos se agridem em voz alta, esquecidos da surdez de Billy. Ele não ouve mas lê os lábios, a linguagem dos sinais não lhe foi ensinada em família , para que - justamente - ele não pertencesse a outra tribo.

Tudo muda quando Billy conhece e se apaixona por uma moça surda que lhe ensina esse meio de comunicação.

É uma peça sobre nossa surdez coletiva, a incomunicabilidade gerada pela incapacidade de prestar atenção, de “ouvir” o outro. Um tema ótimo, muito atual, que a todos diz respeito.

Mas os ficcionistas têm um defeito, ouvem uma história e logo deslizam, acrescentam, modificam, começam a construir sua própria história. E eu me vi saindo do teatro, caraminholando com o que eu faria com aquela família disfuncional.

Eu a levaria pelo mesmo caminho até Billy se apaixonar e sair de casa. Mas usaria a surdez de Billy apenas como pretexto para escancarar o funcionamento daquela família que, só aparentemente, não funciona.

Billy sai de casa, e isso não agrava somente a esquizofrenia do irmão maior que precisa da deficiência dele para equilibrar a sua. A saída de um dos elementos desmonta a estrutura do todo, pois ali cada peça se encaixa na outra com a precisão de um quebra-cabeça. O pai precisa dos filhos incompetentes e da mulher submissa, para exercer sua prepotência. A mãe precisa da filha que não consegue levar adiante seu canto, para escorar sua falta de talento como escritora. O irmão mais velho precisa da voz sempre excessiva do pai, como contraponto às vozes que ouve na cabeça. Todos precisam da submissão carinhosa e protetora da mãe. E os três irmãos podem se agredir sem risco, jogando um no outro sua própria frustração, num pingue pongue que praticam desde a infância e que os liga.

A saída de Billy levaria ao desmoronamento da família, e ele acabaria voltando, não apenas por amor, mas atraído por aquele grupo humano que só se articula em conjunto, formando um todo.

O defeito do ficcionista, que “reescreve” o trabalho alheio, tem também uma vantagem. Eu cheguei em casa tendo assistido não uma, mas duas peças: uma sobre a “surdez” social e a incomunicabilidade, outra, oposta, sobre a comunicação secreta que liga, como uma amálgama, as pessoas de uma mesma família.

Marina no Festival Literário Internacional de Belo Horizonte (FLIBH)


A primeira edição do Festival Literário Internacional de Belo Horizonte lembra a literatura hispanoamericana e homenageia um dos maiores escritores da língua espanhola, Miguel de Cervantes. A mesa “Quixote, além dos moinhos”, aconteceu no Teatro Francisco Nunes e discutiu a obra “Dom Quixote”.

Participaram da mesa o escritor gaúcho Ernani Ssó e a escritora Marina Colasanti. Eles falaram sobre as interpretações e as cenas da narrativa do espanhol. Tanto Ssó quanto Colasanti traduziram a obra de Cervantes para o português. A mediadora da conversa foi Cristina Agostinho.







Crônica de Quinta: Um encontro na penumbra

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 2 de julho de 2015 



As flores estavam ali e eu não as olhava. Não as havia olhado sequer ao entrar naquele restaurante de hotel, suspenso sobre a cidade vazia e iluminada em noite de domingo.

Percorri cuidadosamente o cardápio, escolhi o vinho que considerava merecido depois de uma jornada de trabalho. Em seguida me voltei para a paisagem, apaziguada por aquelas ruas sem carros, prenúncio de sono urbano. 

As flores não olhei, porque acreditei fossem falsas e não se digna de um olhar aquilo que tenta nos levar ao engano.

E logo a taça de vinho chegou antecedendo a comida. Procurei na bolsa algo para ler ou escrever, bebi um gole, serena com a minha solidão. A bem da verdade, aquele vasinho de porcelana branca que eu intuía pançudo e obediente sob as folhas pontualmente arranjadas, me incomodava. Estava próximo demais da minha mão, era demasiado invasivo para um objeto que eu não havia solicitado. Quase me empatava.

Foi então, só porque desejava afastá-lo, que levantei o olhar.

Sob o meu olhar, tudo permaneceu ordenado e imóvel, a porcelana e o pequeno buquê. Ou, pelo menos, assim me pareceu por um instante. Um instante só. Depois reparei, ainda distraída, que entre as belas folhas luzidias havia uma desgastada na beira, e outra, quase escondida, que dobrava sobre si mesma a ponta seca. 

Como a incrédula que era, como a cega que havia sido até então, estendi a mão envergonhando-me do gesto, e as toquei.

Estavam vivas.

Nada havia de parado acima do vaso. Entre o escuro das folhas, as frésias amarelas, tão perfeitas que eu as havia considerado falsas, luziam na penumbra, oferecendo o escuro segredo de seu miolo. E as pétalas emitiam uma vibração que não me atrevi a alisar, talvez cromática, talvez de última vida. No ventre da porcelana, os talos sorviam lentos. 

Senti a comoção tomar-me a garganta como se tivesse entrado em um bosque. E já o garçom chegava com a sopeira.

Naquela sala de jantar anódina e penumbrosa, um encontro havia estado à minha espera, uma doação. E eu quase o havia perdido. Minha alma, em defesa contra tanto plástico, tantas imitações, tantas flores chinesas, tanta gota de orvalho eternizada, tantas pétalas falsas cobertas de poeira, tantos pistilos rígidos como antenas de insetos, tanta mistificação aceita e convencionada, havia trancado o olhar, imobilizado a percepção.

Mais terrível é o engodo quanto mais mimética a imitação, aquela produzida por máquinas robóticas, que só na inserção das folhas revela a sua verdadeira natureza, e que tenta se sobrepor à nossa sensibilidade. Muito outra é a graça das flores de papel crepom com seus talos de arame. Sinceras e modestas, não insultam ninguém, não pretendem o engano. Brincam apenas de ser flores ou metáfora de flores, e enfeitam. 

Tomei meu vinho, com um olho posto nas frésias, brinde ou cumplicidade. E enquanto estive ali, seu esforço de sobrevivência não foi em vão, nem se perdeu no escuro a vibração das pétalas.

Saí pensando nelas e me perguntando, sem esperar resposta, porque tornou-se tão comum colocar flores falsas em mesas de restaurante, se só as verdadeiras nos nutrem.

Crônica de Quinta: Ladrões modestos e nem tanto

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 25 de junho de 2015


Taça importada frequentemente furtada do restaurante Comedoria, no Leblon - Guilherme leporace / Agência O Globo


O bar elegante importou 300 taças de vidro gravadas como as antigas taças medievais, para agradar os clientes e dar mais grandeza às caipirinhas. De fato, os clientes se sentiram muito agradados. Tanto, que ao longo de seis meses se apoderaram, uma a uma, de 277 delas, lembrancinhas discretamente desviadas para dentro de bolsas ou mochilas. Devemos crer que os clientes consideraram o preço da taça, ou do sumiço da taça, já embutido na conta? Não, não devemos. 

No bistrô requintado, com pátio, jardim e excelente café expresso, as xicrinhas são especialmente graciosas, de cerâmica. Ou melhor, eram, porque depois de verem sumir dez xícaras em três meses, os proprietários puseram em uso xícaras mais correntes. Podemos crer que a beleza das xícaras levou os clientes a pensar que fossem um presente? Não, não podemos. 

Podemos, isso sim, nos perguntar para que serve uma única taça ou uma xicrinha desparelhada, em casas onde há abundância de taças e xicrinhas. E chegaremos à resposta inevitável: mais do que para tomar um vinho solitário ou um cafezinho em pé na cozinha, o furto serve a si mesmo, ao prazer de apropriar-se do que não nos pertence, sem que a apropriação indébita seja percebida ou, muito menos, castigada. Uma espécie de ressurgir do primitivo instinto da caça. 

Na década de 90, a artista paulista Jac Leirner expôs uma obra composta por 100 cinzeiros de avião roubados, ligados por uma corrente. Chamava-se "Corpus Delicti", algo tipo matar a cobra e mostrar o pau. Tenho amigo que desenvolveu uma técnica para colecionar toalhas de hotel. Um tio meu que viajava bastante, ao passar pelo carrinho da arrumadeira ocupada em arrumar algum quarto, surrupiava punhados de sabonetinhos. E lembro que quando jovens adolescentes, nos dias em que por alguma falta de professor não tínhamos aula, o programa dos meninos era sair do colégio, em Laranjeiras e ir até Botafogo, roubar na Sears. Roubar, assim, genérico. 

O prazer nasce de vários ninhos- porque prazer certamente há. Pode ser a sensação de independência criada pela transgressão: não me submeto às regras, portanto sou um ser livre. Pode ser o sentido de superioridade: roubei o que era deles e eles nem perceberam, são uns otários e eu, o esperto. Ou de poder: posso me apropriar do que quiser. Ou a alegria de incorporar ao próprio cotidiano um objeto novo, sem ter que pagar por ele. Ou a satisfação por um passe de mágica: passei a mão, botei no bolso, tudo invisível. Mas me recuso a aceitar que a impunidade possa ser um prazer. 

No Japão não se roubam xicrinhas de cerâmica nos bares. Será que os japoneses não gostam de prazer? Ou os prazeres dos japoneses são diferentes dos nossos? Naquele país estranho, cumprir o próprio dever e obedecer à lei é um prazer comum a todos. 

Uma xicrinha hoje, uma taça amanhã, um cinzeirinho no fim de semana, onde o limite? E como colocar limite em algo que, em sua origem, não é considerado degradante? Quais são os parâmetros que permitem chamar alguém de ladrão? 

Parece que só através de juízes, de inquéritos, de delações premiadas, de computadores recolhidos pela polícia. Nas suas próprias famílias, nos seus círculos sociais e profissionais, o grande ladrão é tão respeitado quanto os modestos ladrões de taças e xicrinhas. E talvez não haja mesmo diferença. 

Marina no Festival Literário Internacional de Belo Horizonte (FLI-BH)





Mesa: Quixote além dos moinhos, com Ernani Ssó, Marina Colasanti e Cristina Agostinho.
Local: Teatro Francisco Nunes 
Data: 28 de junho de 2015 
Horário: 13h30 às 15h 

Detalhes:

Ernani Ssó (Porto Alegre) 
É jornalista, pesquisador da cultura popular, tradutor e escritor. Publicou, dentre outros, Como o diabo gosta (Editora CosacNaify), Contos de morte morrida (com Marilda Castanha, Editora Companhia das Letrinhas), No escuro – sete histórias tenebrosas de bruxa (com Eloar Guazzelli, Editora Edelbra).

Marina Colasanti (Rio de Janeiro) 
É escritora, ilustradora e tradutora. Publicou, dentre outros, Breve história de um pequeno amor (com Rebeca Luciani, Editora FTD), Como uma carta de amor (Editora Global), Contos de amor rasgados (Editora Record) e Como se fizesse um cavalo (Editora Pulo do Gato).

Mediadora: Cristina Agostinho (Belo Horizonte) 
É escritora. Publicou, dentre outros, os livros Pai sem terno e gravata (Editora Moderna), Rapunzel e o Quibungo (com Ronaldo Simões Coelho e Walter Lara, Editora Mazza) e Luz Del Fuego, a bailarina do povo (Editora Best Seller).