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Crônica de Quinta: Um encontro na penumbra

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 2 de julho de 2015 



As flores estavam ali e eu não as olhava. Não as havia olhado sequer ao entrar naquele restaurante de hotel, suspenso sobre a cidade vazia e iluminada em noite de domingo.

Percorri cuidadosamente o cardápio, escolhi o vinho que considerava merecido depois de uma jornada de trabalho. Em seguida me voltei para a paisagem, apaziguada por aquelas ruas sem carros, prenúncio de sono urbano. 

As flores não olhei, porque acreditei fossem falsas e não se digna de um olhar aquilo que tenta nos levar ao engano.

E logo a taça de vinho chegou antecedendo a comida. Procurei na bolsa algo para ler ou escrever, bebi um gole, serena com a minha solidão. A bem da verdade, aquele vasinho de porcelana branca que eu intuía pançudo e obediente sob as folhas pontualmente arranjadas, me incomodava. Estava próximo demais da minha mão, era demasiado invasivo para um objeto que eu não havia solicitado. Quase me empatava.

Foi então, só porque desejava afastá-lo, que levantei o olhar.

Sob o meu olhar, tudo permaneceu ordenado e imóvel, a porcelana e o pequeno buquê. Ou, pelo menos, assim me pareceu por um instante. Um instante só. Depois reparei, ainda distraída, que entre as belas folhas luzidias havia uma desgastada na beira, e outra, quase escondida, que dobrava sobre si mesma a ponta seca. 

Como a incrédula que era, como a cega que havia sido até então, estendi a mão envergonhando-me do gesto, e as toquei.

Estavam vivas.

Nada havia de parado acima do vaso. Entre o escuro das folhas, as frésias amarelas, tão perfeitas que eu as havia considerado falsas, luziam na penumbra, oferecendo o escuro segredo de seu miolo. E as pétalas emitiam uma vibração que não me atrevi a alisar, talvez cromática, talvez de última vida. No ventre da porcelana, os talos sorviam lentos. 

Senti a comoção tomar-me a garganta como se tivesse entrado em um bosque. E já o garçom chegava com a sopeira.

Naquela sala de jantar anódina e penumbrosa, um encontro havia estado à minha espera, uma doação. E eu quase o havia perdido. Minha alma, em defesa contra tanto plástico, tantas imitações, tantas flores chinesas, tanta gota de orvalho eternizada, tantas pétalas falsas cobertas de poeira, tantos pistilos rígidos como antenas de insetos, tanta mistificação aceita e convencionada, havia trancado o olhar, imobilizado a percepção.

Mais terrível é o engodo quanto mais mimética a imitação, aquela produzida por máquinas robóticas, que só na inserção das folhas revela a sua verdadeira natureza, e que tenta se sobrepor à nossa sensibilidade. Muito outra é a graça das flores de papel crepom com seus talos de arame. Sinceras e modestas, não insultam ninguém, não pretendem o engano. Brincam apenas de ser flores ou metáfora de flores, e enfeitam. 

Tomei meu vinho, com um olho posto nas frésias, brinde ou cumplicidade. E enquanto estive ali, seu esforço de sobrevivência não foi em vão, nem se perdeu no escuro a vibração das pétalas.

Saí pensando nelas e me perguntando, sem esperar resposta, porque tornou-se tão comum colocar flores falsas em mesas de restaurante, se só as verdadeiras nos nutrem.

Crônica de Quinta: Ladrões modestos e nem tanto

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 25 de junho de 2015


Taça importada frequentemente furtada do restaurante Comedoria, no Leblon - Guilherme leporace / Agência O Globo


O bar elegante importou 300 taças de vidro gravadas como as antigas taças medievais, para agradar os clientes e dar mais grandeza às caipirinhas. De fato, os clientes se sentiram muito agradados. Tanto, que ao longo de seis meses se apoderaram, uma a uma, de 277 delas, lembrancinhas discretamente desviadas para dentro de bolsas ou mochilas. Devemos crer que os clientes consideraram o preço da taça, ou do sumiço da taça, já embutido na conta? Não, não devemos. 

No bistrô requintado, com pátio, jardim e excelente café expresso, as xicrinhas são especialmente graciosas, de cerâmica. Ou melhor, eram, porque depois de verem sumir dez xícaras em três meses, os proprietários puseram em uso xícaras mais correntes. Podemos crer que a beleza das xícaras levou os clientes a pensar que fossem um presente? Não, não podemos. 

Podemos, isso sim, nos perguntar para que serve uma única taça ou uma xicrinha desparelhada, em casas onde há abundância de taças e xicrinhas. E chegaremos à resposta inevitável: mais do que para tomar um vinho solitário ou um cafezinho em pé na cozinha, o furto serve a si mesmo, ao prazer de apropriar-se do que não nos pertence, sem que a apropriação indébita seja percebida ou, muito menos, castigada. Uma espécie de ressurgir do primitivo instinto da caça. 

Na década de 90, a artista paulista Jac Leirner expôs uma obra composta por 100 cinzeiros de avião roubados, ligados por uma corrente. Chamava-se "Corpus Delicti", algo tipo matar a cobra e mostrar o pau. Tenho amigo que desenvolveu uma técnica para colecionar toalhas de hotel. Um tio meu que viajava bastante, ao passar pelo carrinho da arrumadeira ocupada em arrumar algum quarto, surrupiava punhados de sabonetinhos. E lembro que quando jovens adolescentes, nos dias em que por alguma falta de professor não tínhamos aula, o programa dos meninos era sair do colégio, em Laranjeiras e ir até Botafogo, roubar na Sears. Roubar, assim, genérico. 

O prazer nasce de vários ninhos- porque prazer certamente há. Pode ser a sensação de independência criada pela transgressão: não me submeto às regras, portanto sou um ser livre. Pode ser o sentido de superioridade: roubei o que era deles e eles nem perceberam, são uns otários e eu, o esperto. Ou de poder: posso me apropriar do que quiser. Ou a alegria de incorporar ao próprio cotidiano um objeto novo, sem ter que pagar por ele. Ou a satisfação por um passe de mágica: passei a mão, botei no bolso, tudo invisível. Mas me recuso a aceitar que a impunidade possa ser um prazer. 

No Japão não se roubam xicrinhas de cerâmica nos bares. Será que os japoneses não gostam de prazer? Ou os prazeres dos japoneses são diferentes dos nossos? Naquele país estranho, cumprir o próprio dever e obedecer à lei é um prazer comum a todos. 

Uma xicrinha hoje, uma taça amanhã, um cinzeirinho no fim de semana, onde o limite? E como colocar limite em algo que, em sua origem, não é considerado degradante? Quais são os parâmetros que permitem chamar alguém de ladrão? 

Parece que só através de juízes, de inquéritos, de delações premiadas, de computadores recolhidos pela polícia. Nas suas próprias famílias, nos seus círculos sociais e profissionais, o grande ladrão é tão respeitado quanto os modestos ladrões de taças e xicrinhas. E talvez não haja mesmo diferença. 

Marina no Festival Literário Internacional de Belo Horizonte (FLI-BH)





Mesa: Quixote além dos moinhos, com Ernani Ssó, Marina Colasanti e Cristina Agostinho.
Local: Teatro Francisco Nunes 
Data: 28 de junho de 2015 
Horário: 13h30 às 15h 

Detalhes:

Ernani Ssó (Porto Alegre) 
É jornalista, pesquisador da cultura popular, tradutor e escritor. Publicou, dentre outros, Como o diabo gosta (Editora CosacNaify), Contos de morte morrida (com Marilda Castanha, Editora Companhia das Letrinhas), No escuro – sete histórias tenebrosas de bruxa (com Eloar Guazzelli, Editora Edelbra).

Marina Colasanti (Rio de Janeiro) 
É escritora, ilustradora e tradutora. Publicou, dentre outros, Breve história de um pequeno amor (com Rebeca Luciani, Editora FTD), Como uma carta de amor (Editora Global), Contos de amor rasgados (Editora Record) e Como se fizesse um cavalo (Editora Pulo do Gato).

Mediadora: Cristina Agostinho (Belo Horizonte) 
É escritora. Publicou, dentre outros, os livros Pai sem terno e gravata (Editora Moderna), Rapunzel e o Quibungo (com Ronaldo Simões Coelho e Walter Lara, Editora Mazza) e Luz Del Fuego, a bailarina do povo (Editora Best Seller).

Fotos: Marina na Academia Mineira de Letras

Algumas fotos da participação de Marina Colasanti no projeto Autor na Academia, uma parceira entre Fiat e Academia Mineira de Letras.









Nesta foto, a equipe do Marina Manda Lembranças.
Marina Colasanti entre Rafael Mussolini (esquerda) e Santiago Régis (direita)

Entrevista para o programa Quarta Capa (TV PUC Minas)


Esta Edição do Quarta Capa é dedicada aos leitores. Pessoas apaixonadas pelos livros comentam porque a leitura faz tão bem e deve ser cada vez mais estimulada. A escritora Marina Colasanti, vencedora do Prêmio Jabuti de 2014, é uma de nossas convidadas.

* a entrevista inicia aos 7min53seg

Fada real




Capa do caderno de Cultura do Estado de Minas do dia 09 de junho. Fada real é a premiada autora Marina Colasanti.

Crônica de Quinta: Juntar ou jogar fora

Marina Manda Lembranças, quinta feira, 18 de junho de 2015 



Todo dia aparece alguém querendo nos ensinar a viver. E como crianças bem educadas nos debruçamos sobre esses ensinamentos esperando aprender algo novo e útil capaz de renovar o brilho do nosso cotidiano. 

Chega até nós agora o manual de arrumação da japonesa Marie Kondo, "A mágica da arrumação: a arte japonesa de colocar ordem na sua casa e na sua vida". O título, quase tão longo e explicativo quanto um livro, seduziu milhões de pessoas no mundo inteiro ansiosas por transformar lares e vidas modestamente bagunçados em peças de design oriental.

E boa parte dos leitores já havia jogado no lixo mais da metade dos seus pertences, quando outra voz ergueu-se contestando o desapego. "Por que na vida deveríamos nos livrar de nossas coisas maravilhosas?" gritou Dominique Browning nas páginas do "The New York Times".

Marie talvez possa ser considerada maníaca - aos 5 anos, em vez de brincar, arrumava os livros nas prateleiras da sua sala de aula - mas teve a sabedoria de usar a mania - chegou a desmaiar de angústia por não saber, exatamente, o que guardar e o que passar adiante- como ferramenta de afirmação e, por que não, de lucro.

Dominique é igualmente categórica, embora mais maleável: "Está na hora de celebrar a delicada arte da bagunça."

Nós, colhidos entre as duas, temos direito de reivindicar a pluralidade.

Ordem ou desordem - ou acúmulo e desapego - não são somente uma atitude. São também uma tendência e o resultado de imposições sociais. São ligadas a circunstâncias biográficas e a contas bancárias. Têm a ver com cultura e clima.

Em recente viagem a Belo Horizonte ganhei um livro estupendo, "A arte de colecionar". Páginas e páginas de conjuntos de objetos de determinado tipo. A coleção, entretanto, é apenas a forma mais sofisticada e artística do acúmulo. Conheço apartamentos submersos em corujas ou pinguins de geladeira, e me extasio na casa de meus amigos colecionadores de arte, onde não há centímetro de parede disponível. Um deles, ao não dispor mais de espaço, prendeu os quadros contra o teto. E nenhum colecionador para de adquirir novas peças.

Gente rica compra muito, e se desfaz de muita coisa. Gente pobre quase não compra, e não joga nada fora porque tudo pode vir a servir. Os novos ricos precisam exibir, e estão sempre em busca de elementos que testemunhem sua nova condição. A sociedade de consumo estimula o acúmulo e não o desapego, mas basta bater crise econômica para que pensemos mais antes de nos desfazer de qualquer coisa, e calculemos mais antes de comprá-la. 

Marie nasceu para arrumar, assim como Dominique se sente mais à vontade em alguma "bagunça". A ciência não garante, mas a observação nos diz que arrumação ou desordem vêm também no DNA. A educação conta, como em tudo, mas não é tão definitiva como as mães gostariam; vi crescer um casal de irmãos, ele desde sempre grande arrumador de suas gavetas e roupas, enquanto para ela bastava qualquer coisa em qualquer cabide. 

Os povos nômades não poderiam juntar muitas coisas, mas juntam. Quem mora em espaço pequeno não deveria ter mais do que o essencial, mas tem. O despojamento - mais do que apenas a ordem - é um requinte que se alcança ou através da arte ou através da espiritualização. Ou mesmo através da mania.

Crônica de Quinta: Bigodões e talheres de ouro

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 11 de junho de 2015



Houve um tempo em que comíamos comida. Hoje queremos gastronomia. Nas casas, a bem da verdade, consome-se mais gastronomia na TV, do que à mesa (que eu saiba, ainda não foi inventada a pizza gastronômica de encomenda). Mas na hora de escolher um restaurante, vamos de gastronômicos até onde o bolso alcança, porque o paladar agradece, e porque gastronomia é moda. 

Lembro dos meigos anos 50. Como se comia mal no Rio!! Havia poucos restaurantes que valessem a pena e, mesmo assim, uma pena assaz modesta. Um "must" era ir a Copacabana, no Nino, comer "paillard com fettuccine". E aquele bifinho atropelado acompanhado do "fettuccine" grudento, feito com massa sem identificação e temperado com parmesão sem passaporte, nos parecia delicioso. Mais que molho de manteiga e queijo, era o império do olho branco. E de sobremesa, reservávamos parte do prazer para pedir "soufflé ao Grand Marnier", que vinha transbordando espuma acima da laranja gelada.

No entanto, eu havia conhecido "fettuccine" mais autênticas. Devia ter meus 14 anos, quando fui com minha tia almoçar no famoso restaurante "Alfredo", em Roma, em Via della Scrofa, perto da grandioso mausoléu de Augusto. Era o que havia de mais elegante e delicioso.

O próprio Alfredo veio nos servir seu "fettuccine" - criado, segundo a lenda, para satisfazer um desejo de sua esposa grávida. Era um homão maduro, alto e imponente, que ostentava bigodões grisalhos dignos de um general austríaco. Remexeu a "pasta" na travessa com movimentos rituais. Empunhava talheres grandes, de ouro, presente dado muitos anos antes por Mary Pickford e Douglas Fairbanks que, em lua de mel em Roma, haviam descoberto o restaurante há pouco inaugurado, contribuindo com sua presença e louvores para que se tornasse famoso. Não seria o único casal de estrelas a frequentar a casa no auge da paixão. Também Elizabeth Taylor e Richard Burton, no tempo em que filmavam Cleopatra e se amavam ao ritmo de bebedeiras históricas, iam se empapuçar de "fettuccine". 

Com o tempo, a presença antes constante de Alfredo havia se tornado uma homenagem reservada aos clientes especiais. E minha tia, que mantinha a aura de grandíssima cantora lírica do seu tempo, certamente o era. A homenagem só se completava quando Alfredo, após servir os outros comensais, oferecia ao homenageado a porção mais saborosa, a ser comida diretamente na travessa que conservava toda a riqueza do molho.

Olhei para minha tia. Esquecida dos constantes regimes com que mantinha o peso, seu rosto era pura beatitude. 

No "Alfredo", o "fettuccine" não vinha acompanhando nada. A pura idéia de um acompanhamento teria sido considerada sacrílega. Era prato a se comer sozinho, como entrada. Se houve um segundo prato naquele dia, não lembro. Depois dos bigodões e dos talheres de ouro, não poderia desperdiçar minha memória com alimentos comezinhos. 

O velho Alfredo morreu faz muito. Seus restaurantes se multiplicaram, ganharam o mundo, e se não me engano, até comi em um deles em Nova Iorque. As "fettuccine" certamente são as mesmas em todos os "Alfredo" ou em suas franquias, entraram em linha de montagem. Mas as que minha tia comeu naquele dia, colhidas pelo garfo no fundo cheio de molho, aquelas que lhe encheram o olhar de contentamento, essas ninguém mais faz.

Marina fala ao Estado de Minas sobre a carreira





Os verdadeiros contos de fadas, segundo afirma Marina Colasanti, de 77 anos, têm toda a beleza, a crueldade e a dificuldade da vida, com direito a final feliz, dramático e/ou em aberto, além de abordar temas como inveja, ciúme e desamor na trama. “São contos absolutamente enraizados na vida, embora ancorados no espaço do imaginário”, diz a autora, que autografa amanhã em Belo Horizonte a antologia 'Mais de 100 histórias maravilhosas' (Global Editora), que reúne sua produção no gênero, que soma nove livros, incluindo o inédito 'Quando a primavera chegar'.

Dentro do projeto O Autor na Academia, da Academia Mineira de Letras (AML), Marina também conversará com a plateia. Os exemplares do novo livro estarão à venda no local por R$ 10 (cada um). A estreia da autora nos contos de fadas foi por puro acaso. “Nunca pensei em escrever contos de fadas, até começar”, diz ela, que era na época, durante a ditadura militar, cronista do caderno de cultura de um extinto jornal carioca.

“A editora Ana Arruda, ainda não Callado, foi presa, e o (jornalista) Alberto Dines me pediu para substituí-la. Como é difícil editar com o sapato do outro, tive um ‘buraco’ de reportagens. Pensei, vou em casa reescrever um conto clássico infantil, trocando as partes e dando às crianças a tarefa de organizá-las. Só que cheguei tão despreocupada e parti para 'A Bela Adormecida'. Acabei escrevendo um outro conto: 'Sete anos e mais sete'”, recorda.

Quando viu o resultado de seu trabalho, a reação de Marina foi: “Pensei: eu quero fazer isto... Só que, com o medo e a preocupação, só saía porcaria”, admite hoje. É desse período seu primeiro livro de contos de fadas ('Uma ideia toda azul'), que ficou cinco anos sem editor. “Era a época do Wander Pirolli (1931-2006), autor de 'O menino e o pinto do menino', de realismo puro para os meninos”, diz ela, explicando a recusa do mercado editorial pelo gênero então.

A estreia na área, já com direito a prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), no entanto, seria a credencial para Marina escrever mais oito livros de contos de fadas, reunidos agora na antologia. O público atraído pelos livros dela, diz, é o mais variado possível, uma diversidade proporcionada pela adoção de seus livros em escolas. “Como já tenho tempo de estrada, vou ao médico e acabo ouvindo que ele havia lido meus livros no tempo de escola”, comemora Marina, orgulhosa de contabilizar pelo menos três gerações de leitores, além de ter-se tornado alvo de muitas teses universitárias.

Ela afirma não ter ideia do que não pode faltar em um bom livro de contos de fadas. “Nos meus não pode faltar a linguagem literária, com a qual tenho muito cuidado”, afirma, criticando a tendência da linguagem simplificada, que se aproxima da oralidade. “Tenho um trabalho de linguagem literária com muito cuidado. E o que não pode faltar é a intensidade da emoção”, diz.

TRADIÇÃO Sobre a exiguidade de pares na produção desse gênero, Marina observa: “Nossa tradição é mais ligada ao realismo”. Quanto a ela, como leitora, lembra-se de que, ao chegar ao país, aos 10 anos de idade, já não lia literatura infantil. “Era de Julio Verne para cima”, diz, revelando que não se deixou cativar nem mesmo por Monteiro Lobato.

Crianças, professores e contadores de história de toda a América Latina e até de Portugal estão incluídos entre o público da autora, cuja origem remonta a Asmara, capital da Eritreia, então colônia italiana, situada ao Norte da África. A escritora, que passou a infância na Líbia e na Itália, mudou-se para o Brasil em 1948. Artista plástica por formação, Marina Colasanti ingressou no jornalismo em 1962, dando início a uma longa carreira na área, com passagem pelo Estado de Minas, onde foi colunista do caderno Cultura.

Publicitária e tradutora, ela também conseguiu unir as artes plásticas com a literatura, ilustrando muitos de seus livros. A estreia na literatura foi em 1968, com Eu sozinha. Desde então, são mais de 50 títulos, alguns dos quais feitos a quatro mãos com o marido, o mineiro Afonso Romano de Sant’Anna, com quem tem duas filhas. Uma das autoras brasileiras mais premiadas, ela já levou o Grande Prêmio da Crítica da APCA, foi vencedora da categoria Livro do Ano da Câmara Brasileira do Livro, do Prêmio da Biblioteca Nacional para poesia e de sete prêmios Jabuti, o último deles no ano passado, na categoria Livro do Ano de Ficção, com o infantil 'Breve história de um pequeno amor'.

Com o mesmo livro ela também foi premiada durante o FNLIJ 2014 – O Melhor Para Crianças, distinção concedida pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil aos melhores livros para o público mirim. A escritora foi ainda uma das representantes do Brasil no Salão do Livro de Paris 2015, em março passado, além de ter sido indicada ao Prêmio Portugal Telecom 2014, na categoria conto e crônica, pelo livro 'Hora de alimentar serpentes'. O próximo trabalho, anuncia ela, será um livro de poesia, que já está organizando, seguido de um de ensaios.

'FADA REAL'
MARINA COLASANTI – O AUTOR NA ACADEMIA
Quarta, às 19h, na Academia Mineira de Letras, Rua da Bahia, 1.466, Centro. Noite de autógrafos e bate-papo com a autora que lança Mais de 100 histórias maravilhosas. O livro será vendido no local a R$ 10. Informações: (31) 3222-5764.

O Autor na Academia (Belo Horizonte)




A Academia Mineira de Letras ​convida a escritora e jornalista ítalo-brasileira Marina Colasanti ​para participar do projeto O Autor na Academia​ de junho​. Conhecida por sua vasta obra no campo da literatura infanto-juvenil e vencedora de sete prêmios Jabuti, ela lança na ​AML ​seu mais recente trabalho, o livro de coletâneas ​Mais de 100 Histórias Maravilhosas​​, e ministra a conferência Palavras Ocultas​, na qual abordará a importância da literatura de contos de fadas. “A ideia é demonstrar como essas narrativas que nós acostumamos a considerar apenas ‘infantis’ e de pouco conteúdo, possuem múltiplos significados, e conteúdos ocultos adequados a qualquer idade; e como esses conteúdos são responsáveis pela sua permanência através de séculos”, afirma a autora.

Na ocasião, estará à venda seu livro Mais de 100 Histórias Maravilhosas, publicado pela Editora Global e que reúne, pela primeira vez, todos os contos maravilhosos escritos e ilustrados pela autora.

O projeto O Autor na Academia​ acontece em edições mensais e traz grandes nomes da literatura para discutir assuntos relativos ao universo das letras e da arte. O evento é uma realização da Academia Mineira de Letras e tem o apoio da Fiat​ para sua realização.

O Autor na Academia com Marina Colasanti
Quarta-feira, 10 de junho de 2015
Horário: 19h
Entrada gratuita sujeita à lotação da sala

Crônica de Quinta: A eternidade pela frente

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 04 de junho de 2015


Recebo da França um mistério quase policial. Minha amiga. Michelle Bourgea me escreve, não sem inquietação, que os pinheiros "parasol", ou "Pinus Pinea", aqueles de tronco delgado como pescoço de girafa, que abrem a copa ao alto, não estão mais produzindo pinhas. Como eu, também ela na infância catava os "pinoli" procurando com o pé entre as agulhas caídas no chão. Porém, mais esperta que eu, deixava uma pedra escondida entre os arbustos para quebrar a pequena casca dura e preta e, como um esquilo, comer o mínimo conteúdo. Agora, há aproximadamente 5 anos, nenhuma pinha mais, nenhum relevo preto a ser caçado entre as agulhas. Aliás, nenhum esquilo tampouco. Os pinheiros estão lá, sem frutos, ou seja sem sementes para a reprodução. Para que sobrevivam terão que ser plantados - e nunca o serão com a ordenada desordem natural. Nenhum pinheiro novo nascerá espontaneamente. 

Mas se dos esquilos se conhece o motivo do desaparecimento - os muitos que havia na costa francesa do Mediterrâneo foram destronados pelos ratos da Coréia, que devoram tudo o que encontram pela frente nos jardins, peras, uvas, ameixas e até laranjas amargas - nada ainda explica a esterilidade suicida dos pinheiros.

Agora os franceses são obrigados a comprar pinoli - muito usados na culinária provençal - bem mais caros, vindos da Espanha. Ou, menos caros e menos saborosos, vindos da China. O que significa que nem tudo está perdido, os pinheiros de outras partes do mundo continuam dando seus frutos. Mas eu me pergunto se os que compro às vezes para dar uma graça à salada ou à "pasta", e têm rótulo italiano, são da mesma família dos que eu comia quando criança, ou se já têm os olhinhos puxados. 

Quando, há mais de 40 anos, escolhemos nossa casa na serra, Friburgo era puro perfume de mimosas. Nós também, encantado com aquelas árvores delicadas que pareciam florir pintinhos, desandamos a comprar mudas e enchemos com elas nosso terreno. Que bonito ficava o jardim em tempos de floração! Que gentil o galhinho que eu punha num jarro pequeno sobre a lareira! Durante alguns anos, abril foi o mês com perfume de mimosas. 

Depois, galhos decepados começaram a amanhecer sobre a grama. Não muitos de cada vez. Um ou outro, à distância. Pareciam serrados, o corte limpo, regular, serrilhado. O mistério inicial desfez-se quando encontramos uma espécie de besouro ainda empenhado no serviço. Era preto e luzidio, de finas patas e fortes tenazes. Porque ele e seus semelhantes roíam os galhos de mimosa, e só de mimosa, nunca soubemos. Soubemos, isso sim, o quanto eram ferozes, pois colocados dois ou três dentro de uma latinha, pelo caseiro que os catava, atacaram-se uns aos outros, despedaçando patas e carapaças.

Durante uns anos mais, os enfrentamos com inseticida, buscas, e com o plantio de novas mudas. Mas eles pareciam multiplicar-se com determinação bem mais firme que a nossa. E progressivamente desistimos das mimosas. 

Muitos devem ter feito o mesmo, porque as mimosas desapareceram de encostas e jardins, abril deixou de ser perfumado, e hoje, nos hortos da região ninguém mais vende arbustos que florescem pintinhos .

Para aonde foram os besouros negros e do que passaram a se alimentar, não tenho idéia. Talvez tenham sido extintos pelo fim do seu próprio alimento. E se os mecanismos de vida e morte da natureza me inquietam, é só porque penso curto, de acordo com meu curto tempo, enquanto ela tem a eternidade pela frente.

Cinco perguntas para Marina Colasanti