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Crônica de Quinta: Três histórias de mulher

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 17 de julho de 2014

Rolf Ohst 



Fim de tarde, vinham as duas pela calçada, de braço dado. Não por jovial amizade, mas em busca de apoio. Andavam muito lentamente, como a idade lhes permitia. Uma um pouco mais gorda, um pouco mais humilde e um pouco menos velha. A outra, frágil e pálida, uma crisálida.

Conversavam em voz alta, certas de estarem apenas murmurando - imaginei que, meio surdas ambas, haviam se estabelecido nesse registro. E quando nos cruzamos no passeio, ouvi claramente a mais humilde dizer “A senhora não se lembra, mas eu antigamente...”.

A frase me encheu de ternura. A acompanhante de tantos anos sabia bem que a memória havia abandonado sua patroa e, ainda assim, era o dialogo que lhe restava. Estavam juntas desde aquele “antigamente”que a mais velha, ou mais fraca, havia esquecido. E a outra tentava manter vivas suas lembranças contando-as para alguém que mal podia lhe prestar atenção e que há tempos havia apagado as próprias.

Minha amiga era gorda. Linda, brilhante, e gorda. Não abundante em carnes, gordinha apetecível. Obesa. Leva-se tempo para chegar a essa qualificação. No caso dela haviam sido anos de boa comida, de um tanto mais a cada refeição, de ligeiras facadas ao subir na balança. Aos poucos. Bem devagar. E era tão lindo o rosto, tão exuberante o temperamento e bem sucedida a vida, que acreditávamos estivesse acostumada com seu peso.

Não estava. Um belo dia – belo, de fato- anunciou: faria bariátrica. E eis que quando a vi novamente havia perdido o equivalente a outra pessoa. A sua exuberância parecia mais bem instalada nesse novo corpo flexível, a idade havia dado um salto para trás.

Ao contrário de muito gordos que emagrecem, minha amiga não teve nenhuma dificuldade em se adaptar à magra imagem com que se encontrava no espelho. Pelo contrário, estava radiante. E para expandir ainda mais o sorriso, inventou um pequeno estratagema. Agora,quando vai a alguma loja comprar roupa – e compra mais roupa já que lhe cai tão bem- pede à vendedora um tamanho G. Que veste, na cabine, só para ter o prazer de vê-la sobrar ao redor do corpo, e poder então, triunfante, chamar a vendedora e dizer que ficou largo, por favor, lhe traga um tamanho M.

Vínhamos chegando ao meu prédio, quando vi uma moradora fotografando as orquídeas em flor no tronco da árvore junto à portaria.

Moro em Ipanema e, há alguns anos já, estabeleceu-se um costume encantador. Quando alguém ganha um vaso de orquídeas – e é freqüente, porque a orquídea é flor nobre e tornou-se mais desejável que as rosas, de menor duração – desfruta sua beleza durante as semanas, até meses, em que continuam floridas. Depois, não tendo uso no apartamento para a planta desguarnecida, a entrega ao porteiro. Que armado de escada, a prende na parte alta do tronco da árvore mais próxima, onde tornará a florescer. Assim, agora, quem anda pelas ruas de Ipanema, vai por um corredor tropical de pétalas, perfumes, e encantamento.

Estava, pois, minha vizinha de câmara na mão. E porque elogiamos seu gesto, nos entregou o resto da história.

Mora no prédio há mais de 40 anos. E todos os anos, no aniversário de casamento, seu marido lhe dá de presente um vaso de orquídeas. Conservá-los não pode. Então, pede a alguém para prendê-los nas árvores. Mas não os abandona. Quando florescem pela primeira vez, os fotografa. “Tenho todos guardados “, me disse sorrindo. E agitou a câmara como se me mostrasse um cofre de jóias.

Com o leitor

Marina e a atriz Cláudia Ribeiro

Marina


Crônica de Quinta: Reféns de um pensamento

 Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 10 de julho de 2014




Surpreendente é a capacidade expansiva de um pensamento. Vai a pessoa tocando normalmente os múltiplos elementos da sua vida quando, de repente, é atirada contra a tsunami de uma ideia. E essa ideia se avoluma, reduzindo à insignificância aqueles mesmos elementos múltiplos que lhe haviam dado origem.

Não estou me referindo a ideias grandiosas, a maçã caindo na cabeça de Newton e revelando-lhe a lei da gravidade, Aristóteles gritando Eureka! ao perceber que deslocava a água na banheira. Falo de coisas comezinhas, pensamentos que se apresentam modestos e aos quais não damos importância inicial, mas que na morna escuridão do pensamento levedam, crescem, logo partindo para a dominação total.

A pessoa está sentada no sofá da sua casa, o mesmo em que se senta há mais de uma década. Quase distraída, pousa o olhar sobre a mesa de centro. E eis que aquela mesa com a qual está tão acostumada, com a qual sempre se deu tão bem, subitamente eriça o pelo. O olhar antes distraído se faz crítico, a mesa antes ótima lhe parece subitamente grande demais para o ambiente. Estabelecida a rejeição, a pessoa avança visualizando o espaço sem aquela mesa agora inconveniente, imagina outra menor em seu lugar. E gosta, gosta muito do que vê. A partir daí, a busca de uma nova mesa será a rainha do seu desejo. Olhar focado em páginas de decoração, pesquisas nas vitrinas, buscas em lojas e em feirinhas de antiquariado, análises complexas das mesas alheias ocuparão seu tempo e seu imaginário. A mesa de centro que lhe pareceu grande demais na sala fez-se muito maior no pensamento.

Já desejei estudar alemão. Até comecei. Parei, não porque não gostasse, nem porque me parecesse excessivamente difícil. Parei porque percebi que aquelas palavras, aquelas estruturas linguísticas estavam se dilatando, e qualquer frase simples do livro para iniciantes, repetida mentalmente infinitas vezes, acabava ocupando o espaço de frases bem mais úteis para o meu cotidiano. Era como se, para aprender alemão, eu precisasse deixar a seu dispor todos os meus neurônios.

Tive, na faculdade, um professor de anatomia que desejando aprender russo utilizava um método de sua invenção. Já até escrevi sobre ele. Todo dia, anotava cinco, ou talvez dez, vocábulos novos num cartãozinho que levava no bolso. Intermitentemente, sacava o cartão, dava uma olhada, e o recolocava no lugar. Durante o dia inteiro. Ã noite, memorizado o conteúdo do cartão, preparava outro com novos vocábulos. Saí da faculdade. Anos mais tarde me disseram que o professor havia enlouquecido. Mas pode ter sido aleivosia de ex aluno.

Agora, impulsionados pela publicidade e as redes sociais, já não se trata apenas de pensar o tempo todo em alguma coisa, trata-se de todos pensarem ao mesmo tempo a mesma coisa.

Foi o que aconteceu com a Copa. Durante semanas nossas vidas foram seqüestradas por um único pensamento, um único desejo coletivo metodicamente alimentado. Ficou difícil pensar em qualquer outra coisa, levar adiante a normalidade. Como meu professor de anatomia, verificávamos intermitentemente tabelas, feriados, horários. Até terça.

Tive que sair ontem de manhã, cedo. Nas mesmas ruas de Ipanema que no dia anterior pareciam uma extensa plantação de girassóis, não havia uma única camisa amarela.

Marina Colasanti visita Colégio

Na quarta-feira, dia 28 de maio, tivemos em nosso colégio como convidada especial da biblioteca Prof. Branca J.M. de Oliveira a querida escritora Marina Colasanti, para contar um pouco sobre sua obra e seus outros vários trabalhos.



Veja mais fotos da visita de Marina ao Colégio Adventista - Unidade Portão







Crônica de Quinta: Novos barbarismos

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 03 de julho de 2014

Daniele De Rossi (Itália)

Mais que os gols, chamam a atenção nesta Copa os penteados dos craques. Cachos, cristas, moicanos, recortes, riscas traçadas a esquadro, tinturas se tornaram assunto constante da mídia e das redes sociais, levando-nos a crer que barbeiros requintados viajem com as seleções, tão prestigiados quanto os preparadores físicos. É a FIFA faturando o Fígaro.

Mas da coitadinha da barba ninguém fala. Ninguém parece reparar que todos os jogadores mais bonitos, assim como boa parte dos nem tanto, têm maxilares e queixo coroados. Mais modesta em termos de criatividade, apresenta-se porém igualmente cuidada. A seleção italiana, por exemplo, ostenta barbas tão bem cortadas quanto seus ternos Dolce & Gabbana.

Não é só nos estádios. Depois de um século de pouca aceitação, a barba voltou a ser sinônimo de virilidade. Elemento compositivo do gênero bad-boy , adequa o rosto ao jeans rasgado, aos tênis, às tatuagens. É a barba fazendo de conta que não chega a ser barba, que está ali por esquecimento ou falta de lâmina, um centímetro apenas, como se fruto de ressaca. É exatamente aquela em que, no passado recente, o homem passava a mão a contrapelo dizendo para si mesmo, esqueci de fazer a barba.

Meu pai usava navalha, ou pelo menos usou por um tempo quando eu era pequena. Navalha afiada na tira de couro, para meu fascínio. Tive na adolescência um namorado que também se barbeava com navalha e um dia pediu para passá-la na minha perna; deixei, sentindo-me valente e exposta como mulher de atirador de facas no circo. A pele ficava suave como veludo.

Agora a barba nem se raspa nem se deixa crescer, conserva-se entre uma coisa e outra, quase em suspenso. E nessa suspensão qualquer falha grita aos olhos. A quase barba exige ser compacta. É aonde entra o implante de barba.

Os melhores e mais baratos estão sendo feitos na Turquia. Já não se vai a Istambul para visitar o museu Topkapi ou hospedar-se no Hotel Pera Palace, aquele que recebia os passageiros do Orient Express e onde Agata Christie se homiziou numa fuga doméstica, mas para “fazer a barba”. 40 mil novos barbudos foram produzidos pela Turquia, só no ano passado. O preço é atraente, sobretudo se considerados em relação ao de outros países. Uma barba completa custa entre dois e três mil euros, bigodes incluídos, mas podemos acreditar que um remendo na zona do agrião saia mais barato. De pelo em pelo, 2013 rendeu à Turquia cerca de 100 milhões de dólares.

O processo não chega a ser inovador, é o mesmo do implante de cabelos. Preleva-se um tufinho de cabelos do alto da nuca, e implanta-se no rosto. Com anestesia local, é claro. A cada sessão, migram no máximo 1000 pelos, o que torna necessários vários rounds. Vale perguntar quem faz a contagem, e se o preço é estabelecido por pelos transportados, ou por centimetragem coberta.

Até aqui, nada que surpreenda, além da vaidade viril sempre tão negada. O surpreendente é o que acontece em seguida. Cicatrizados os furinhos todos, superados dor e vexame, os fiapos pilosos que até então haviam-se comportado como cabelos, adequam-se ao novo território, pedem cidadania, e se transformam em autênticos fios de barba. Como tais, passarão a crescer - ou a semi crescer, já que o comprimento da hora não passa de um centímetro. É a natureza curvando-se à moda.

Fotos: Marina e Nélida


No encontro, mediado pelo jornalista Claufe Rodrigues, Nélida falou sobre a vida do escritor no país. “O escritor no Brasil ganha tão pouco que é pago pela paixão. Escrever é um estado milagroso. Todos vocês podem ler uma história escrita por alguém como se você tivesse escrito, como se fosse escrito para você”. Marina define o papel do escritor como impulsionador da compreensão do leitor. “A função da educação, que não é só a sala de aula, é dar ao jovem a capacidade de discernimento. A função da literatura e da arte como um todo é estabelecer o diálogo com o leitor para que ele possa entender-se e localizar-se no mundo”.




Affonso Manda Lembranças: Celebração


Celebracão: Samir Abujamra - o rei dos desertos, Marina - rainha da Eritréia, ARS - poeta da margem do Paraibuna e Alessandra que vem aí com a peça - A VERDADEIRA ESTORIA DE ALESSANDRA COLASANTI

O Leitor Manda Lembranças: Sesc Literatura

É tanto amor que transborda... A linda Marina Colasanti é extremamente cativante!!! Um exemplo de espírito com coragem e que possui uma singeleza para demonstrar os seus conhecimentos com emoção!
Rafaella Prata




Marina e a leitora Rafaella Prata

Crônica de Quinta: Enquanto a bola rola

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 26 de junho de 2014



Ela não sabia quanto era bonita. Nem poderia. Seu rosto não se assemelhava aos rostos da modernidade, aqueles que nos acostumamos a ver nas revistas e no cinema, aqueles de quem nos dizem que assim é a beleza. E estava lavado.

O cabelo ruivo claro, preso atrás numa espécie de nó displicente, deixava livre a linha delicada da nuca. E logo acima sobressaiam-se as orelhas, de um rosa tão mais vivo que o resto. O nariz, sim, o nariz era decididamente mais longo que o devido. Não muito, mas quanto bastava para fazer com que os olhos parecessem mais unidos do que realmente eram, olhos de um azul pálido que quase não era cor, e que resultavam mais desprotegidos porque franjados por pestanas curtas e cor de trigo.

O rosto daquela jovem mulher pertencia ao espaço flutuante entre a Idade Media e a Renascença, recém saído do alongamento ascético das figuras e já rumo ao arredondamento da carne. E ela estava com uma bebê. Uma bebê e uma menininha.

No restaurante apinhado, televisão ligada em jogo da copa, todo mundo de nariz para o alto sugado pela telinha, eu olhava para elas. Sempre me seduz o modo macio e natural com que as fêmeas de qualquer espécie tratam seus filhotes. Ali não era diferente.

Havia uma outra mulher, também jovem, provavelmente irmã embora morena e moderníssima, ou talvez amiga íntima. E as duas se revezavam com as crianças.

Nenhuma hesitação nos gestos, nenhuma insegurança. Era dar comida, embalar de leve, passar a bebê dos braços de uma para os braços da outra, tudo fluido, em absoluta continuidade. O atender e o brincar se alternavam semelhantes, como se fossem uma mesma coisa. E eram.

Havia também um pai naquela mesa, jovem, musculoso, atento à TV. Parecia ter pouco a ver com as crianças, mas só porque um valor intenso e imediato o ocupava. E quando, em dado momento, lhe entregaram a bebê, exerceu o afeto a seu modo.

Um modo nada macio, mas amorosamente prorrompente. Mantinha a filha em pé passando-lhe o braço pela cintura, não sem força. E ela retida mas sentindo-se segura, se debruçava para todos os lados, explorando a mesa com as mãozinhas, enquanto o pai olhava o jogo. Não demorou, e a pequena conseguiu apropriar-se do serviço americano de papel e o amassou e começou a metê-lo na boca, do que o pai se aproveitou para inventar uma brincadeira de papel farfalhante quase esfregado no rosto. Ela ria, encantada com a novidade e com aquele mínimo aprendizado de liberdade. Depois se assustou, e ele então afastou o choro fazendo uma careta ruidosa.

As mulheres voltaram do toalete, a mãe pegou a filha no colo, aconchegou-a para dormir, cobriu-a com um pano que talvez fosse sua canga. Debaixo da tenda colorida, aquela aprendiz de pessoa não tinha ainda meios para analisar as variantes amorosas no tratamento de pai e mãe. Mas tinha, ah se tinha!, ampla capacidade de assimilar uma e outra , e necessitar das duas.

Menos de uma hora depois revi a família, dessa vez no supermercado próximo ao restaurante. Só então percebi que a mulher antiga estava grávida. Alguns meses mais, e uma nova criança entraria na roda do afeto.

Marina participa de encontro de literatura em Juiz de Fora

Palestra gratuita está agendada para esta quinta-feira (26), às 20h.




A escritora Marina Colasanti estará em Juiz de Fora nesta quinta-feira (26), às 20h, para ministrar uma palestra no “Sesc Literatura”. A entrada é gratuita, com distribuição de senhas duas horas antes do evento. A palestra será no teatro localizado na Avenida Barão do Rio Branco, nº 2329, no Centro. No sábado (28), o “Sesc Literatura" ainda promove oficinas de leitura.

Marina Colasanti é escritora, jornalista e pintora. Com formação em Belas Artes, ingressou no jornalismo, trabalhando durante 11 anos no Jornal do Brasil e 18 anos em revistas femininas. Autora de contos, crônicas, poesia, literatura infantil e ensaios, tem mais de 50 livros publicados.

Oficinas

As oficinas tem como objetivo mostrar como se utiliza o ensino da língua e como se desenvolve o prazer em ler na sociedade contemporânea. Os interessados devem se inscrever pelo e-mail cadijacosta@sescmg.com.br, até esta sexta-feira (27). As atividades ocorrem na Avenida Barão do Rio Branco, nº 3090, no Centro.

Confira os horários:

Das 9h às 12h:
Oficina: Dar asas à imaginação
Ementa: A proposta é estimular e explorar as diversas possibilidades temáticas da poesia a partir da imaginação. A principal referência da atividade é o livro Classificados e Nem Tanto, de Marina Colasanti. Durante as dinâmicas propostas, serão utilizados diversos recursos didáticos que servirão de estímulo: música, vídeos e imagens (fotos, cartuns e tirinhas).
Oficineiro: Júlio Satyro

Das 14h às 17h:
Oficina: Recontar fatos em fábulas
Ementa: A proposta da oficina é oferecer um passeio entre a (in)solução realista e a “fuga” pela fantasia na literatura, estimulados pela variedade da obra de Marina Colasanti. A autora, que iniciou o exercício da escrita na forma de diários, mas que sempre esteve “atormentada” por uma “intenção de fabular”, inspira alternativas variadas de expressão de ideias e sentimentos e de comunicação com públicos variados.
Oficineira: Bella Mendes 

Invertida com Marina Colasanti




A premiada escritora Marina Colasanti sabe ser desconcertante, mas nunca deixa de ser doce. Essa africana loura de olhos verdes, nascida na Eritreia e trazida pela família italiana para o Brasil, aos 11 anos, tem uma resposta rápida para explicar as dezenas de homenagens que vem recebendo nos últimos tempos – na Feira do Livro de Bolonha e outras mais Brasil afora: “É sinal de que estou velha” – diz -, “mas acho ótimo, estou viva”.

Marina, que é também é poeta, ilustradora, tradutora, contista, autora infantil e juvenil, foi jornalista e editora de revista, a primeira mulher copidesque da imprensa brasileira, redatora e apresentadora de TV. Convidada para falar com criancinhas de 5 anos sobre seu livro “O Lobo e o Carneiro no Sonho da Menina”, na recente Festa Literária de Santa Teresa, Marina apareceu no clima da atividade: como sabia que as crianças iriam de pijama, com travesseiros e bichinhos de pelúcia, ela entrou na sala de aula de roupão azul-nuvem e chinelos com cara de cachorro.

Casada há 43 anos com o poeta Affonso Romano de Sant’Anna, mãe da atriz Alessandra Colasanti e da tradutora Fabiana Colasanti, diz que na sua vida não existe rotina. Ou melhor, só às terças-feiras, dia em que faz feira, supermercado e vai ao banco, tudo em Ipanema, onde mora.

Em relação ao Brasil e à política, Marina confessa: “Eu estou olhando, tentando entender como se mexe e quem se mexe… Tudo estava aparentemente tão bem e tranquilo até as placas tectônicas começarem a sambar! Mente quem diz que entende, é muito difícil”.

Para manter-se ativa, dá como receita a paixão: “Amo de paixão o que eu faço; minha infelicidade é não ter trabalho”, afirma. Até o fim do ano, a autora de mais de 50 livros, que queria ser pintora, terá muitos motivos para ficar satisfeita: termina as ilustrações de um novo livro de contos, “Como uma carta de amor”, lança uma coletânea de seus contos de fadas, “Mais de 100 histórias”, e traduz mais um título da escritora argentina María Teresa Andruetto, que se chamará “A terra de um João”.

UMA LOUCURA: “Loucura é acreditar-se plenamente são.”

UMA ROUBADA: “Me roubaram uma ideia, e nunca devolveram.”

UMA IDEIA FIXA: “O livro que estou escrevendo, enquanto o escrevo.”

UM PORRE: “A burocracia, qualquer burocracia.”

UMA FRUSTRAÇÀO: “Estar num só lugar de cada vez.”

UM APAGÃO: “Difícil, viver sem borracha.”

UMA SÍNDROME: “Sofro de perfeccionismo, e não obtive cura.”

UM MEDO: “Tenho medo do caos.”

UM DEFEITO: “Não ter certeza de quais são eles.”

UM DESPRAZER: ”Desprazer é errar a medida do sal, do gesto, da bainha, do afeto.”

UM INSUCESSO: “Só um? ”

UM IMPULSO: “Abrir os olhos quando acordo.”

UMA PARANOIA: “Paranoia é sentir-me ameaçada se não carrego na bolsa nem uma caneta.”