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Crônica de Quinta: À noite, as cidades

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 21 de maio de 2015




Olhei pela janela, e não havia nem um carro. Eram duas horas da madrugada, havia chovido. Do alto do décimo andar eu via quase de ponta a ponta a longa avenida que atravessa a cidade. O asfalto brilhava. As luzes publicitárias acima das lojas estavam acesas. E não havia um único carro trafegando, nem uma única pessoa nas calçadas. Fiquei parada à espera, demorei bons minutos, a mão mantendo a cortina afastada. E nada. Só o silêncio da noite, e aquela ausência inesperada, como se de filme ou de fim de mundo. Eu estava em Poços de Caldas.

Uma noite, em Frankfurt, também fiquei de pé atrás de uma janela de hotel, olhando a noite. Fazia frio lá fora. Nenhuma luz nos prédios, apenas a iluminação dramática e bem calculada de uma fachada e cúpula, certamente uma igreja. Talvez tivesse chovido. Não havia ninguém na rua, só dois ou três carros passaram a longos intervalos na avenida distante. Mas da janela eu via um belíssimo rosto de mulher e um homem de peito nu revezando-se num daqueles suportes publicitários em que uma imagem sobe fazendo a outra aparecer em seu lugar. Exibiam-se ali como se fossem eles próprios o produto, sem ninguém para vê-los. E ali ficariam sozinhos até o amanhecer, quando a primeira luz da manhã mudaria os reflexos do vidro que os continha.

Como os humanos, que trocam de roupa para sair à noite, também as cidades mudam seus trajes e seus sons ao chegar da madrugada. Não dormem, como dormimos nós. Ao contrário, aproveitam nossa ausência para viverem sua própria vida. Durante o dia, cheias de carros, buzinas, acender de sinais, gente nas calçadas, gente atravessando ruas, gente entrando e saindo de milhões de portas, subindo e descendo em tantos elevadores, as cidades são um espaço invadido, contaminado pela nossa pressa e pelos nossos cheiros, pela nossa tensão e pelos nossos relógios, um espaço frenético correndo mesmo se parado. Só à noite, como um cão que sacode suas pulgas, se livram de nós e podem retomar sua busca de sintonia com o espaço que a amanta. Recuperam o silêncio que tinham antes de serem cidades, as luzes se fazem estáticas como as estrelas, o vento leva folhas pelas calçadas desimpedidas. E nada tem pressa, porque tudo obedece a um tempo maior.

Em Roma, quando ainda jovem eu viajava para visitar minha avó, os barulhos tantos de turistas, de comerciantes, de transeuntes que de dia escorriam compactos como um rio na rua antiga e estreita debaixo da minha janela desapareciam à noite, dando lugar a uma ou outra rara voz, um chamado, uma risada, que pontuavam os longos espaços de silêncio e que, em vez de escorrer, subiam verticais como o balão que escapa da mão da criança. Eu me refestelava então sob as cobertas, feliz por estar ainda acordada e recolher a diferença.

Em Poços de Caldas, quando na manhã seguinte comentei a ausência de carros que havia me seduzido de madrugada, meu interlocutor deu um monte de justificativas, que segunda-feira à noite ninguém sai, que estava muito frio, que brasileiro tem pavor de chuva. Parecia que o fato de não haver carros, em vez de benção, fosse uma vergonha. Eu sorri em silêncio, sem acatar nenhum daqueles argumentos, embora verdadeiros. Preferi guardar para mim a visão da longa avenida vazia lavada de chuva, e agradecer à insônia que me havia permitido vê-la.

Em um encontro do projeto Tim Grandes Escritores


Marina Colasanti e Cássia Kis com Marcelo Andrade, mediador do projeto TIM Grandes Escritores. Eles estiveram em edições do projeto em Barbacena e Lavras

Crônica de quinta: Desejo na camiseta

Marina Manda Lembranças, 14 de maio de 2015



Trazia estampado na camiseta: 5 DESEJOS
                                                  5 beijos 
                                                  5 cartões de crédito
                                                  5 canções de amor

Tudo em inglês. E estávamos na Grécia, indo de trem de Atenas para o Pireu. Eu ainda saboreava o gosto das cerejas que havia comprado na estação, e me perguntei se ela falava inglês, se sabia o que declarava a peito aberto, ostensivo como um anúncio de publicidade. Possivelmente, sim, mensagem fácil de traduzir. Era uma senhora um tanto entrada em anos, um tanto avançada no peso, um tanto oxigenada. Os outros dois desejos prometidos perdiam-se ilegíveis entre as dobras da camiseta e do corpo.

Que triste, pensei, desperdiçar cinco desejos, que na verdade eram 25, com coisas tão insignificantes. Os gênios das garrafas ou as velhinhas bondosas encontradas no bosque costumam oferecer apenas três desejos, e o herói ou a heroína do conto tem que recorrer à astúcia para não desperdiçar nenhum.

Ali eu só via quinze inutilidades. O que valem cinco beijos sem qualificação? Qualquer mocinha em qualquer balada dá mais do que cinco beijos numa noite só, e volta para casa sorridente, porém de mãos vazias. Cinco beijos dados como aperitivo abrem o apetite, é verdade, e podem ser saborosos, mas o prato principal é o que vem depois e será o mais lembrado. Cinco beijos, ou até mesmo um, só têm valor se forem qualificados. De amor, primeiro. Ou de despedida. O primeiro beijo. Beijo de adeus para nunca mais. Beijo de reencontro depois de longa ausência. Beijo em quem parte para a guerra. Ou em quem dela volta. Beijo com sentimento, enfim. Seria um desejo bem mais apropriado para qualquer pessoa e qualquer camiseta.

De que valem cinco cartões de crédito sem sólida conta por trás? E tendo sólida conta, para que ter cinco se menos disso basta? Cinco cartões sem conta gorda, e sem uma fonte que a realimente à medida que os cartões forem usados, servem só para entulhar a carteira, para fazer visagem com os incautos, para passar o mês fazendo contas com as datas de vencimento de cada um, ou para um inútil sentimento de poder.

As cinco canções de amor são desejo um pouco melhor. Mas ainda assim, dependem de vários elementos que não estão incluídos no pedido, e que podem pôr tudo a perder. Dependem da voz de quem canta. Dependem do que a letra nos diz, e se o que nos diz coincide com o que queremos ouvir. Dependem da música. Dependem do momento em que nos chegam. Dependem das lembranças que despertam. Cinco canções de amor podem não ser nada. Mas a "nossa" canção de amor é um pacote de sentimentos.

Protegida pelos óculos escuros, gosto de cereja ainda na boca, eu olhava a mulher. É certo que, ao acordar de manhã e escolher a roupa que vestiria para tomar o trem e ir trabalhar no Pireu, ela não havia se demorado em grandes análises do que traria escrito no peito. Assim como não se demorou ao comprar a camiseta, quem sabe quanto tempo antes; reparou nela mais do que nas outras todas que estavam nos cabides da loja, achou engraçadinha, pensou que lhe ficaria bem, e a comprou. Naquele momento satisfazia um único desejo, bem mais modesto que aqueles oferecidos pelos gênios da garrafa, o desejo de ter uma camiseta nova que, por algumas horas, a fizesse sentir-se mais bonita.

Ubá recebe evento com Marina



Ubá recebe nesta quinta-feira (14) a escritora Marina Colasanti. A ida dela ao município faz parte de um projeto Grandes Escritores, realizado há 12 anos pelo Brasil. O evento gratuito será realizado a partir das 20h na Câmara Municipal, que fica na Rua São José, 406, no Centro. A capacidade é para 207 pessoas.
O projeto abordará a vida e obra da escritora e o público terá a oportunidade de interagir com Marina Colasanti e ter acesso a suas obras que serão autografadas durante o evento.

Dia das Mães


Em Família: Affonso Romano de Santanna, Fabiana Colasanti, Marina e Alessandra.

Marina, Lisetta e Arduíno

Na foto: Marina Colasanti, Lisetta e Arduíno

Nascidos cada um num canto - meu irmão em Livorno, na Toscana, e minha mãe em Parma -, não erá fácil naquele tempo de burocracias e documentações destroçadas fazer o passaporte. Minha mãe viajava de uma a outra cidade, nós acompanhávamos vagamente os avanços. Tudo deveria estar pronto em dezembro, planejávamos passar o Natal ao sol. Porém dezembro chegou e se foi deixando-nos no mesmo lugar. O Brasil imaginário agigantava-se na espera.

Trecho do livro "Minha Guerra Alheia" (Editora Record, 2010) 

Crônica de Quinta: A terra de Fitsum

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 07 de maio de 2015



Durante um tempo, Fitsum Nayzgi pensou que deixaria a terra dos seus pais. Juntou dinheiro e, quando teve o suficiente, juntou suas mínimas coisas e partiu. Não precisou juntar forças porque as tinha. E iria precisar delas. 

A terra de Fitsum é a Eritréia, a mesma onde nasci. Eu também saí de lá, mas não era a terra dos meus pais e não precisei juntar dinheiro. Deixamos nosso apartamento alugado, e nos transferimos para Trípoli, na Líbia. Não sei que meio de transporte usamos, meus pais nunca me falaram dessa viagem, viajar era uma coisa natural que na minha família não despertava muitos comentários. Teríamos ido de avião? Ou teríamos deixado Asmara de carro e descido o planalto, para embarcar no porto de Massawa ? Romanticamente gostaria de pensar que navegamos pelo Mar Vermelho, chegando ao Mediterrâneo através do Canal de Suez, mas parece improvável. Uma coisa é certa, não fomos cruzando o país até sua fronteira com o Sudão, nem atravessamos o deserto até alcançar o sul da Líbia, que também teria que ser varada para chegar ao mar.

Fitsum não teve escolha. Perseguido político num país onde vigora a ditadura, saiu por onde era possível. Atravessou a Eritréia, que é mais árida do que verde, e tentou cruzar a fronteira para o Sudão. Foi preso. Teve que fazer serviço militar. Tentou novamente, foi preso. Ficou seis meses na cadeia. Saiu. E tentou mais uma vez, agora pagando a um atravessador. Atravessou. Porém, sem outra alternativa, passou seis anos em um campo de refugiados. Não estava sendo perseguido, mas tampouco era a vida que desejava. Quando teve dinheiro, pagou a outro atravessador para cruzar o deserto com mais 30 pessoas. E finalmente chegou à Líbia.

A Líbia onde eu cheguei com meus pais e irmão é, na minha memória, uma casa branca com um poço e um cacto no jardim, um cachorro, um velocípede. Era mais do que isso, um projeto de colonização vibrante - só para nós colonizadores, é claro - uma cidade cosmopolita, antigas ruínas romanas, e campos onde cresceriam o trigo e a uva. Um futuro em construção, onde era bom estar.

Esse futuro há muito havia sido desconstruído quando Fitsum chegou, e nenhum outro havia sido posto em seu lugar. Então ele trabalhou durante um ano como pintor de paredes, e novamente juntou dinheiro e pagou - as taxas dos atravessadores iam ficando cada vez mais caras- para ser levado até a Itália. Viajou acocorado no porão de um barco movido por motor de caminhão, com mais 250 pessoas. Os que morriam eram jogados ao mar, os que sobraram foram resgatados pela Guarda Marinha italiana.

Quando saímos da Líbia, porque a Itália havia entrado na Segunda Guerra, fomos de avião, um hidroavião pequeno que lembro pousado na água e não recordo em vôo. Tínhamos pela frente duros anos de conflito.

Fitsum, que levou oito anos para chegar à Europa, também vai travar a sua guerra. Mandado inicialmente para um centro de refugiados, escolheu a França como destino. Vive agora debaixo de um viaduto no Norte de Paris, em um acampamento de tendas, com centenas de outros emigrantes. Não fala francês, não tem trabalho, não tem dinheiro, seu único documento é o número de registro que recebeu na Itália. 

Eu desejei rever a terra em que nasci, não foi possível. Enquanto ditadura e pobreza continuarem por lá, Fitzum nem pensa em rever a sua.

Educadores de Caxias participam de evento literário com Marina Colasanti


A Unigranrio se prepara para promover o “VII Encontro de Leitura e Literatura Infantil e Juvenil”, que ocorrerá no campus I, dias 6 e 7 de maio, das 9 às 21 horas. Neste ano, a homenageada será a escritora Marina Colasanti, autora etíope que desde os 11 anos veio morar no Brasil. Ela é consagrada com mais de 40 livros, entre contos, crônicas, poesia e literatura, com ênfase na diversidade. Marina confirmou presença na abertura desse encontro, às 19 horas, no auditório principal, à Rua Prof. José de Souza Herdy, 1.160, bairro 25 de Agosto, Duque de Caxias. A escritora e contadora de histórias Hellenice Ferreira participará da mesa-redonda sobre a obra da autora, pela manhã. Estão previstas outras personalidades da literatura, além de diversos sorteios de livros. Entrada franca.

Marina Colasanti concorre ao Prêmio Nobel Hans Christian Andersen da Literatura Infantojuvenil, em março de 2016.

Marina, que servirá de inspiração para oficinas e para ações que ocorrerão no Espaço Marina Colasanti, concorre ao Prêmio Nobel Hans Christian Andersen da Literatura Infantojuvenil. O resultado será conhecido no primeiro dia da Feira Internacional do Livro de Bolonha (Itália), em março de 2016. Ela começou a publicar sua produção a partir de 1960. Com vasto conhecimento em Belas Artes, seus textos tangenciam histórias fascinantes, enriquecidos com sua técnica de jornalismo.

Cíntia Barreto, professora da Unigranrio, afirma que “Estas atividades contribuem com a discussão de temas pertinentes à Educação Contemporânea...”. 

Da vasta obra literária de Marina Colasanti destacamos “Uma Ideia toda Azul”, “Passageira em Trânsito”, “Cada Bicho seu Capricho” e “Naninquia – a Moça Bonita”. (“A Moça Tecelã” entre outros) Para a professora Cíntia Barreto – coordenadora do curso de pós-graduação em Literatura Infantil e Juvenil: leitura e ensino ¬–, o Encontro é importante como veículo de formação de público leitor, de atualização profissional e promoção de leitura literária em espaços escolares e não-escolares: “Estas atividades contribuem com a discussão de temas pertinentes à Educação Contemporânea e com o acesso aos livros, por meio de generosos sorteios, a bens culturais e a escritores de renome e de expressão de nosso país. Marina Colasanti acumula reconhecimento de premiações significativas como o Jabuti, entre tantos outros”, enumera Cíntia.

Trabalhos pedagógicos feitos com criatividade, competência, dedicação e afeto

Por outro lado, soma-se a tudo o que já foi dito a chance de inserir graduandos do curso de Pedagogia na criação de produtos que vão ao encontro das metodologias ativas aplicadas na Unigranrio. Durante os dias de programação, as professoras Cintia Barreto, Cristina Corais, Valéria Monção, Sônia Britto, Rute Cândida, Neide Ana e Haydéa Reis, que organizam o evento, promoverão mesas-redondas de alto valor intelectual, em que os alunos deverão elaborar os produtos a partir da leitura e compreensão das obras da autora homenageada neste ano. “Para tanto, foi criado o Espaço Marina Colasanti, organizado pela professora Valéria Monção, onde serão expostos produtos baseados nas obras dela, por alunos de Pedagogia, como quadros, banners, livros para educação especial, jogos e esculturas, com brincadeiras e planos de aula, sempre com participação de alunos de diferentes períodos”. A professora Sônia Britto coordena oficinas na parte da manhã e é responsável pela monitoria e participação mais direta dos alunos no evento.

P r o g r a m a ç ã o

Dia 6

9h – Abertura com oficinas, em frente ao auditório da Unigranrio, sob a coordenação da professora Sônia Brito.

10h – Mesa-redonda: participação de Neide Ana, coordenadora do curso de Pedagogia da Unigranrio; Ana Amorim, assessora de Comunicação do Museu Ciência e Vida, de Duque de Caxias; Hellenice Ferreira, escritora e contadora de histórias; e Maximiliano Torres, professor de Teoria Literária da UERJ/São Gonçalo. Cintia Barreto será a mediadora deste painel. 
19h - Mesa-redonda: Marina Colasanti, escritora; Haydéa Reis, diretora da Escola de Educação da Unigranrio; e Simone Paulino (ME-RJ). Mediadora: Cíntia Barreto.

Dia 7

10h – Mesa-redonda: participação de Amanda Guerra Lemos (SME-DC), e Marcelle Pereira Rodrigues, supervisora da Faetec. Mediação: Valéria Monção.

19h - Mesa-redonda: Inês Helena Muniz Garcia (UFF) e Jurema Rosa, professora da Unigranrio. Mediação: Cristina Corais, professora da Unigranrio.

Sorteio do Livro do Mês Hora de Alimentar Serpentes


"Hora de Alimentar Serpentes" é o livro do mês de maio no Marina Manda Lembranças e iremos sortear um exemplar dessa publicação que foi lançada em 2013 para os seguidores do MML no facebook

Para concorrer é só curtir a nossa página do facebook e compartilhar a imagem da promoção em seu perfil.

Resultado da promoção dia 30 de maio!

Carlos Drummond de Andrade escreveu à autora em 24 de janeiro de 1975: "Sua contenção verbal chega ao máximo: não há um sinal de mais ou de menos. É uma concentração explosiva de elementos, que de fato explodem na prosa mais seca e mais vibrante, deixando a gente deslumbrada." A força de concisão da linguagem de Marina atinge um novo patamar neste Hora de Alimentar Serpentes, no qual a autora nos tira a todo instante de nossa zona de conforto e nos lança impiedosamente em zonas de confronto. 

Crônica de Quinta: Sem que seja por acaso

Biblioteca Virgilio Barco

Cheguei de uma viagem a Bogotá, saí na manhã seguinte para Barbacena onde estou agora. No aeroporto em Bogotá comecei a escrever esta crônica, mas a mão, num pedaço de papel, porque não encontrava posição com o computador no colo. Já no Rio separei o pedaço de papel mas, ainda no Rio, o esqueci sobre a mesa no meu escritório. Sem papel, mas com uma memória ainda parcialmente decente, vou tentar reconstruir a viagem.

O motivo primeiro de minha ida a Bogotá era lançar, na Feira do Livro, a edição colombiana do meu “Breve história de um pequeno amor”. Mas a vida, felizmente, é cheia de motivos segundos, que me levaram a agir também pelas laterais.

É uma bela Feira a de Bogotá. Multidões, filas para entrar nos pavilhões onde acontecem as mesas, as palestras, os lançamentos, filas para comer, filas para tudo. Detesto filas em qualquer outra ocasião, mas nas feiras de livro são uma alegria. E essas filas não são obra do acaso.

Em um dos meus dias de permanência na cidade, estava agendada uma palestra em uma das Bibliotecas municipais. A Colômbia é conhecida pelas excelência de suas bibliotecas., só em Bogotá são 16 ( se estiver errando o número, para menos, debitem ao papel esquecido sobre a mesa), grandes, não só grandes, mas de espaços generosos, uma alma arquitetônica circular, muito vidro obedecendo a uma nova política de bibliotecas abertas para o exterior e não fechadas sobre si mesmas, rodeadas de jardins – a minha tinha até espelho d’ água em cascatas. E muitas, constantes atividades gratuitas.

Na sala infantil onde falei, fui recebida por criancinhas e um grande dragão vermelho de papelão. Aos poucos foram chegando adultos. Entre eles, um belo grupo de universitários, estudantes de design gráfico que, guiados por um professor, estavam empenhados num trabalho de criação literárias: tendo recolhido em comunidades carentes histórias contadas pelos moradores, teriam agora que recriá-las de modo a fazer delas outras histórias. E havia professores e donas de casa, gente de diversas idades e profissões. Foi uma bela conversa.

No dia seguinte, estava escalada para visitar um Clanes, e falar com os promotores/professores de literatura. Os Clanes são centros criados para compensar, nas áreas periféricas , o turno único da escola primária pública, que só ocupa as crianças até o meio dia. O intuito é, não só evitar que fiquem flanando desocupadas à tarde enquanto os pais estão no trabalho, como complementar a educação que, como também entre nós, é puramente formal e não inclui as artes ( quando eu estudei, havia trabalhos manuais no currículo, e desenho, e música). Agora, duas vezes por semana as crianças são levadas aos Clanes mais próximos de suas escolas, onde podem escolher entre música, teatro, dança, desenho e literatura.

Oito jovens professores e professoras estavam à minha espera, e durante quase duas horas falamos de livros, de poesia, de literatura para a infância, do acesso ao livro, do entorno cultural, do papel – e da concorrência- das telinhas de qualquer tamanho. Depois, no carro, regressando ao centro da cidade e aproveitando o engarrafamento, continuamos com a mesma conversa que nunca se esgota, porque queremos, queremos tanto fazer crianças leitoras.

No domingo havia multidões na Feira. Bogotá tem 11 milhões de habitantes, e parecia que estavam todos lá, não só para tirar selfies e fotos com os escritores, mas para ver e comprar livros. Certamente, esse interesse não é obra do acaso.

Projeto Tim Grandes Escritores 2015


Como parte do programa TIM ArtEducação, Barbacena e Lavras recebem neste mês a edição 2015 do projeto TIM Grandes Escritores com a escritora Marina Colasanti e a atriz Cássia Kis Magro. “O projeto TIM Grandes Escritores é realizado há 12 anos pelo Brasil e agora está voltando para Minas Gerais, pois além de ser um projeto inovador e maravilhoso para a população, proporciona momentos mágicos. A nossa escritora convidada, Marina Colasanti já participou outras vezes do projeto e a atriz Cássia Kis Magro fará sua estreia com toda a sua elegância e competência. Estamos em êxtase e com uma grande expectativa para o grande dia”, explica Marcelo Soares de Andrade, idealizador do TIM ArtEducAção.

Eu sei mas não devia por Antonio Abujamra


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.



A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E porque não tem vista, a gente logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz.
E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar o café correndo porque está atrasado.
A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá para almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma à poluição.
Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto se acostumar, e se perde de si mesma.