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Cerimônia de entrega do 56º Prêmio Jabuti no Teatro do Ibirapuera





56º Prêmio Jabuti (18/11/2014)
São Paulo/SP - 18/11/2014 - Cerimônia de entrega do 56º Prêmio Jabuti no teatro do Ibirapuera.
Foto: Daniel Deák

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Crônica de Quinta: Bicicletas na estrada

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 27 de novembro de 2014




Pegamos as bicicletas, e fomos. As bicicletas não eram nossas, mas alugadas na lojinha muito modesta da cidadezinha mais modesta ainda. Não correspondiam exatamente ao nosso tamanho, eram as que havia disponíveis.

Saímos assim que clareou. Nós também clareávamos, sorrindo à aventura. Três amigas em férias, hóspedes no sítio de uma delas. Três adolescentes que como boas meninas se despediram da única mãe presente, prometendo tomar cuidado e dispostas a não fazê-lo.

Nosso plano era simples: sair de Conselheiro Paulino, perto de Nova Friburgo, pedalar pela estrada até Bom Jardim, e de lá embarcar de volta no trem –sim, havia trem-, descer em Conselheiro, devolver as bicicletas na loja e caminhar até o sítio. Pretendíamos estar em casa depois do almoço. A distância equivalia a 15 quilômetros, não parecia muita coisa.

Alguns detalhes, porém, se infiltrariam no nosso plano. Primeiro detalhe: nenhuma de nós era ciclista ou sequer amiga de bicicleta. Segundo detalhe: a estrada não era asfaltada, mas de terra. Terceiro detalhe: não conhecíamos o percurso, nunca o havíamos percorrido, sequer de carro.

Subimos no selim. Detalhes não são levados em conta quando se tem a vida pela frente, e nas primeiras pedaladas tudo foi riso e ameaça de cair. Logo tomamos o ritmo. O ar era fresco, nossos cabelos estavam presos, ainda não se usava protetor solar.

Alguns quilômetros passaram sob as rodas. O ar já não era tão fresco. O trânsito de caminhões aumentava, e não podíamos mais pedalar com folga na estrada. Ao ouvir o aproximar-se de um carro ou caminhão vindo de trás, prudência mandava chegar junto ao barranco. E junto ao barranco a poeira acumulada formava uma duna corrida em que a bicicleta atolava ou derrapava. No alto dos caminhões os homens sorriam, por vezes nos ofereciam carona. Nós sorriamos de volta agradecendo e fazendo que não. Ainda existia gentileza nas estradas.

Não havíamos previsto a supremacia das subidas, sempre mais longas que os modestos declives. Mas, embora de fôlego curto, ríamos a cada nova ladeira, amaldiçoando em voz alta a topografia. Os cabelos haviam se soltado.

Ainda não era hora do almoço quando chegamos a Bom Jardim. O trem demoraria a passar.

E se fossemos até Cordeiro? Não sei de quem foi a ideia, mas assim que surgiu, tornou-se de todas. A menos esportiva, justamente aquela a quem tocara a bicicleta menor, teria preferido não ir, mas só o disse alguns anos depois. Sabíamos que Cantagalo era adiante, na mesma estrada, não nos preocupamos com a distância. Novamente subimos no selim que havíamos abandonado para dar uma volta na praça. E fomos.

Agora parecia só haver subidas, e íngremes. Além das dunas de poeira, costeletas. E o sol exacerbando. A da bicicletinha padecia, dentes trancados, pedalando sem queixa. Já não ríamos nem amaldiçoávamos a topografia, havíamos tornado a prender os cabelos sobre as nucas suadas. Dos caminhões que passavam, alguns tinham sabido em Bom Jardim da nossa façanha – não era comum três mocinhas pedalarem grandes distâncias no mundo rural – e nos incitavam a abandonar a empreitada, que subíssemos na caçamba, nos levariam e às bicicletas. Recusávamos a contra gosto, não por medo de estupro – a prática ainda não era um costume - mas por orgulho. Aquilo que havia começado como um passeio se tornava uma questão de honra. Continuar de bicicleta até o fim era uma imposição sem sentido, mas inabalável.

E afinal, como deus quis, ou seja, semi mortas, chegamos a Cordeiro. Ainda algumas pedaladas furiosas para alcançar a estação, justo a tempo de jogar as bicicletas no trem leiteiro das 18:40, pagar, e pedir ao maquinista que as deixasse na parada de Conselheiro Paulino. Nós, sem forças, ficamos.

Arrastamos os pés até a igreja, entramos naquele frescor sombrio como quem entra em uma piscina, e arreamos, cada uma em um banco.

Dormimos durante horas. Depois conseguimos uma carona. Fomos até Conselheiro, e dali, a pé como programado, até o sítio. A hora da volta havia passado há muito, mas ninguém ralhou com as três heroínas que regressavam. Havíamos vencido 50 quilômetros, no pedal.

O Leitor Manda Lembranças: Renato Coelho

Lendo o premiadíssimo livro Breve Histórias de um Pequeno Amor.
Imagem: Douglas Galindo

Entre Margens: Encontro com a Literatura


A Literatura de Juazeiro e Petrolina em provocação. É a partir deste tema, que o Sesc Petrolina dá início, nesta segunda-feira (24), às 15h, no Teatro Dona Amélia, ao projeto Entre Margens: encontro com a literatura. Para a mesa de abertura, foram convidadas a mestre em Teoria Literária Elisabet Moreira e a historiadora Odomaria Macedo, com mediação da poeta Cida Pedrosa. Na sequência, às 20h, o Núcleo de Teatro do Sesc apresenta o recital Palavras Andantes.

Daí em diante, a programação segue com recitais, mesas redondas, intervenções, lançamentos, relançamentos de obras literárias e a presença de nomes importantes da literatura nacional, a exemplo da jornalista, pintora e escritora com mais de 50 livros publicados, Marina Colasanti, que fará uma palestra às 20h, na terça-feira (25), também no Teatro Dona Amélia.

Foto: Fabiana, Marina e Alessandra

Foto: Prêmio Jabuti 2014

O grande prêmio do ano foi da escritora Marina Colasanti, com o livro "Breve História de um Pequeno Amor", que recebeu o Jabuti Dourado das mãos da ministra interina da Cultura, Ana Wanzeler. (Fotos de Janine Moraes)

Crônica de Quinta: Taxi e bolhas de sabão

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 20 de novembro de 2014




Entrei no taxi, o motorista perguntou aonde íamos, comecei a explicar como alcançaríamos o meu endereço, fui interrompida peremptoriamente.

- Não precisa me dizer nada, quero só o nome da rua e o número.

Depois de alguns minutos, com manifesto orgulho na voz, acrescentou.

- Tenho Wave!

Pausa exultante .

- O Wave me mostra o melhor caminho, evita engarrafamentos, problemas de trânsito, tudo.

Pausa.

- Não vivo mais sem ele!

Parecia um anúncio do aplicativo.

Seguimos pelas ruas indicadas na telinha. Estavam, de fato, desimpedidas. Assim mesmo, tivemos que parar em um sinal - Wave não tem como evitar sinais fechados, mas suspeito que breve chegaremos a isso.

Entre os carros parados, um ambulante oferecia uma pequena engenhoca, um brinquedo. Uma baleia de plástico azul apoiada numa espécie de empunhadura com um gatilho. Era apertar o gatilho, e liberar um enxame de minúsculas bolas de sabão. Digo sabão, mas é possível que fosse outro produto.

Um fato ligou-se ao outro.

Concordo, é cômodo evitar engarrafamentos. Sobretudo para quem passa o dia inteiro ao volante. Mas deixar-se guiar como cego implica algumas perdas. E podem ser importantes.

Havia um orgulho outro nos antigos taxistas. Não era por algo comprado, mas por conhecimento adquirido. Palmo a palmo, de uma rua a outra, de um a outro endereço, o mapa da cidade ia se imprimindo progressivamente na memória, até completar-se, indelével. Era uma espécie de mestrado da profissão. Ou um certificado oculto de posse. Um bem. E uma fruição.

Tive algo próximo dessa sensação ao fazer meu exame de motorista. Naquele tempo longínquo, era quesito obrigatório saber as mãos das principais ruas da cidade. Uma cidade menor, é bom dizer, mas ainda assim, grandíssima e cheia de ruas principais. Decorava-se um livro inteiro. Era isso, ou não ter direito de dirigir. Decorei, passei no exame, e durante uma semana ou pouco mais - o tempo de esquecer - me senti poderosa proprietária do labirinto urbano.

O taxista do Wave está feliz. Dirige com um olho colado no carro da frente ou erguido às vezes para ver os sinais, e o outro preso na telinha-guia. Vai assim de um bairro a outro, sem que nada lhe seja exigido, nem sua esperteza, nem seu conhecimento, nem sua experiência. Tem que saber apenas trocar marchas - se não tiver carro hidramático- acelerar e frear. Nada além daquilo que qualquer motorista principiante sabe fazer. Sua inteligência deixou de ser necessária.

As bolinhas de sabão também comportam uma perda. Não pequena. São graciosas, sem dúvida, mas por quanto tempo conseguem manter o interesse de uma criança, se saem prontas e tudo o que se tem que fazer é apertar um gatilho? Soprei muita bola de sabão na infância, sabão mesmo. Era coisa de grande concentração. Havia que soprar devagar, para prolongar o encantamento de dar-lhe vida e para que não estourasse logo. Depois, soltá-la com uma mínima sacudida do canudinho ou do círculo e vê-la flutuar aérea e livre, até romper-se contra o primeiro obstáculo. Não era brincadeira para se fazer sozinho, e sim com outros, quando ao prazer estético e mágico se acrescentava a disputa pela bola maior, pela maior permanência no ar. Nenhuma criatividade, nenhuma habilidade são necessárias para manejar a baleia azul. Quando muito, será usada como arma de super herói, lançando bolinhas no olho do outro, na esperança de que arda.

Affonso Manda Lembranças: Marina duas vezes premiada

Além de ganhar o primeiro com Breve Historia de Um Pequeno Amor, Marina recebeu o prêmio de LIVRO DO ANO, pela mesma obra. Outro vencedor foi Laurentino Gomes.

Renato Coelho Manda Lembranças: Marina na 56ª Edição do Jabuti

Renato Coelho, nosso amigo e leitor do MML, estava na cerimônia de premiação da 56ª edição do Jabuti e registrou alguns momentos em que Marina Colasanti era homenageada. Confira as fotos abaixo. Legendas, do próprio Renato.

Vejam a ganhadora, do Prêmio Livro do ano Ficção, no palco do Jabuti: Marina Colasanti!
Este é o momento em que Marina soube que era a grande escritora do ano, e abraça Affonso. Emoção!
Marina no palco do Jabuti!
Luzes para Marina!

Renato Coelho com Cintia Medina e Marina Colasanti

Crônica de Quinta: De bico quebrado

Marina Manda Lembranças, quinta-feira, 13 de novembro de 2014


 

Fui à Escola Dyla, em Cidade de Deus, e se reacenderam minhas esperanças. Ok, na saída quebrei o nariz, tive que operar, escrevo agora de focinho engessado. O acidente, entretanto, em nada altera o meu entusiasmo.

Dou o nome completo para localizar melhor: Escola Municipal Profa. Dyla Silvia de Sá. E esclareço que o endereço não é exatamente em Cidade de Deus, mas junto à fronteira com Pechincha, sendo considerada uma escola de Cidade de Deus porque de lá vêm a grande maioria dos alunos.

Fui a convite da professora Mariana Fragale, como homenageada de uma Feira Literária, a FLED, que está em sua segunda edição. Conversei com várias turmas de crianças. Depois assisti a um espetáculo lítero/musical apresentado por 12 pessoinhas de quatro anos, vestidas de amarelo, com orelhas postiças e o rosto maquiado de leão. Algumas babavam um pouco por causa das dentaduras postiças de fera ( ou de fera postiça), e todos tiveram que tirá-las para poder recitar, cantando, um poeminha meu sobre o rei dos animais. Percebo agora que não tinham caudas, e parece-me sábio, pois a professora certamente sabia que se embaralhariam nelas se as tivessem.

Tudo isso é gracioso, mas poderia ter acontecido em qualquer escola. Só depois, conversando com a diretora Maria Ângela Garcia, soube que justamente este ano, a Dyla deixou de ser uma escola qualquer.


Agora faz parte de um grupo de sete escolas diferenciadas, bilingues, que atendem crianças de 4 a 12 anos, em horário integral. Isso significa várias coisas. Significa alimentação balanceada e quase completa, porque as crianças recebem café da manhã, almoço, e um lanche reforçado. Significa, obviamente, uma escolaridade melhor, mais tempo para o aprendizado, e também para leitura e arte. Significa proteção, porque o dia transcorre sob os cuidados das professoras e, chegando em casa já cansadas essas crianças logo irão dormir, sem espaços vagos para brincar na rua, observadoras ainda frágeis de uma brutalidade que não convém aprender. Significa afeto, pois como afeto é vivido pelos pequenos o cuidado com que uma professora se ocupa do seu aluno.

E temos o bilinguismo. Maria Ângela me explicou que não se trata apenas de ensinar outra lingua formalmente, mas de inserir essa língua em todas as atividades, de maneira a facilitar a assimilação, tornando-a parte natural do dia a dia.

Expliquei tanto e teria sido suficiente dizer que a Escola Dyla foi selecionada, com outras seis, para realmente educar. Não é fácil, me disse Maria Ângela. Todos estão tendo que se adaptar à nova proposta. Não só as crianças. As professoras também buscam caminhos para esse novo papel tão mais importante do que o de uma "tia"por poucas horas diárias.

Minha visita havia acabado e já nos preparávamos para sair, quando paramos para mais uma foto. Uma foto que acaba sempre sendo duas ou três ou quatro, e mais uma para garantir. Afinal, findos os cliques, dei um passo em direção à porta. Porém, bem diante do meu pé havia um menininho de quatro anos, inesperadamente deitado no chão após um longo escorregão sobre o piso. E eu caí de cara no cimento.

Quebrei o bico. Mas isso é nada quando penso que as crianças da Dyla estão ganhando as asas.

Edição espanhola: Cuentos de amor rasgados


Foto: Alessandra e Marina