Postagens em Destaque

Crônica de Quinta: Nunca foi de outro modo


Estado de Minas, quinta-feira, 28 de março de 2013



No Afeganistão, duas jovens irmãs se suicidam a poucas horas de distância uma da outra. Na China, “Caçadoras do amor” procuram mulheres sob medida para casamentos milionários. Em Paris, 300 mil pessoas fazem manifestação que acaba em confronto, contra o casamento gay. O que tem essas notícias em comum? Poderíamos dizer que os três fatos se ligam através da paixão. As irmãs se suicidam porque a mais moça estava apaixonada por um rapaz que não tinha a aprovação da família. A caçadora do amor busca uma esposa para um homem que, tendo dinheiro e não podendo parar de ganhar ainda mais, não encontra tempo para buscar a paixão que completaria a sua vida. E os 300 manifestantes não aceitam que a paixão homossexual seja igual à heterossexual, e como tal deva ser tratada.

Entretanto, o laço que faz das três noticias um mesmo fato é outro.

No hospital de Mazar-i-Sharif, no Afeganistão dão entrada diariamente três ou quatro moças suicidas. Tomam veneno de rato, como as duas irmãs, ou fazem tentativas mal sucedidas, mais como protesto ou pedido de socorro do que como busca da morte. A vida moderna chega a Mazar através da televisão e da internet, penetra nas casas e no imaginário das moças. Mas a sociedade em que elas vivem tem outros costumes, antigos, ditados por homens. Esmagadas entre o desejo natural de viver os novos tempos, e a pressão extremamente repressora da família e do entorno social, as moças de Mazar encontraram no suicídio uma porta de saída.

No final desta década, haverá na China 24 milhões de homens solteiros, sem mulher disponível. É, em grande parte, resultado da política governamental do filho único. O desequilíbrio, que já se faz sentir intensamente, provocou o surgimento de empresas matrimoniais de alto nível, e o multiplicar-se dos “mercados de casamento”, pontos de encontro urbanos, ao ar livre, onde pais ou parentes mais velhos tentam negociar casamento para seus filhos. A modernidade levou os homens do campo à cidade, apressou seus tempos, afastou-os da família e privou-os de mulher. A antiga tradição dos casamentos arranjados vem agora em seu socorro, sob nova roupagem.

A manifestação de Paris contraria o desejo da maioria. Não só o projeto “Matrimônio para todos”foi aprovado pela Assembléia Nacional francesa por 329 votos a 229, como, de acordo com as pesquisas, 51% dos franceses são favoráveis à medida. Ainda assim, os 49% restantes estão convencidos de que os tempos modernos são de desrespeito e que o casamento gay é uma ameaça à família.

Temos, nos tres casos um mesmo choque entre o novo e a tradição, entre a manutenção dos velhos costumes e a adoção do tipo de vida gerado pela modernidade. As vantagens - internet, redes sociais, telefoninho, cinema em 3D, acessórios, grifes - todos querem. As mudanças encontram sempre muros pela frente.

Ser conservador é acreditar que a própria identidade está amalgamada com os costumes, e que perdê-los acarretaria o desmoronamento de todo o edifício identitário. O comportamento novo é visto como um ET que chega para sugar almas e apossar-se dos corpos. Combatê-lo torna-se uma questão de sobrevivência.

Alivia-nos saber que nunca foi de outro modo. E que, desde o tempo das cavernas até nossos dias, o novo sempre acabou vencendo.

Marina no Encontro Nacional de Polos de Leitura

 
 
Acontece na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, entre os dias 1 e 5 de abril, o Encontro Nacional do Programa Prazer em Ler – Polos de Leitura “Um por todos e todos por um Brasil de leitores!”. Promovido pelo Instituto C&A, com apoio da Fundação Municipal de Cultura da cidade, o evento pretende reunir cerca de 150 pessoas, entre membros de organizações sociais apoiadas pelo programa e público em geral. A proposta é debater questões como a leitura, o livro, a construção de acervos literários de qualidade, o papel da biblioteca e as políticas públicas voltadas para o livro, a leitura e as bibliotecas.
 
A programação da edição 2013 do Encontro Nacional do Programa Prazer em Ler – Polos de Leitura traz painéis com escritores, ilustradores e profissionais que atuam na área do livro e da literatura. A abertura oficial do evento, que ocorre às 19h20 do dia 1º de abril, será realizada por Paulo Castro, diretor-executivo do Instituto C&A. Em seguida, o público poderá acompanhar o painel “Leitura: direito de todos”, com os escritores Affonso Romano de Sant’Anna e Marina Colasanti.



Antes de volverme gigante


Traducción de María Teresa Andruetto


Cuando yo era chica
los corredores eran largos
las mesas altas
las camas enormes.
La cuchara no cabía
en mi boca
y el tazón de sopa
era siempre más hondo
que el hambre.
Cuando yo era chica
sólo gigantes vivían
allá en casa.
Menos mi hermano y yo
que éramos gente grande
venida de Lilliput.


Antes de virar gigante


No tempo d'eu menina
os corredores eram longos
as mesas altas
as camas enormes.
A colher não cabia
na minha boca
e a tigela de sopa
era sempre mais funda
do que a fome.
No tempo d'eu menina
só gigantes moravam
lá em casa.
Menos meu irmão e eu
que éramos gente grande
vinda de Lilliput.

O Nome da Manhã em Anuário apresentado no Congresso em Bogotá


Veja só que comentário mais simpático saiu no Anuário que a Fundação SM apresentou no congresso de Bogotá, o CILELIJ.


Item 4- Poesia, entre o lúdico e o subjetivo
... 2012 proporcionou um reconfortante encontro com obras líricas de mérito inquestionável, que evitaram os lugares comuns e apostaram , em alguns casos, na exploração de temas, pontos de vista e tratamentos formais pouco freqüentes. Um magnífico exemplo é “O nome da manhã”, coleção de poemas da brasileira Marina Colasanti, ilustrado pela própria autora, publicado por Global Editora em São Paulo. O leque de temas deste livro abrange , com uma liberdade e uma agudeza notáveis, desde a menstruação ( “Coisa bonita”), tratada com a delicadeza e a capacidade sugestiva que caracterizam Colasanti, até a tragicômica impossibilidade de um faquir para encontrar o sono em uma cama macia ( “O faquir quer dormir”), a reflexão filosófica sobre a constante obsessão contemporânea em ganhar tempo ( “Correria sem serventia”) ou o delicado instantâneo da garça ao levantar vôo sobre a água ( “Branca alada”).


O Nome da Manhã
Editora Global
São Paulo, 2012.

Crônica de Quinta: Um tal de Francisco


Estado de Minas, quinta-feira, 21 de março de 2013


Pela segunda vez, Francisco está em Roma. A primeira aconteceu em 1210, quando o frade de Assis, acompanhado por seus doze primeiros discípulos, buscou com o papa Inocêncio III aprovação para a primeira Regra dos Frades Menores. Não foi bem recebido. Era ainda um leigo, vestido pobremente, que pregava a aplicação integral do Evangelho, quase um insulto para a cúria rica e arrogante diante da qual se apresentou.

Conta o cronista inglês Mateus Paris que com “sua pobre túnica, sua cabeleira em desordem e suas imensas e negras sobrancelhas” foi confundido por Inocêncio III com um guardador de porcos. “Deixe-me tranqüilo com tua regra.”- lhe disse- “ Vá primeiro reencontrar teus porcos e pregar-lhes todos os sermões que queiras”. Francisco obedeceu, foi até uma pocilga, revirou-se na lama fétida, e voltou. “Senhor, agora que fiz o que me tínheis mandado fazer, tenha por sua vez a bondade de me conceder o que solicito.” Assim, conseguiu Francisco uma nova audiência.

Modesto e obediente, o “Poverello” revelou-se no episódio um bom político. E foi recompensado porque, entre um e outro encontro, Inocêncio teve o famoso sonho em que viu a basílica de Latrão inclinar-se como se fosse desabar, sendo sustentada por um religioso “pequeno e feio”. E talvez cheirando a esterco de porco.

Jorge Mario Bergoglio nem precisou ter um sonho para ver o colossal edifício da Igreja em péssimo estado. Não apenas por amor aos pobres escolheu o nome Francisco, mas porque sabe que lhe cabe a tarefa de botar ordem na casa e restabelecer o equilíbrio. Esse nome aparentemente simples, tão cheio de significados que pode ser considerado um motto, ecoou imediatamente no mundo como um plano de pontificado.

Em sua primeira audiência com jornalistas, papa Francisco não usou os tradicionais sapatos vermelhos. Não houve quem não reparasse, o significado da escolha era claro. Bergoglio calçou seus velhos sapatos pretos de cadarço.

Os sapatos vermelhos da tradição representam o sangue dos mártires, e usá-los significa estar disposto ao sacrifício. Mas tudo tem sempre mais de um significado, e a tradição dos muleos – assim se chamam- remonta à Roma antiga, quando só podiam ser usados por patrícios e senadores de primeira ordem. Algo de poder ficou guardado nessa pisada de sangue confeccionada sob medida. Francisco, o de Assis, caminhou muito, pregando descalço. Só na Segunda Regra admitiu para seus frades o uso de calçados, e ainda assim, apenas em caso de necessidade. O calçado que os franciscanos adotaram era o mais pobre de todos, aquele com duas tiras sobre o pé, que não aquece no inverno, e só viria a perder em simplicidade para a sandália japonesa.

Vi duas roupas que pertenceram a Francisco de Assis, uma em Assis, outra em Cortona, na igreja de São Francisco. Eram ambas claras - ao contrário da cor parda do burel tradicional- , o mais próximo de branco que se podia alcançar naquele tempo, com aquela lã rústica ainda tão irmã da ovelha. Remendadas, cerzidas, muitas vezes consertadas. E pequenas, como se de garoto. São as roupas que ele se permitiu usar quando muito doente e tomado por dores, já perto da morte.

É provável que papa Francisco se veja constrangido a usar um par de sapatos novos. Mas vermelhos, só trocando de nome.

A Moça Tecelã: Curso de Dança Criativa do Núcleo Atmosfera de Dança


A Moça Tecelã (conto de Marina Colasanti e nome da coreografia) foi aprensentada na IV Semana Maranhense de dança. Esta coreografia faz parte do espetáculo "Debaixo da Pele, a Lua", criado pelos alunos do curso de dança criativa, sob a direção de Leônidas Portella e assistência de direção de Marina Corrêa e Neusa de Paula.



Marina Colasanti e Clarice Lispector


Marina Colasanti e Clarice Lispector na ocasião do lançamento de um dos livros da Clarice no início da década de 60.

Veja também o vídeo Clarice por Marina

Marina na coleção Palabras Rodantes


Foi lançado, em Medellin, o livro "Con su voz de mujer" da Marina Colasanti na coleção Palabras Rodantes. São livrinhos distribuídos gratuitamente nas estações de metrô, para serem lidos durante o percurso e devolvidos na estação de chegada. A seleção dos contos foi feita pela própria escritora e as ilustrações contidas também são da Marina.


Crônica de Quinta: Reunidos ao redor do livro


Javier Ruescas

Estado de Minas, quinta-feira, 14 de março de 2013


Escrevo de Bogotá, meu avião sai daqui a poucas horas, o CILELIJ acabou, volto para casa. A sigla significa Congresso Ibero- americano de Língua e Literatura Infantil e Juvenil. Este é o segundo. O primeiro, em Santiago, 2010, foi finalizado de forma dramática pelo terremoto. O terceiro acaba de ser anunciado, será em 2016, no México.

Quando se fala em literatura infantil, quem não é da área pensa logo em livrinhos coloridos, Disney, histórias de bichos meigos e crianças bochechudas. Pensa um pouco em chatice, um pouco em gracinha, miudezas. Mas não foi de miudezas que tratamos ao longo desses três dias de trabalho.

Especialistas, autores, editores, ilustradores, se reuniram para avaliar a produção e traçar rumos daquela que é a literatura formadora por excelência. Tratava-se de analisar o futuro e o presente do livro, os novos formatos. Três eixos conduziram os trabalhos: a vida privada ( família, amor, amizade, corpo e sexualidade, etc...), a vida pública ( escola, cidadania, dimensão política, emigração, violência, etc..), a transcendência ( fé, morte, esperança, religião criatividade, utopias, etc..).

Foi um belo congresso, de nível acadêmico muito alto. Coisa rara nessas ocasiões, saímos todos contentes. E, coisa mais rara ainda, como foi dito na cerimônia de encerramento, “não houve passeios de ego”.

Desses três dias em que tanto ouvi, destaco o mais jovem dos autores, uma espécie de mascote do time espanhol, Javier Ruescas, não por ter tido importância maior, mas por ser o mais próximo daqueles novos formatos que queríamos discutir.

Com seus 25 anos, Javier não é nem tão jovem, mas é autor de romances juvenis, diretor de sites, diretor de uma revista digital dirigida aos jovens. Seu público principal se conta em acessos. “O livro de papel não vai desaparecer, - disse- permanece nas mãos dos jovens, como permanecem os posters dos ídolos nas paredes dos seus quartos. É parte do seu mundo.” Podemos crer – porque ele não chegou a explicitá-lo- que o objeto livro se torne então uma espécie de fetiche, transmissor da presença ilusória do autor.

Os leitores de Javier não precisam de ilusão, estão com ele quando querem, através da internet, são íntimos. Não só pela facilidade do contato, mas porque têm aproximadamente sua mesma idade e seus mesmo interesses, a conversa acontece de igual para igual, ele dá dicas – de criação e de mercado editorial- , eles fazem críticas e imitações, elaboram variantes nos fan fiction. Tudo são vasos comunicantes. “Se preferem outro final, é justo que mudem, que inventem outro”. Ouvindo o jovem autor, tem-se a impressão de uma geração “vampiros” muito solar.

E os emoticons, perguntou alguém do público, servem como recurso literário? Não para ele. Muito práticos para a comunicação corrente, muito divertidos. Mas na hora de ler e na hora de escrever não vale tomar atalhos, a força dos sentimentos só acontece através da descrição em palavras.

Declarou-se um clássico filho de Harry Potter, “Cresci com ele, lendo toda a série desde menino. Me ensinou muita coisa, sobre a amizade, sobre mim mesmo .” Pouco antes, com boa dose de coragem, havia dito, ”Não sei o que é literatura. Não sei o que não é literatura. Mas sei que escrever e ler me faz bem”.

Marina Colasanti por Rafael Castilho


Retrato de Marina Colasanti (fotógrafo Rafael Castilho), Mesa de Abertura - Conversas ao Pé da Página III - 2013

Mesa de Abertura do Conversas ao Pé da Página 2013


Marina Colasanti e Gustavo Martín Garzo

"Não existe 'o' leitor. Existem 'os' leitores. Há muitos tipos de leitores" (Marina Colasanti)

O Leitor Também Manda Lembranças: 'Uma Ideia Toda Azul'



Uma Ideia Toda Azul - Magia e sensibilidade

Quando menino, já apaixonado pelas histórias escritas, costumava explorar os livros didáticos de língua portuguesa que eu e meus irmãos recebíamos na escola, em busca de contos e crônicas interessantes. Havia em alguns livros a "seção suplementar", que geralmente nunca seria abordada pelos professores. Ainda assim,.quantos textos deliciosos conheci nesse exercício de "caçador de histórias"!

Foi numa dessas solitárias incursões que encontrei o conto "Uma Ideia Toda Azul", que falava sobre a cruel passagem do tempo e seu poder de nos separar de nossos sonhos. Lembro-me que meu coração menino ficou angustiado com o destino do rei, protagonista do conto. Sentia em mim sua melancolia, sua falta de talento para a felicidade. Ao mesmo tempo sonhei como ele, brincando também com a ideia azul pelos jardins do palácio real.

Outro conto que naquela mesma época havia me comovido foi "Por trás do bastidor", onde uma menina bordadeira dava forma e substância a seus sonhos através da linha do bordado.

E muitos anos depois descobri que ambos os contos não apenas são da mesma autora, como também fazem parte do mesmo livro, cujo título é, justamente, Uma Ideia Toda Azul. Essa descoberta permitiu um recorrente mergulho no mundo onírico e belo de Marina Colasanti.

Escritos e publicados em uma época de transição, em que os efeitos da revolução feminina ainda eram tênues e pontuais aqui no Brasil, a voz forte e segura dessa grande mulher assumia um tom de denúncia sobre a condição feminina, mas também sobre as infinitas possibilidades que estão diante de toda a humanidade, nas potencialidades de cada pessoa, especialmente da mulher, única e exclusiva senhora de seu destino.

Assim, neste dia tão importante, quando celebramos a luta pelo fim da violência contra a mulher e pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, considero de grande importância lembrar dessa obra de Marina Colasanti, exemplo que a boa literatura pode muito bem ir além da beleza estética, assumindo uma voz de consciência, sem comprometer sua qualidade.


Ficha Técnica I.S.B.N.: 852601109X
Editora: Global
Acabamento : Brochura
Edição : 23
Número de Paginas : 61
Prêmios:

• APCA - Grande Prêmio da Crítica 1979
• FNLIJ - O Melhor para o Jovem 1979


Conversas Ao Pé da Página III: Que leitores e que leituras?




Quarta estarei em São Paulo, para fazer uma mesa com o escritor espanhol Gustavo Martin Garzo, no "Conversas ao Pé da página III", sobre o tema "Que leitores e que leituras?" com mediação de Dolores Prades e Patrícia Leite.




Na próxima quarta-feira, 13/03, às 19h30, o SESC Vila Mariana (Rua Pelotas, 141, Vila Mariana, São Paulo, SP. Tel.: 11 5080-3000) receberá mais uma edição do Conversas ao pé da página, um encontro em torno dos temas da leitura e da formação de leitores, com a presença de figuras de destaque nacional e internacional em diversas áreas afins. O primeiro encontro de 2013 contará com a presença de Gustavo Martín Garzo e Marina Colasanti. Em 2013, os seminários acontecem em três encontros de dois dias, nos meses de maio, agosto e setembro. As inscrições para os encontros de maio podem ser feitas a partir de 14/3, pelo site. Mais informações pelo telefone 11 3473-4805 ou pelo email conversapepagina@acordaletra.com.br. A entrada é franca. Acesse o site para mais informações.

Un amigo para siempre (tradução para o espanhol de María Teresa Andruetto)



Esta es una historia real. La historia de Luandino Vieira, escritor de Angola que luchó por la independencia de su país. Pero es una historia tan linda que a mí me gustaría haberla inventado.

Porque pensaba diferente de los que gobernaban su país, aquel hombre estaba preso.

Permanecía solo en una celda. Una vez por día iban a buscarlo y lo llevaban a tomar sol. Era importante que tomara sol, para no morir. Los que lo tenían preso no querían que muriese.

Allá afuera había una especie de gran jardín rodeado de muros altos, y vigilado. En verdad, no era un jardín, porque no tenía canteros. Pero era, sí, un jardín en el pensamiento del hombre, porque tenía flores, los árboles diseñaban manchas de sombra en el suelo, y había pájaros.

Todos los días, entonces, el hombre recogía la felicidad que era capaz de conseguir, y esperaba la hora de la salida. Estaba siempre sonriendo el alma que atravesaba la puerta mayor, y penetraba en la luz. El rostro no, no sonreía, porque no quería que sus carceleros lo supieran.

Al comienzo, cuando salía, llevaba un libro, para quedarse leyendo acostado sobre la hierba, en aquel que era su pasatiempo. Después descubrió que el libro era innecesario porque aunque estaba abierto ante sí, él no lo leía; su mirada prefería posarse sobre las hojas, los tallos de hierba, las nubes, verde y azul que le hacían tanta falta al monótono ceniza del cielo.

A partir de entonces, comenzó a llevar un pedazo de pan. El pan sí era importante para aprovechar mejor aquella hora. Se echaba un pedazo en la boca y se quedaba masticando, masticando. Primero era el gusto mismo del pan. Después, con la saliva, iba volviéndose gusto a trigo y, echado al sol, los ojos cerrados, el hombre podía imaginarse en un trigal, con algún agua cercana, de fuente o de arroyo, que manaba traslúcida y en la cual se mojaría la cara cuando tuviera ganas.

Fue a causa del pan que un pajarito llegó más cerca. No mucho, claro. Pero un poco más que los otros. Lo suficiente como para que el hombre reparara en él y empezara a observarlo con atención.

Quería las migas. Tenía una cabecita delicada y redonda que inclinaba hacia un costado como si pensase cosas importantes. Y tal vez las pensase… Los ojos también eran redondos, tan brillantes como duros. Y duro era ciertamente el pico con el que picoteaba el suelo sin descuidar la peligrosa proximidad del hombre.

“Es”, pensó el hombre, “un pajarito valiente”. Y esparció las migas sobre el césped, retirándose algunos pasos para que él pudiera ir a buscarlas.

Al día siguiente, apenas si recordaba al pajarito. Sin embargo nuevamente, en cuanto partía pedazos de pan para llevárselos a la boca, él se destacó entre los demás y se aproximó saltando, pronto a volar al menor peligro, aunque arriesgándose un poco más. Y nuevamente el hombre premió con migas su coraje.

Así comenzaron a entenderse. Y a partir de entonces el hombre descubrió que la alegría de salir se juntaba con otra, la alegría de un encuentro.

Ahora, cada vez que atravesaba la puerta mayor para zambullirse al sol, se preguntaba si el pajarito estaría allí, esperándolo. Y siempre estaba.

Durante semanas, el hombre tuvo el cuidado de mantenerse quieto, casi inmóvil, cuando el pajarito se aproximaba. Después, moviéndose muy despacio, con gestos idénticos, dejaba caer las migas y retrocedía unos pasos. Siempre del mismo modo, para que el otro comprendiese que él no representaba riesgos.

Y el pajarito llegaba, daba pequeños saltos, se detenía, volvía a saltar. Hasta llegar a picotear las migas, siempre atento a las actitudes del hombre.

Ese era el modo que tenían de conversar. Y para el hombre, que no hablaba con nadie, era una larga conversación.

Un día, retrocedió un paso menos. El pajarito vaciló pero se acercó.

Descubriendo que había hecho una conquista, el hombre le dio tiempo a su pequeño amigo para que se acostumbrase.

Después de muchos días, nuevamente acortó la distancia.

Y el pajarito se acercó.

Una alegría mayor afloró en el pecho del hombre. Sabía que era cuestión de tiempo y paciencia.

Y él tenía mucho de ambas.

Poco a poco, sin hacer nada que pudiera asustarlo, fue llevando al pajarito hacia sí. Retrocedía un poco menos. Dejaba caer las migas en dos tandas, contando con que, comidas las primeras y viendo otras tan a su alcance, el pajarito se aproximara más.

En ese juego se pasaron meses. Y es probable que el corazón del pajarito ya no palpitara más rápido el día en que fue a buscar sus migas en medio de aquellos zapatos oscuros. Pero el del hombre palpitó.

Faltaba mucho todavía. Porque la distancia entre los zapatos y la mano era tal vez más difícil de superar que los metros de hierba que ya habían sido vencidos. Pero el tiempo no parecía tener límites. Y la paciencia se hacía más grande a medida que aumentaba el amor.

Así se fueron los meses. Algunos. Muchos, tal vez.

Y, de murmullo en murmullo, se difundió en la prisión que aquel hombre había domesticado a un pajarito. Y que todos los días, cuando cruzaba la puerta mayor, llegaba el amigo entre cantos y batir de alas, a comer en su mano.

Pronto, los hombres de las otras celdas quisieron ver. Algunos se quedaron mirando por las ventanas, entre las rejas. Otros, que salían con él, empezaron a acompañarlo en su paseo por el jardín. Y todos llegaban y comprobaban: había un pajarito que confiaba en un hombre y le hacía fiestas, y se posaba en sus dedos para comer migas en la palma abierta.

Otros intentaron hacer la misma cosa, deseosos también de tener amigos. Pero a pesar del deseo y de las migas, ninguno lo consiguió. Entonces aquel único pajarito, que sólo reparaba en aquel hombre, se volvió un poco el pajarito de todos.

Y fue tal vez por eso que, pese a que una luz de victoria ascendió a los ojos de todos ellos, ninguno hizo un gesto ni soltó una exclamación el día que el hombre tomó una miga entre los dientes y el pajarito fue a buscar la comida en su sonrisa.

Pasó el verano. Llegó el invierno. Pero el invierno no era riguroso en aquel país, había flores, los pájaros no migraban.

De ahí el espanto del hombre el día en que el amigo no fue a buscarlo a la entrada del jardín. No lo vio buscarlo, ni apareció ante sí. Por primera vez. Y la hora que tenía para ser feliz se extendió dilatada entre los árboles.

Al día siguiente, una punta de angustia hirió al hombre en su celda, mientras esperaba salir. Caminando hacia la puerta mayor, intentó escuchar a lo lejos el canto de aquel pájaro, pero algo le decía que, además del sol, nada lo esperaba tras los pesados portales.

El pajarito no fue aquel día. Ni al otro. Ni otro cualquiera.

Al comienzo, el hombre quiso inventar justificaciones. Pensó que había sido cazado, o que había partido a hacer nido. Pensó que habría encontrado migas más suculentas o familiares.

Pensó en cosas así, que disminuyesen su tristeza por la pérdida del amigo.

Sólo después, cuando ella fue disminuyendo, él pensó en cosas más simples. Que el pajarito había seguido su destino fuera cual fuese. Un destino que lo llevaba lejos de ahí. Como el de él, alguna vez, también lo llevaría, lejos de aquel jardín, para siempre lejos de aquellos muros.

Piúba Manda Lembranças: direto de Bogotá



"Transcendência a partir do olhar de uma rã", conferência da Marina Colasanti no II Congresso Ibero-Americano de Língua e Literatura Infantil e Juvenil foi de uma beleza tocante e uma aula magistral. Começou com uma afirmação forte: "Não existe literatura infantil". E logo emendou: "Uma coisa é a literatura, outra é a produção e o consumo de livros para crianças e jovens". Marina fez uma travessia linda sobre os sentidos e sentimentos da palavra transcendência, dialogando com obras de Clarice Lispector, Guy de Maupassant e com os contos de fadas. Nos falou da cor azul da transcendência e de outras cores que ela possa assumir e fez um percurso de seus sentidos, passando pelo amor, a fantasia, a viagem e uma leitura preciosa da versão mais antiga de Chapeuzinho Vermelho, antes das suavizações do conto feitas por Charles Perrault e Irmãos Grimm. Ela nos apresentou o conto como uma metáfora completa de rito de vida. Para Marina, a transcendência não está na história ou nos personagens e sim no modo em que são narrados. Por fim, nos lembrou coisas como que para avançarmos temos que transcender a nós mesmos, perguntando ao infinito e a nós próprios quem somos. E por fim mais duas coisas: Ela nos disse que a transcendência é o que nos humaniza e que o bom educador é aquele sabe propiciar aos seus educandos o encontro com suas almas. Viva a transcendência da obra literária e da fala da Marina Colasanti, não é mesmo meu caro amigo Affonso Romano Santanna

Marina Colasanti com as crianças na FLIP

Crônica de Quinta: Uma festa muito cabeça


Estado de Minas, quinta-feira, 07 de março de 2013


Meu amigo fez 80 anos. Suas ex-mulheres mães de suas filhas, e suas filhas e maridos e filhos e até o bisneto celebraram a data com um jantar. E ao longo da noite vieram também, com presentes e abraços para o ex sogro, os ex maridos das filhas, pais de alguns dos seus filhos, com suas novas mulheres, trazendo no celular as fotos dos seus novos filhos. Houve um momento em que todos se juntaram para tirar a clássica foto de família, ou talvez não fossem todos, mas eram muitos. Os demais convidados sorriram vendo a tantos parentes em harmonia. E eu pensei que ali estava uma bela versão de família estendida, construída a partir dos anos 60, quando nem essa definição nem essa estrutura estavam em moda.

Nos anos 60, eu e boa parte dos convidados do jantar íamos três vezes por semana ao consultório do aniversariante, expor a vida e elaborar a psique. Era nosso conceituadíssimo psicanalista.

Tratou das cabeças mais pensantes e mais divertidas do Rio de Janeiro daquela época em que fazer análise era quase uma obrigatoriedade intelectual . E que época rica em cabeças aquela! Foi disso que mais se falou na festa, ao redor das mesas esparsas no jardim. Só na minha, estavam três atores, uma socialite, uma especialista em música e um escritor, todos antigos freqüentadores do mesmo endereço, os que haviam feito análise individual, e a maioria que havia caprichado também na análise de grupo. Ali, conversando entre amigos, tudo pareceu mais light e prazeroso do que naqueles dias, quando exorcizávamos nossos demônios, expúnhamos nossas fraquezas, e tantas vezes choramos.

Disse a ele ontem, brincando, que era um ótimo papel o seu, ficar ali recebendo de seus pacientes, em primeiríssima mão, os melhores projetos artísticos, os esboços das peças, o avançar capítulo a capítulo dos livros ou até das novelas de TV – eu própria tive uma companheira de grupo noveleira – , sem precisar ir a vernissage, estréia, ou noite de autógrafos.

Mas não eram tempos fáceis. Os que faziam teatro, cinema, os que escreviam ou eram jornalistas sofriam censura e repressão, havia alguns secretamente envolvidos na subversão. E chegou o momento em que nosso psicanalista, temendo que agentes da ditadura invadissem seu consultório para investigar os pacientes, devolveu a cada um seu prontuário com as anotações da sessões.

Esqueci, ontem, de contar aos companheiros de mesa um episódio curioso. Eu fazia individual há algum tempo, quando comecei a sentir sobre mim um peso estranho. Disse a ele, olha tem alguma coisa ruim, as portas estão todas trancadas à minha frente, não sou eu, é alguma coisa, algum trabalho que me fizeram. E ele, veja bem, Marina, isso aqui é análise, coisa séria, científica, não podemos lidar com esse tipo de possibilidade.

E passados uns dias, afastando minha mesinha de cabeceira para procurar algo que havia caído, encontro atrás, imprensada entre a mesinha e a parede, uma folha de papel com meu nome escrito a mão, e pingos de vela retendo fios de cabelo, e rasgos feitos com alguma faca ou ponta sobre meu nome. Enojada, botei o papel num envelope, levei para ele. A presença obscura pesou naquele consultório. O que fazemos com isso?, perguntei. Ele riscou um fósforo, e queimamos o achado ali mesmo, cientificamente.

Para todas as moças tecelãs


A ilustradora Cátia Ana, fez uma linda releitura do conto "A Moça Tecelã". Já aproveitamos a deixa para parabenizarmos todas as moças que tecem seus próprios destinos!

Sereia

Para Ana Maria Santeiro, Ilustración de Marina Colasanti. Rio de Janeiro, 6 de febrero de 2013



Abro a torneira
y na banheira

meneia
minha alma de sereia.



Marina Colasanti
Classificados e nem tanto
Galerinha Record, Rio de Janeiro, 2010

Trailer De água nem tão doce/Water not so sweet (videodança)

Trailer do videodança
"De água nem tão doce"
inspirado no conto homônimo de Marina Colasanti
Direção Laura Virgínia e Shirley Farias
Direção de Fotografia: Cicero Bezerra
Dançarinos: Juiio César Campos e Laura Virgínia

Congresso Iberoamericano de Leitura e Literatura Infanto Juvenil



"(...) Estou viajando amanhã para Bogotá. Faço uma palestra no II CILELIJ ( Congresso Iberoamericano de Leitura e Literatura Infanto Juvenil). O tema que me coube é Transcendência , e o título que dei à minha apresentação é "A partir do olhar de uma rã"


Propriedade e delicadeza para falar de leitura


Fazendo da leitura o ponto central da sua explanação, Marina defende que essa prática é fundamental para a formação de uma pessoa, dando ao indivíduo poder para fazer escolhas e aumentar o conhecimento de si próprio e dos outros. “Cada pessoa lê um livro de maneira diferente e em cada uma delas um novo universo se desperta”, afirma. A escritora observa que a importância da leitura está localizada também na formação de cidadãos críticos. “Em nosso país, por exemplo, ainda é preciso se fazer campanhas de conscientização, em pleno século XXI, para que as pessoas não vendam seus votos. A campanha é ótima, mas me enche de vergonha. A leitura ajudaria nisso”, ressalta.


"Cada pessoa lê um livro de maneira diferente..."

"...e em cada uma delas um novo universo se desperta."
"A escrita não é elemento indispensável para o exercício da narrativa."

Marina e Affonso


Foto: Simon31

Resultado da Promoção Marina Manda Lembranças 1 ano


E nós já temos um sorteado da Promoção do 1º Aniversário do Marina Manda Lembranças. A ganhadora do livro "O Nome da Manhã", foi a Denise Figueiredo. Parabéns Denise! A todos que participaram, deixamos aqui o nosso muito obrigado. Em breve voltaremos com uma nova promoção.


Crônica de Quinta: A bordo com o felino



Estado de Minas, quinta-feira, 28 de março de 2013


E assim, domingo passado, o diretor Ang Lee recebeu o Oscar de melhor direção pelo filme “A História de Pi”, e o mesmo filme levou mais três estatuetas. Não fiquei na frente da televisão para ver a noite fetiche do cinema americano, mas no dia seguinte, lendo os jornais, pensei em Moacyr Scliar e em outro amigo, Antonio Orlando Rodriguez.

Todos sabem, a história de Pi é a mesma história de Max. Em outro contexto, mas a mesma história. Max é um jovem alemão do século XX que cresceu temeroso e inseguro sob o jugo de um pai severíssimo, e que já adulto, envolvido eroticamente com a mulher de um militar nazista, se vê obrigado a deixar o país. E o faz de navio. Pi é um jovem cuja família, dona de um zoológico em Pondicherry na Índia, se vê premida pela situação econômica a deixar o pais. E o faz de navio.

A história de Max foi escrita por Moacyr Scliar em 1980 e publicada em inglês em 1990. A de Pi foi escrita pelo canadense Yann Martel em 2002.

Todo mundo já sabe que os dois navios naufragam no meio da viagem e que tanto Pi quanto Max se vêm obrigados a lutar pela sobrevivência disputando com um felino o restrito espaço de um bote salvavidas.

Mas pouca gente sabe que no oceano narrativo esses acontecimentos parecem se multiplicar, pois outra embarcação salvavidas navegou quase na mesma época levando uma mulher e um leão. É o que acontece na peça “El león y la domadora “, escrita pelo cubano Antonio Orlando Rodriquez, e apresentada pela primeira vez em Bogotá, pelo grupo Mapa Teatro, em 1998.

Antonio Orlando, amigo querido com quem estarei na próxima semana em um congresso na Colombia, vive hoje em Miami, recebeu em 2008 o prêmio Alfaguara de romance, é autor multipremiado, e com Sergio Andricaín criou o portal “Cuatrogatos” de literatura infanto juvenil. Quando escreveu a peça, morava em Bogotá. A história, que ele mesmo me contou, é claramente referente a Cuba: leão e domadora estão ao largo em uma espécie de jangada que ela construiu quando, faltando meios, e sobretudo faltando carne na ilha em que viviam e onde atuavam no circo, decidiram emigrar. O leão é depressivo, a domadora é dominante, mas a falta de carne a bordo tende a desequilibrar a situação.

Yann criou sua história ao ler uma resenha do livro de Scliar. A intenção de Scliar havia sido discutir através de metáforas o enfrentamento judeusXnazistas; ali estão o pai repressivo, o nazi ameaçador, e a personalidade submissa que precisa erguer-se e enfrentar a fera para sobreviver. Antonio Orlando, que desconhecia o livro de Scliar e escreveu sua peça antes que Martel escrevesse Pi, também recorreu às metáforas para elaborar a situação da Ilha e seu próprio processo de desligamento.

A viagem com o felino é comum a todos os que emigram. Que seja tigre, jaguar ou leão. Nem é necessário o naufrágio. Aquele que vai em busca de uma terra a conquistar leva a fera consigo, ela é o risco do fracasso, o medo do desconhecido, a funda consciência de que será necessário passar de caça a caçador.

Ang Lee ganhou esse Oscar pela direção, e merecia. Parece provável que tenha levado um felino consigo ao se transferir de Taiwan para os Estados Unidos. E todos os que vimos “O tigre e o dragão” já sabíamos de sua aguçada sensibilidade no trato com as feras.