Marina Manda Lembranças N a última sexta-feira não só sextei, como aprendi uma gíria nova. Quando jovem aprendia as gírias assim que saiam d...
Marina Manda Lembranças
Marina Manda Lembranças
Fui visitar uma amiga de juventude e a filha dela me apresentou a essa gíria, para mim até então, completamente desconhecida.
Quando telefonei para a minha amiga, ela me perguntou a que horas chegaria e ouviu, estarrecida, a reposta que lhe dei: “à hora mística do pescador astuto”.
Era a frase que usávamos quando éramos da turma do Arpoador. A frase não especifica a hora, pode ser quando a luz vai se pondo no horizonte e o peixe sai da toca. Mas sabemos que a luz varia de acordo com as estações, por isso a frase fala do pescador astuto. Porque é preciso ser astuto para entender o mar e o sol.
Quando fazíamos parte de turma do Arpoador havia ainda mariscos grudados na pedra e, uma vez por semana, Zé Dentes de Foca fazia uma mariscada cozinhando os pobres moluscos numa lata de banha cheia de água do mar, (sim, ainda se cozinhava com banha, a era do óleo custaria muito a chegar).
Se não houvesse mariscos meu irmão não se teria cortado no peito e nas coxas, não teve paciência de esperar a onda que o levaria de carona, e foi esse o resultado.
Quando éramos jovens não existia o Parque Garota de Ipanema (que, com o devido respeito a Jobim e a Vinícius, deveria se chamar Garota do Arpoador) nem a travessa que liga a praia com a Francisco Otaviano. Em seu lugar havia um terreno cheio de mato, não sei se do exército ou da marinha, onde existia uma única casa, suponho que habitada pelos vigias, aonde íamos pedir água, sobretudo nos dias em que passávamos a tarde inteira na praia.
Nem existia o Mau Cheiro, apelido dado a um bar precário, diante de um posto de ônibus onde os motoristas iam mijar e tomar café. Exatamente nesta ordem.
Na verdade não havia nenhum dos prédios que há hoje. Excetuado o Prédio Cinza, como chamávamos o edifício que sobreviveu, e hoje surge altaneiro na esquina que separa a Vieira Souto da Francisco Otaviano.
Era o nosso point, onde nos juntávamos à tarde, com nossas lambretas e vespas. Meu irmão Arduíno tinha uma vespa, eu ia de carona com ele, e usávamos mangas compridas para nosso pai não perceber pelos arranhões e pelos hematomas que havíamos caído, o que levaria nosso pai a sequestrar a vespa por não sei quantas semanas. Naquele tempo era muito fácil cair, ainda existiam bondes, e era só a roda minúscula de vespa ou lambreta entrar no trilho para voar de pernas pro ar.
Tenho uma reportagem guardada, da revista Manchete, portanto muito antiga porque a Manchete deixou de circular faz anos, que mostra fotos do nosso point, nós todos reunidos, alguns montados no seu veículo. E outra foto, que nos mostra em ação, trafegado pela avenida que beirava a praia.
Minha amiga e eu fomos as primeiras moças a usar biquíni, eu fazia os meus, e os da minha amiga eram costurados pela mãe. Que não era uma velha senhora, quando jovem havia usado o primeiro duas peças, até a cintura, porém. Não sabíamos que os garotos vinham de outras praias para admirar as jovens que usavam biquíni no Arpoador. Só soubemos anos depois, demasiado tarde para inflar nossa autoestima.
Minha amiga morava na rua Joaquim Nabuco, que não tinha, naquele tempo, nenhum edifício excetuado um, chamado Brahma. Não era publicidade gratuita da cerveja, mas uma homenagem ao criador do universo.
Observávamos algumas garotas de programa que usavam um apartamento daquele prédio como um motel. E as chamávamos “brâmanes”.
Comecei falando de gírias, e acabei transformando a crônica em saudosismo puro.
