Marina Manda Lembranças N o sábado vi, pela segunda vez, o último capitulo da novela “Pantanal”. Pela segunda vez me emocionei com a mulher ...
Marina Manda Lembranças
Pela segunda vez me emocionei com a mulher que vira onça, primeiro Maria Marruá, morta com um tiro, depois Juma Marruá que vai ter sua menina na beira do rio, com a ajuda do Velho do Rio. Que, quando necessário, como na morte do Tenório, se transforma em sucuri.
Invenções de Benedito Ruy Machado, inspirado no realismo fantástico que tornou-se um sucesso internacional, partindo da América Latina, à medida que o livro de Gabriel Garcia Marques ,“Cem anos de solidão”, foi sendo mais e mais lido. Há outros autores de realismo fantástico, o primeiro deles é o argentino Júlio Cortázar.
Benedito Ruy Barbosa aproveitou os elementos do realismo fantástico, em 1990, quando o apogeu das décadas de 60 e 70 já havia passado.
Madeleine morreu em um desastre de avião, porque Ítala Nandi, que interpretava o papel, pediu ao autor uma semana de folga para atuar num filme.
Sorte a de Joventino, na segunda versão, que pode representar um filho que vai, por decisão pessoal, conhecer um pai que nunca conheceu e que para ele foi dado como morto. Belo papel. E excelente ator (Jesuíta Barbosa ).
Quem não se emocionou com a transformação de Maria, não mais Bruaca, em uma mulher feliz, era pessoa insensível. Todas as mulheres, na frente da televisão ou alhures, torciam por este final, pela redenção de Maria (Isabel Teixeira ).
Muito diferente da do seu avô, foi a versão de Bruno Luperi, que botou na mesa todas as questões que não existiam na primeira exibição de Pantanal. Homofobia, briga entre irmãos, lutas perdidas e lutas vencidas, considerações sobre o dever de defender a natureza, as mudanças climáticas. A maioria delas pela boca de Zé Leôncio (Marcos Palmeira). E algumas pela presença do Velho do Rio (Osmar Prado). E outras manifestações por Almir Sater, que comenta, rio abaixo rio acima, que as águas estão muito baixas, e acaba atolando a chalana num banco de areia. Expressão física do que se falava das mudanças climáticas.
Muito emocionante, mas já esperada, a cena do triplo casamento.
As novelas costumam acabar com uma série de casamentos. Como se o casamento fosse a única forma de manter um relacionamento. Deve ser para satisfazer a maioria conservadora brasileira, que almeja um casamento e que se arruína para providenciar a festa.
Bem comovente foi a despedida do Velho do Rio, tirando o chapéu, despindo a capa, sem que se visse que estava afundando pouco a pouco. Até que afundou completamente, indo para fundo do rio, passando o posto de protetor do Pantanal e das criaturas que nele habitam para seu filho, a quem apareceu na hora da morte, para acolhe-lo em seus braços e ajuda-lo para fazer a travessia.
Sensível foi a morte de Zé Leôncio processada em dois tempos. O primeiro tempo, sozinho, dentro de casa, quando tem um infarte e percebe seu pai na foto. O segundo tempo já nos braços do pai, que chora, abraçando o filho.
O caixão de Zé Leôncio é levado na chalana. À frente os três filhos, Joventino, Tadeu, e José Lucas tocam seus berrantes. Ao longe o pai deles, já no papel de protetor do Pantanal, responde. Quando os berrantes dos filhos se calam, dá para perceber a resposta do pai. Os filhos se entreolham, sabendo que o pai está vivo em outra dimensão. Filó (Dira Paes) murmura alguma coisa endereçada ao Zé.
Cinco ou sete anos depois Filó assumiu o controle da fazenda, e até herdou o chapéu do Zé Leôncio. Manda o neto, maior, e a neta, criancinha, brincarem.
Mal sabe Filó, que vão brincar com o avô, já imbuído no papel de protetor do Pantanal. Ele brinca com a neta, que imita a mãe virando onça, garras ao alto, “com reiva!!”.
Vai o Velho do Rio mostrar a casa onde a mãe dela morava antes.
Desconfio que seja um gancho para um remake.
