Marina Manda Lembranças Q uando meu irmão morreu chorei muito. Recebi a notícia em minha casa de montanha. Foi Roberto, meu s...
Marina Manda Lembranças
Éramos muito companheiros meu irmão Arduino e eu.
Lembro que quando morávamos em Como, a Itália estava em plena guerra, um dos dois fazia os nós, que o outro era obrigado a desamarrar. Assim passávamos os dias, enquanto, lá fora, ia a guerra a galope.
Mudamos para a casa das montanhas, que nossos pais consideravam mais segura – mas foi da varanda que vi uma cidade em chamas. E no jardim, melhor chamá-lo de mato, meu irmão e eu passávamos as tardes de verão pendurados nos galhos da cerejeira selvagem, comendo cerejas.
Porque, no inverno, íamos à escola e meu irmão, me ensinou a deslizar, sentada na pasta, na ladeira que acabava, justamente, na escola.
Quando chegamos ao Rio, fomos morar na mansão do Parque Lage. Pegamos sarna, dos cachorros pequineses que minha tia avó, que sempre chamei de tia, colecionava. E tomávamos banho de banheira vermelha de pórfiro, de um bloco só, com água sulfurosa que tinha um cheiro nauseabundo.
Depois, quando passou a sarna, fomos mergulhar na represa e na cachoeira. E brincar de cipó. Eu pegava um cipó e meu irmão pegava outro. Eu largava e meu cipó e pegava o do meu irmão, inconscientes do perigo. Brincávamos de Tarzan, que pegava um cipó e, logo depois, trocava por outro, assim voava na selva cheia de chimpanzés, babuínos e búgios.
E teve a vez que brincamos na pedreira. A pedra estava úmida, tinha chovido recentemente, eu escorreguei e Arduino veio em meu socorro, aparou um pé na sua mão, e foi assim que me equilibrei.
Na gruta nos escondíamos e brincávamos pisando na água que se acumulava no chão de pedra – não esqueçamos que era uma gruta falsa. Na torre, em parte derrocada, avançávamos cuidadosos com medo de botar um passo em falso e desabar com a torre.
E fizemos a cabana, que seria nossa casa. Arduino escolheu o lugar, perto da gruta. Não podia entrar nada que não fosse da natureza, amarramos os bambus, com fios de capim, repetidas vezes, para dar consistência ao conjunto, pusemos janela, um quadrado e nada mais, pusemos a porta, verdadeira e sólida.
Nossa cabana foi aproveitada para um filme, transportada para outro lugar mais conveniente para as tomadas, que deveria ser com Vanja Orico, mas foi cancelado e sumiu do mapa.
Arduino e eu jantávamos às seis horas, eu sentada na cabeceira da mesa enorme. Volta e meia nossa mãe vinha controlar, se tínhamos bons modos, e cuidava da comida que nos era servida. Mas, ao contrário de todos os irmãos que brigam por batatas fritas, nós disputávamos o coração da salada. Entenda-se, eu morei dois anos com minha avó e Arduino vinha a todos os finais de semana – menos no verão, quando íamos à praia. Essa avó tinha um filho que morrera de tifo, e ela nos proibia de comer salada, achando que as folhas mal lavadas tinham transmitido o tifo ao filho.
Daí nossa gula por salada.
Nunca vi nenhum parente nosso nadar na piscina, nem nosso primo Henrique – com quem sigo me relacionando. A única a nadar era nossa mãe, e nós dois. Havia um trampolim que não sei porque foi desaparafusado e desapareceu.
A farra era quando esvaziavam a piscina para lavar. Só água natural era usada na piscina, nada de cloro. A água era fornecida pela represa. Arduino e eu ajudávamos os empregados a escovar a pedra. Porque pedra era o que forrava toda a piscina, que havia sido concebida como impluvium de uma casa da antiga Roma, no projeto original da mansão.
