Marina Manda Lembranças E m casa somos dois escritores e Affonso foi professor até que se aposentou. Eu tenho várias áreas de...
Marina Manda Lembranças
Vi no Globo, edição de sábado, uma matéria sobre estantes e livros. Conheço três dos entrevistados. Só não conheço a booktoker, porque não frequento a internet nem trafego pelas redes sociais.
Acho que posso me incluir, com Affonso, entre os escritores, jornalistas e colecionadores de livros. Não sei como um escritor consegue viver sem colecionar livros de toda espécie.
Affonso se apropriou da estante que corre ao longo de todo o andar de cima – moro num apartamento duplex, uma cobertura – inclusive tem livros no seu escritório que dá para o terraço.
Eu também tenho livros no meu escritório, que igualmente dá para o terraço.
A escolha obedece aos meus interesses. Há uma parte de amor, porque, muitas vezes escrevia sobre amor na revista Nova. Há uma parte de história da arte. Há uma parte de sexo porque inúmeras vezes tinha que escrever sobre sexo na Nova. Há uma parte sobre mulheres ilustres porque tinha que pesquisar na minha época feminista.
E há os meus livros favoritos, que volta e meia releio. Ítalo Calvino, Neil Gaiman, Júlio Cortázar, Jean Giono e Borges. Muitos outros.
Affonso encheu as prateleiras verticais da sala de jantar, com biografias. A horizontal é minha. Ali estão os livros de autores japoneses, de que fui apaixonada depois que, com meu irmão, vimos cinco ou seis vezes “Os sete samurais”. E a minha coleção de escritores italianos, que inclui mais Dino Buzzati meu escritor favorito porque trabalha movido pela imaginação, mais Ítalo Calvino, Elsa Morante ex-mulher de Alberto Moravia – de quem traduzi três livros – e escreve melhor que ele, Dacia Maraini, de quem tesouro o livro “Cercando Emma” um estudo sobre Flaubert e a personagem do seu primeiro livro, que levou cinco anos para escrever, Emma Bovary que morre tuberculosa, e que Flaubert desprezava – mesmo assim usou sua amante para moldá-la. Cesare Pavese, excelente poeta, de quem tenho o diário, e morreu suicidando-se com um tiro na cabeça.
Botei uma prateleira no corredor, que é ocupada pelos livros do meu fazer. Há livros de cinema, poque eu apresentava um programa de cinema, na antiga TVE, que só passava filmes velhos, tinham dito que um redator me forneceria os detalhes do filme, mas esse redator nunca apareceu, e eu tinha que decorar os detalhes do filme, porque o teleprompter não existia ou a TVE não tinha dinheiro para comprar, por isso os livros de cinema. Há livros de guerra, porque para escrever “Minha guerra alheia” precisava me incluir na História. Há livros teóricos sobre literatura infanto-juvenil, porque escrevo livros para crianças – que não são contos de fadas – eu precisava de instruções teóricas. E há livros sobre feminismo, porque sou uma feminista histórica.
Tive uma papeleira, onde guardava minhas ilustrações, que foi roída pelos cupins e minhas ilustrações ficaram sobre a prancheta.
Há uma estante que me pertence no andar de cima, nela está guardada a minha enciclopédia de arte que meu pai financiou. Aliás as enciclopédias não servem mais. Desde que eu comprei a Brittanica pagando todo mês um exemplar, entrou o Google, muito mais fácil de pesquisar.
E há estantes no meu closet cheias de livros meus e dos meus colegas de profissão, livros para crianças autografados. E livros meus espalhados pelo chão, e meus livros empilhados com as caixas em que chegaram.
Por toda casa há pilhas de livros, que estou lendo ou acabando de chegar. Como disse acima, não sei como um escritor pode viver sem colecionar livros.
